Símbolos do Santanópolis

FOTO OFICIAL DO ENCONTRO

FOTO OFICIAL DO ENCONTRO

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Outran Sampaio Borges

Nasceu em Baixa Grande, Bahia, no dia 06 de fevereiro de 1949. Filho de Gerson Miranda Borges e D. Aidê Sampaio Borges.
Em 1953, passou a residir em Feira de San­tana, onde cursou o primário, na Escola D. Pedro II, da Profª Elizete Pinto Costa, concluindo-o na Escola N.S. das Graças, com a Profª Zenaide Figueiredo, ambas no bairro da Kalilândia, onde viveu a infância e parte da adolescência. Ingressou no Ginásio Santanópolis, onde estudou por dois anos, tendo concluído o curso gina­sial no Colégio Estadual de Feira de Santana, em 1965.
Ingressou na Faculdade de Medicina da UFBA, em 1969. Na época, simultaneamente, começou a lecionar a disciplina de Química, no Colégio Estadual de Feira de Santana. Posteriormente, a partir de 1976, também ensinou Anatomia e Fisiologia no curso de Auxiliar de Patologia e sendo diplomado, especializou-se em Pediatria.
Nesse mesmo período, coordenou a criação do primeiro jornal estu­dantil, com impressão gráfica em papel jornal, O Jornaleco, colaborando, assim, além da formação técnica, também para o desenvolvimento cul­tural de algumas centenas de jovens, durante os anos em que exerceu o Magistério Público.
Também no início da década de 70, ministrou cursos de Química e Física para professores, os quais tendo formação no Curso Pedagógico do 29 Grau, pretendiam prestar vestibular na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS); alguns destes tornaram-se posteriormente professores da própria universidade.
Em 1980, coordenou o ambulatório de Pediatria do Hospital Geral do Exército, em Salvador, onde serviu como Oficial Médico do Exército Bra­sileiro.
Foi um dos fundadores da Unimed de Feira de Santana, e em 1988 representou a Bahia na XVIII Convenção Nacional Unimed, com o trabalho "Projeto Cultural Unimed"; na oportunidade também houve noite de autó­grafos do seu livro "Os quatro Caminhos do Vento".
Em 1990, filiou-se à Sociedade Brasileira de Médicos para a Preven­ção da Guerra Nuclear, entidade filiada à International Physicians for the Prevention of Nuclear War.
Em Feira de Santana, foi Diretor do Hospital Colónia Lopes Rodrigues gestão iniciada em março 1995, exercendo-a até março de 2003. Durante esse período, conseguiu que o Governo do Estado autorizasse as obras de reforma geral do hospital, inclusive com a construção das "Residências terapêuticas", atendendo aos atuais princípios que regem a reforma psi­quiátrica. Também obteve a aprovação de verbas do Projeto Reforsus, para a construção do Centro de Convivência e a modernização gerencial, com a informatização de todos os setores do hospital.
Em novembro de 2004, assumiu a Provedoria da Santa Casa de Mi­sericórdia de Feira de Santana, sendo reeleito por mais três mandatos. Du­rante sua gestão, juntamente com o apoio dos membros da Mesa Diretiva e Direção Geral do Hospital D. Pedro de Alcântara, estabeleceu parcerias com o governