Símbolos do Santanópolis

FOTO OFICIAL DO ENCONTRO

FOTO OFICIAL DO ENCONTRO

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

ANIVERSÁRIO DE NANI

Comemorando aniversário a santanopolitana, do signo de Libra, sob proteção de Oxumaré, Iranilce Ferreira Macêdo (Nani).

Desejo que seu aniversário lhe traga uma felicidade imensa e que você possa realizar todos seus desejos nessa nova etapa de vida. Parabéns!

 

terça-feira, 6 de outubro de 2020

0 CORONELISMO NA BAHIA - II

JOÃO MENDES DA COSTA


 Outro coronel que não costumava utilizar capangas armados para sua segurança pessoal ou ataque a terceiros, foi João Mendes da Costa. Este feirense, não só conquistou um lugar no coração de seus conterrâneos, mas também a gratidão de milhares de anónimos retirantes que por Feira de Santana tiveram a ventura de passar em 1932, quando uma terrível secas assolou o nordeste brasileiro.

Cumprindo o seu segundo ano de mandato como prefeito, João Mendes da Costa muito pouco pode realizar no setor de construções públicas, pois toda a verba disponível nos cofres da municipalidade foi utilizada no socorro da legião de migrantes, que famintos, à porta da prefeitura chegavam, e nunca partiam sem que em seus embornais levassem algum alimento para uma penosa jornada com destino e futuro incertos.

Contudo, apesar da propaiada generosidade, tinha o coronel João Mendes uma peculiaridade em seu temperamento, bem característico do mandonismo: não tolerava ser desobedecido ou contrariado. E foi justamente após o seu mandato na prefeitura, que João Mendes teve a oportunidade de deixar claro que uma decisão sua era inquestionável.

A chuva redentora, que caiu no verão de 1933, revigorou o ânimo da gente sertaneja, enverdeceu campos e pastagens, fez transbordar leitos de riachos, encheu tanques, cacimbas e resgatou o verde de volta à pálida paisagem das caatingas. Entretanto, estas enchentes abruptas em uma terra ressequida, e o calor sufocante trazido pelas trovoadas de verão, favoreceram a proliferação de mosquitos e consequentemente, ocorreu uma grave epidemia de malária na região interiorana da Bahia.

O Governo Estadual, ante mais este flagelo, enviou para os municípios onde a febre palustre incidia mais gravemente, grupos de combate ao inseto transmissor da doença. Estes funcionários públicos faziam inspeções em residências, prédios públicos e instalações rurais, em busca de depósitos de água estagnada; ecossistema propício à multiplicação de pernilongos, vulgarmente chamados de muriçocas. A única forma conhecida à época, de assepsia do local infestado, consistia em pingar gotas de petróleo 'in natura', no depósito aquífero. A medida eliminava de forma eficiente as larvas, mas provocava o inconveniente de tornar a água imprópria para consumo, além de quase sempre, inutilizar o recipiente, que ficava impregnado com o desagradável cheiro do mineral.

Vindos da capital, os - "guardas da peste", - alcunha com a qual a população denominava estes agentes sanitários, chegaram na estação ferroviária de Feira de Santana, vestindo vistosas fardas de cor caqui, causando admiração aos populares que assistiram ao desembarque do pomposo grupo. Conforme orientação das autoridades estaduais, o grupo inicialmente dirigiu- se ao casarão onde residia o coronel João Mendes da Costa, que os aguardava.

Acreditava-se que a aquiescência do coronel para que inspecionassem sua casa, funcionaria como uma espécie de salvo-conduto, abrindo as portas das moradias dos demais feirenses, que como qualquer sertanejo via de regra, eram avessos à gente fardada.

Liderados por um superior hierárquico cujo nome perdeu-se na memória popular, esta grande comitiva chegou no velho casarão localizado na rua D'Aurora, que por sua vez situava-se nas proximidades de uma aguada pública conhecida como "tanque da nação". No local a população mais carente se abastecia de água para consumo doméstico numa fonte jorrante, e vaqueiros conduziam boiadas para beber em cochos construídos com esta finalidade. Área, à vista disso, muito susceptível de infestação pelo vetor da malária.

O coronel, homem de pouca instrução, mas traquejado pela vida pública, os recebeu hospitaleiramente, e ao lado do empertigado chefe da diligência, acompanhou sem obstaculizar, o trabalho dos agentes que foram vistoriando as áreas externa e interna da casa, aplicando gotas de petróleo onde se houve necessário.

Tudo transcorre conforme a expectativa geral, até ser localizado num dos quartos da casa, um grande vaso de barro, cheio d'água; e larvas de mosquitos são detectadas no seu interior. Questionado porque aquela ânfora encontra-se em local úmido, escuro e afastado da cozinha, o coronel esclarece que é um utensílio centenário herdado de seus antepassados, portanto uma relíquia familiar conservada com muito carinho há várias gerações. O chefe dos mata-mosquitos, cioso do seu dever, sem demonstrar simpatia ou benevolência, declara que é necessário desinfetar o recipiente. O coronel tenta contemporizar dizendo-lhe não precisar chegar a tal ponto, pois mesmo sabendo que vazio, o pote poderá perder a impermeabilidade, se compromete em derramar a água nele contida, enquanto a epidemia não estiver debelada.

Para demonstrar que detém a autoridade, o emproado inspetor se mostra irredutível, e determina ao agente que prossiga com a desinfecção. Obediente, o "guarda da peste", enfia a mão em um embornal que traz a tiracolo e retira um pequeno tubo contendo petróleo. Neste instante, já com o rosto ruborizado, alterando o tom de voz, João Mendes adverte:

- Não seja besta, guarde este vidro...

À medida que o diálogo se torna mais áspero, parentes do patriarca e os demais agentes sanitários, acorrem ao cubículo aonde se estabelecera um patético campo de batalha.

Aquele já não é mais um mero vasilhame de barro; é agora, um troféu e ser conquistado. É o confronto da nova ordem, instalada após a revolução de 1930, contra a oligarquia patriarcal, ícone da Velha República. Ao vencedor singular butim: um pote.

Observado por aquela inesperada e silenciosa plateia, e vendo a indecisão de seu comandado no cumprimento da ordem, o inspetor, numa exibição exacerbada de arbítrio, toma a ofensiva:

- Os tempos mudaram! Coronel de patente comprada não manda mais na Bahia! Só recebo ordens do Governo Estadual, ouviu?

E, aliando ação às palavras, inopinadamente arrebata das mãos do subalterno o frasco de petróleo, tomando para si a heroica missão poluidora, em nome da revolução vitoriosa. Só não contava com o contra-ataque do inimigo, que dando dois passos para trás, abre o paletó, saca um revólver e sentencia, em nome do coronelismo resistente:

- Pois então, moleque, despeje! Despeje se você for homem!

É um pandemónio! Uns correm para a rua, outros em direção aos fundos do casarão, enquanto o velho patriarca gira sobre os calcanhares, arma em, punho, procurando em vão, um alvo mais estático. Em segundos, a quieta e descalçada rua da Aurora, é tomada por "guardas da peste" que em debandada fogem rumo à estação ferroviária, fazendo poeira se alevantar no velho caminho das boiadas. O único que não está entre os fugitivos é o pedante inspetor. Não por ser o mais corajoso entre todos, antes talvez, o menos aventurado.

Na correria que se seguiu, o chefe dos mata-mosquitos partiu em direção ao quintal, e tomado pelo pânico, não teve forças para saltar o cercado de varas que circundava o casarão. Assim, como única alternativa, buscou abrigo no oitão da casa, onde ofegante e trémulo, braços abertos, calcanhares unidos e costas colada à parede, tentou ficar o menos visível que aquele arremedo de camuflagem lhe permitia. Já começava a sentir-se ancho naquela posição tragicômica, quando um estalido metálico o faz olhar em direção oposta. Distante apenas alguns passos, o coronel João Mendes da Costa, que se aproximara sorrateiramente vindo pela porta da cozinha, arma engatilhada, e apontada para o infeliz, diz sarcasticamente:

- Despregue de minha parede que eu não gasto bala em lagartixa...

Salvo pela interferência de familiares do coronel, e após acordar do súbito desmaio causado pelo pavor, foi o inspetor levado à estação ferroviária ainda em estado de choque. Retornando à Capital, fez um grande estardalhaço junto às autoridades, que em vista dos acontecimentos, enviou a Feira de Santana uma comissão pacificadora composta de ilustres baianos, da qual fazia parte um dos filhos de João Mendes; jovem advogado, bem relacionado pelo epíteto de "Suíça Sertaneja"; graças à postura de imparcialidade que manteve durante Sentado em uma cadeira ao lado do vaso, de onde teimosamente nos últimos dias relutava em se afastar, arma à cintura, o velho ouviu atentamente o arrazoamento da comitiva. Alegando a completa desmoralização do programa de combate à malária, depois da humilhante expulsão sofrida em Feira de Santana, os visitantes sugeriam que para satisfazer o Governo e a opinião pública, sem, contudo, perder a respeitabilidade, poderia o coronel, frente a umas poucas testemunhas, colocar com as próprias mãos, algumas gotas de petróleo no interior da bilha. Estaria assim cumprida a missão dos agentes sanitários, e o incidente seria dado por encerrado.

Após ouvir calmamente a proposta pacificadora, João Mendes levantou-se e, enquanto palmeava carinhosamente o antigo utensílio foi taxativo:

- Não, senhores, a mão de ninguém, muito menos a minha, vai estragar este pote. Está com minha família há muito tempo... Matou a sede de meu avô, a de meu pai, e na minha infância era dele que eu bebia quando retornava das passarinhadas nas redondezas dos três riachos. O tal do inspetor disse que não sou mais autoridade, e tem razão, meu tempo já passou: mas digam lá aos donos do poder, que nesta casa, a última palavra ainda é minha; e aqui ninguém mexe, custe o que custar!

A comitiva voltou à capital, os mata-mosquitos voltaram à Feira de Santana sob o comando de outro inspetor, o saneamento prosseguiu, mas ninguém ousou voltar ao velho casarão.

Contam os mais velhos que, após muitos anos do falecimento de João Mendes, o pote da discórdia permanecia no mesmo quartinho, como um monumento caboclo em honra aos coronéis de outrora.

As atitudes idiossincráticas destes régulos de aldeia, a princípio podem parecer recrimináveis em sua inteireza; mas a partir de uma análise mais abrangente, levando em consideração o meio sócio-geográfico, que lhes serviu de berço, sem perder de vista ainda, a temporalidade dos fatos, é possível concluir que a linha divisória entre o certo e errado, admissível ou reprovável, perde nitidez à medida que recuamos no tempo.

Nos idos de 1830, para Militão Plácido Antunes, deixar de lavar com sangue a honra maculada, era danar-se perante a sociedade; um opróbrio a ser carregado até o fim da vida; uma tácita abdicação do poder, pois não mais teria o respeito de sua grei.

Também estaria sujeito a severas críticas o coronel João Mendes da Costa, caso voltasse atrás e permitisse que aquele velho pote fosse danificado; melhor seria enfrentar o Estado, à mão armada, que se submeter ao escárnio da provinciana comunidade feirense de 1933.

Não se objetiva aqui, absolver alguns coronéis de eventuais atrocidades antanho.

Entre as qualificações apreciáveis em um chefe sertanejo, estava justamente a firmeza de caráter, a capacidade de reação imediata à afronta sofrida, e uma valentia desmesurada. Reputação que os tornavam respeitados entre os seus pares, temidos por inimigos e admirados pelo vulgo.

Um Coronel, não podia ser transigente com as regras consuetudinárias que a sociedade o nomeava guardião, e ao mesmo tempo lhe impunha, sob pena de não ter legitimada por seus conterrâneos, a patente granjeada por compra ou através de benesses políticas.

Horácio Queiroz de Mattos. Capitulo III

Francisco Otávio L. Ferreira Secretário Adjunto do IFiGFS Estudante do Curso de Jornalismo (UNEF)

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

FALECIMENTO DE JOSELITO FALCÃO DE AMORIM

Faleceu à noite de domingo, Joselito Falcão de Amorim aos cento e um anos, de complicações de covid-19. Enterrado hoje pela manhã, no jazigo nº 1(hum), do Cemitério São Jorge, que foi criado quando ele era Prefeito de Feira de Santana.

Amorim, no "II ENCONTRO DOS
SANTANOPOLITANOS" - 2010

Amorim teve uma trajetória de vida muito importante em Feira de Santana, mas teve sua formação ligada ao Colégio Santanópolis: como aluno foi fundador do curso ginasial, 1934 a 1938; curso Técnico em Contabilidade, 1943; professor de matemática de 1939 a 1961; administrador do internato do Ginásio Santanópolis, 1940 a 1948, inspetor do MEC para o Colégio Santanópolis, do curso de Contabilidade; Diretor do Curso noturno do Colégio Santanópolis.

Participou de todos os encontros (cinco) dos ex-professores, alunos e funcionários do Colégio Santanópolis.

Foi personagem central do romance escrito por Jailton Batista. "O filho da Madre"  Quando do seu centenário, este Blog postou sua vida. História de Amorim  

Ele tinha grande apreço pelo Santanópolis. Em sua bela festa de comemoração de 100 anos de vida, na decoração do Cajueiro, tinha um grande escudo do Colégio Santanópolis. 

Ver também: Vídeo por ocasião da Comenda Maria Quitéria. Este vídeo é um discurso raro, Amorim conta a vida dele, que é difícil alguém ter coragem de revelar, com noventa e dois anos

Última homenagem a Amorim,
em que estivemos presentes, no
casarão de Eduardo Motta. "Música
no Casarão" com a Filarmônica 25 de
março


na época, memória intacta, e uma vida de ficção, quando incentivei Jailton a escrever o livro. Perfil de Amorim

Capa do livro de Jailton

domingo, 4 de outubro de 2020

LANÇADO LIVRO DE MARCONDES

 Marcondes Araujo: Meu romance Doralice e o Minotauro já está à disposição no site do Amazon. Trata do poder transformador da arte na vida das pessoas, e das falsas representações que cada um faz de si próprio, perante os outros e perante si mesmo. Veja o primeiro capítulo:

1

"Seu nome era Tertuliano Degá. Retratista do sertão. Ganhava a vida assim, perambulando pelas brenhas e grotões do interior, parando onde houvesse um mínimo de organização política e social que permitisse o florescimento das virtudes cívicas, militares e eclesiásticas. Tão logo identificava as pessoas virtuosas do lugar, mostrava-lhes o quanto era capaz de imortalizá-las, retirando de uma surrada pasta de papelão retratos de personalidades, fictícias ou reais, que haviam sido transformadas em figuras eternas, legendárias e universais.

Apostava nos recônditos delírios de grandeza dessas pretensas celebridades provinciais, na forma como gostariam de ser vistas pelos simples mortais, incluindo elas próprias. E sempre alcançava bons resultados. Assim, houve casos de prefeito que se fez retratar como Napoleão Bonaparte, com a mãozinha enfiada por debaixo de um arrochado colete branco; de delegado de polícia envergando um floreado chapéu de couro do cangaceiro Lampião; de vereador envolto por uma solene túnica de senador romano; de juiz de direito usando uma daquelas hilariantes perucas dos magistrados britânicos; de primeira-dama ostentando um reboculoso penteado de Jaqueline Onassis, no tempo em que ela era a esposa de John Fitzgerald Kennedy; de secretária de Educação posando com um daqueles enflorecidos chapéus das damas parisienses pintadas por Pierre Auguste Renoir; de diretora de creche municipal fazendo aquele oscular biquinho de Marilyn Monroe, popularizado por Andy Warhol; de um maestro de filarmônica, negro, com a cara carrancuda e a cabelereira revolta de Ludwig Van Beethoven; de um advogado gorduchinho e fanfarrão fazendo a famosa pose de um Ruy Barbosa meditativo, apoiando delicadamente o rosto nos dedos suavemente encurvados; e de um padre beberrão e comilão com a cabeça rodeada por aquela aura estrelada dos santos medievais. Todas essas caracterizações eram habilmente acrescentadas por Tertuliano Degá na reprodução de uma fotografia original do cliente, e, mesmo se o resultado ficasse um tanto quanto inverossímil e desproporcional, o sucesso era sempre indubitável.

A permanência de Tertuliano Degá em uma cidadezinha do sertão durava apenas o tempo necessário para ele concluir os seus retratos. Fazia de tudo, então, para que sua retirada ocorresse de forma glamorosa, e o firmasse como uma figura admirada e inolvidável, para sempre incrustada na memória iconográfica dos dirigentes do lugar.

Sua retirada triunfal era marcada por um pomposo vernissage em espaço nobre da cidade. A importância política, religiosa e social dos retratados atraía um grande número de pessoas, que formavam filas enormes para contemplar as suas obras. “Ele acertou em cheio! Tem tudo a ver com o senhor!”, era o que diziam os espectadores, dirigindo-se reverenciosamente ao retratado, que se posicionava, empertigado, ao lado do seu retrato, para receber os encômios e os tapinhas nas costas dos seus admiradores incondicionais.

Tertuliano Degá, por sua vez, vestido num terno preto e engomado, postava-se à entrada do espaço cultural, aparando os deslumbrados cumprimentos dos visitantes. “Parabéns! O senhor é um grande artista!”, era o que todos diziam. Ele sorria discretamente, baixando um pouco a cabeça, os olhos lacrimejados, em comedida emoção. Era sua glória. Saía realizado, e com dinheiro suficiente para começar tudo de novo, em um outro lugar, em um outro grotão, na busca incessante pela construção ou a reconstituição de novas personalidades."

https://www.amazon.com.br/dp/B08KNC4L5Y


 

ANIVERSÁRIO DE DIDI

Aniversária hoje a santanopolitana, do signo de Libra, sob proteção de Oxumaré, Deolinda Pereira Filardi (Didi).

Que todos os seus sonhos sejam realizados e todos os seus desejos sejam alcançados. Feliz aniversário!

 

sábado, 3 de outubro de 2020

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

0 CORONELISMO NA BAHIA - I

 É comum o uso da expressão "coronelismo", com acentuado cunho pejorativo, quase sempre com o intuito de ressaltar os aspectos negativos, da ação e influência, de indivíduos ou grupos dominantes. O vocábulo nos convida a recuar no tempo, até uma sociedade desamparada, onde a lei do mais forte era a única conhecida.

Impossível não associar o coronel da Guarda Nacional à imagem de um tirano bronco, parabellum à cintura, botas de cano longo, esporas de prata, rebenque à mão, olhar raivoso, sempre disposto a martirizar o humilde campónio pelo mais fútil dos motivos. Assim o encontramos descrito na tradição oral e em inúmeras literaturas, é assim, pois, que o inconsciente coletivo costuma caracterizá-lo. Não sem motivos. Abuso de poder, ambição desmedida e impunidade, são relatadas como prática ordinária entre os coronéis; quase todos donos de muitas terras, gado e gente.

Alguns destes homens ficaram conhecidos pela extrema crueldade com que tratavam desafetos, subalternos ou até mesmo, familiares que ousassem contrariá-los. Mas foram exceções. Em sua maioria absoluta, estes chefes interioranos, possuindo ou não a patente de coronel da Guarda Nacional, como tal eram tratados, graças ao respeito e liderança angariados no âmbito de suas comunidades. Liderança esta, assentada basicamente na prática do assistencialismo.

Diante da ausência de serviços públicos, na maioria dos municípios brasileiros, e em virtude da baixa qualidade de vida de seus habitantes, bastava que alguém tivesse alguns hectares de terra cultivada, acesso a três refeições diárias, um mínimo de conforto domiciliar, algum gado bovino e rudimentos de educação, para que fosse considerado afortunado, e de forma natural, galgado à condição de chefe da comuna. Era, portanto, para aquele considerado o mais venturoso dos munícipes, que recorria o miserável sertanejo ignorado pelo poder público.

O coronel substituía, de forma precária, e, muitas vezes, compulsória, importantes instituições sociais. De vezo, desempenhava a função da autoridade policial omissa, do juiz distante ou ausente, e do inexistente banqueiro; não necessariamente, nesta ordem.

Inegável que havia uma troca desigual, pois ao tempo que recebia parcos favores, o campesino emprestava prestígio político ao coronel através do conhecido "voto de cabresto", contribuindo assim, para maior ascensão social e política do suposto benfeitor, ao passo que ele quase nunca saía da situação de miserabilidade que nasceu, continuando na base desta rudimentar pirâmide social.

Com referência aos coronéis do sertão baiano, objeto deste ensaio, cumpre-nos resaltar que raros foram o que exerceram o poder pela força das armas frente à parcela mais humilde e desprotegida da sociedade. Mas quando assim agiram, foi de forma tão avassaladora, que ainda hoje essas façanhas, quando narradas nos terreiros das roças e fazendas, em volta das fogueiras, nas noites sertanejas prenhes de lendas e assombrações, provocam arrepios e insónia aos ouvintes.

Um nome sempre lembrado é o de Militão Plácido de França Antunes, poderoso e truculento coronel do vale do São Francisco, que já em idade avançada, arrebatou para si, a bela Sancha, jovem esposa de seu vaqueiro, elegendo-a senhora da Fazenda Caroá, reduto inexpugnável dos França Antunes.

O acaso, porém, conspirou para que Sancha fosse tomada de amores por Pedro Costa, humilde professor, contratado por Militão para ensinar as primeiras letras à sua linda e inculta concubina. Os rumores deste tórrido e perigoso romance, não tardaram a chegar aos ouvidos do coronel.

Interrogada, a infiel Sancha defendeu-se alegando ser vítima de assédio, não denunciando as investidas do educador para evitar uma tragédia. Arrebatado pelo ciúme, mas inteiramente subjugado pela amante a quem devotava cega paixão, Militão permitiu-se acreditar nesta versão.

Assim, satisfeitas as razões do coração, restavam as exigências do ego; então o ódio do velho tirano voltou-se para Pedro Costa, que avisado à socapa pela amante, saiu em fuga desesperada pelas ribeiras do rio São Francisco e matas adjacentes. Caninamente perseguido pela jagunçada de Militão, foi afinal capturado e conduzido à vila de Xique-Xique, distante muitas léguas da Fazenda Caroá.

Em julgamento presidido por um juiz tão aterrorizado quanto o réu, e um Conselho de Sentença composto por amigos e familiares de Militão, foi o professor condenado, insensatamente, à pena de morte pelo crime de sedução.

Relata-nos Wilson Lins, em seu excelente livro "O Médio São Francisco", que no dia determinado para a execução da sentença, foram transportadas em canoas para a pequena ilha do Miradouro, em frente à vila, várias pipas de vinho, fogos de artifício e comida em abundância. Ali, na presença de convidados pertencentes à aristocracia ribeirinha, foi realizado um banquete, onde além de vitelos assados, carneiros cozidos e bebida à vontade, foi oferecido aos convivas, o horrendo espetáculo do esquartejamento de Pedro Costa.

Durante dias, por ordem do déspota do Caroá, ficaram expostos aos olhos assombrados dos habitantes de Xique-Xique, as vísceras, os membros mutilados e a cabeça empalada daquela pobre vítima do poder absolutista.

Nesta galeria de coronéis truculentos, um outro nome que sobressai pé o de Aureliano Gondim, poderoso chefe político, proprietário de muitas terras e garimpos na Chapada Diamantina. Aurélio da Passagem como era mais conhecido, exercia o mandonismo, segundo relatos de contemporâneos, com crueldade peculiar, pois costumava temperar os castigos impostos a desafetos, com pitadas do mais autêntico humor-negro.

Conta-se que num dia de feira-livre, no povoado de Igatu, domínio e domicílio daquele coronel, um jovem garimpeiro, recém-chegado, emitiu um assobio malicioso ante a passagem de uma bela e desconhecida cabocla. Era filha do temível Aurélio.

Denunciado por bajuladores, o trémulo rapaz foi conduzido por cabras armados à presença do coronel, o diálogo ocorrido é uma peça de surrealismo:

- Intonce é você o moleque que assubiou pra minha filha?

-       Deus me livre sêo coroné! Essa atrapaiação todinha é porque eu sou muito alegre! Vivo assubiano o tempo todo. Lá nos garimpos o povo inté me chama de Passarim!... Nem vi que a filha de vosmicê tava de passage na minha frente...

Depois de um silêncio interminável onde parecendo absorto, Aurélio cofiava a longa barba, e o aflito garimpeiro antevia sua terrível punição, o veredicto foi anunciado com voz pausada e aparente simpatia.

- Já que o moço é quase um musico, então tá perdoado. Um artista merece nosso respeito!

Ante os olhares espantados da sua cabroeira, levantou-se, atravessou a sala, pegou o chapéu no cabide, e ao chegar à porta, conclui:

- Mas também não vamos perdera oportunidade de cunhecêa sua arte... Ele vai ficar aí, assubiando procês, que eu vou inté a fazenda vê os pastos e volto. Se parar de assubiar um minuto que seje... Cortem o beiço dele.

Dizem, que ao retornar já quase à noite, riu incontrolavelmente ao encontrar o infeliz rapaz, com o lábio inchado, cercado por homens ferozes, assoviando uma alegre melodia enquanto lágrimas lhe desciam pela face.

Em outra ocasião, Aurélio da Passagem, estando em viagem de inspeção a suas minas de diamantes, surpreendeu um dos transportadores de cascalho deitado em uma esteira, à sombra de uma árvore, enquanto outros trabalhavam. Indagando ao capataz do garimpo o motivo daquela suposta indolência, foi informado que o sujeito havia alegado forte dor estomacal após o almoço.

Os relatos oriundos da tradição oral divergem sobre o que motivou o procedimento despropositado que se seguiu; uns dizem que o coronel viu aquilo como um precedente perigoso, um mau exemplo a ser repetido por diversos garimpeiros a seu serviço; outros afirmam que ele apenas encontrou um pretexto para dar vazão ao sadismo que o dominava.

O fato, é que, imediatamente, apeou do cavalo e ordenou a um de seus capangas que fosse até uma das choupanas que serviam de rancharia para os garimpeiros, e lhe trouxessem óleo de mamona; produto bastante usado naquela época como combustível para candeeiros, mas eventualmente, também empregado como beberagem para animais de grande porte, dado seu forte poder purgativo. Em seguida, mandou trazerem à sua presença, o garimpeiro achacado e obrigou-o, sob a mira de uma pistola, a beber o conteúdo da candeia. Não satisfeito, concluiu sua diatribe com uma determinação perversa a seus jagunços.

- Levem este cabra preguiçoso pra bem longe daqui. E prestenção: se ele 'despachar' em meus garimpos, acabem com a vida dele!

Sentado à sombra de uma gameleira, enquanto fumava um forte charuto, o coronel observou seus capangas escoltarem o infeliz cascalheira para fora de seus domínios. Ao regressar horas depois, a jagunçada relatou ao histriónico chefe, que depois de algum tempo de caminhada, o garimpeiro começou a ficar agitado e a todo instante perguntava:

- Aqui já pode?

- Não!

Após penosa légua,  já não suportando as dores lacerantes no ventre, volta a inquirir:

- E agora posso fazer as "necessidades"?

- Aqui inda é o chão do coroné, continue andando.

À meia voz, o pobre miserável constata desalentado:

- Vige! O home é dono do mundo... Benza Deus!

Até que em um certo momento, num gesto de extremo desespero, arremete em tresloucada corrida mata à dentro, para contentamento da cabroeira que jocosamente efetua disparos para o alto. O garimpeiro escapou, levando consigo além da preciosa vida, calças e dignidade inteiramente borradas.

Como contraponto a estes régulos de aldeia, muitos outros coronéis foram imensamente estimados por sua gente. Dentre eles, não podemos esquecer de Francisco Dias Coelho, que durante anos comandou a vida política do município de Morro do Chapéu, sem nunca ter possuído uma arma ou jagunços a seu serviço. Diplomata por excelência, nos anos vinte, período particularmente convulsionado do sertão baiano, cenário de sangrentas lutas entre clãs da Chapada Diamantina; Dias Coelho tornou sua cidade conhecida todo o conflito. Era para Morro do Chapéu que parcela considerável da população residente nas zonas onde ocorriam enfrentamentos, e combatentes feridos ou derrotados, demandavam em busca de abrigo. Naquele território neutro, sabiam estar a salvo; um oásis de civilidade meio ao deserto da intolerância.

João Mendes da Costa. Capitulo seguinte

Francisco Otávio L. Ferreira Secretário Adjunto do IFiGFS Estudante do Curso de Jornalismo (UNEF)

Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana - Revista: Ano 1 Nº 1 2004

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

PERFIL DE ELIANA MARIA SANTOS BOAVENTURA

Nasceu em Feira de Santana, no dia 12 de janeiro de 1951. Filha de João Santos e Rosa Maria Esperidião Santos.

Cursou o primário na Escola Coração de Jesus, con­cluindo em 1962 e o Ginásio no Colégio Santanópolis em Feira de Santana, em 1969.

É licenciada em Letras Vernáculas, em 1975. Gradu­ada em Economia pela UEFS (1983) e pós-graduada em Administração Hospitalar, pela Universidade de São Camilo, em São Paulo (1988).

Foi professora e Vice-Diretora do Instituto de Educa­ção Gastão Guimarães (1986 a 1990) e coordenadora do Hospital da Mulher Ignácia Pinto (1992).

A história da vida política de Eliana Boaventura co­meçou como vereadora em Feira de Santana, 1993-1996, suplente de deputado estadual, 1995-1999, efetivou-se em 1997; suplente de deputado estadual, 1999-2003, efetivou-se em dez.2000, na vaga do deputado Wilson Brito; eleita deputada estadual, 2003-2007. Suplente de deputado estadual, 2007-2011, assumiu a vaga do dep. Roberto Muniz, a partir de 05/01/2009.

Eliana é uma mulher guerreira, corajosa e destemida, enfrenta todas as barreiras para lutar em prol das reivin dicações do povo feirense, principalmente concernentes aos anseios em defesa dos direitos da mulher.

Na Assembleia Legislativa, foi 3a vice-presidente da Mesa Diretora (2005-2007); suplente da Mesa Diretora (2001-2003).

Participou de várias comissões: presidente da Co-missão Especial Defesa dos Direitos da Mulher (1998); vice-presidente da Comissão de Fiscalização e Controle (1997); titular das Comissões: Desenvolvimento Económico e Turismo (1997), Especial de Defesa dos Direitos da Mulher (1997, 2001-2003), Minas, Energia, Ciência e Tecnologia (2001-2002), da Seca, Recursos Hídricos e da Irrigação (1997-1998), Fiscalização e Controle (2001- 2002), Especial de Relações do Trabalho e Emprego (2001-2002), Educação, Esportes e Serviço Público (mar./ dez.2003), CPI Para Apurar Denúncias de Escuta Tele-fónica de Determinadas Autoridades (2003), Direitos da Mulher (2009-2010), Educação, Cultura, Ciência e Tecno-logia e Serviço Público (2009-2010), Especial para Refor-ma do Regimento (2009-2010), Defesa do Consumidor e Relações do Trabalho (2009-2010); suplente das Comis-sões: Educação, Esportes e Serviço Público (1997-1998), Desenvolvimento Económico e Turismo (1998), Especial Para Assuntos Comunidade Afrodescendente (2001- 2002), Direitos Humanos (2003), Especial da Infância, Adolescência e Juventude (2003), Minas, Energia, Ciên-cia e Tecnologia (2004), Direitos Humanos e Segurança Pública (2009-2010), Infraestrutura, Desenvolvimento, Económico e Turismo (2010).

Tem projetos de interesses e direitos da mulher, tais como: inclusão do tema "Aleitamento Materno", no Currículo Escolar, como também da beneficência para os portadores de necessidades especiais.

Na eleição de 2011 para prefeito de Feira de Santana, Eliana Boaventura, participou como vice da chapa do candidato Zé Neto, mas não logrou êxito.

Eliana Boaventura exerce o cargo de subsecretária da Secretaria Estadual de Desenvolvimento e Integração Regional (Sedir/CAR).

Tem três filhos: Rafaela, Manuella Maria e Álvaro Pereira Boaventura Júnior.

Recebeu a Medalha Ver. Dival Machado, da Câmara de Vereadores, no dia 03 de outubro de 2006, em comemoração ao "Dia do Vereador". Foi homenageada com a Ordem Municipal do Mérito como Grande Comendador do município de Feira de Santana (2008).

Em Feira de Santana tem uma escola que denomina seu nome, no bairro dos Capuchinhos.


Filme do Santanopolis dos anos 60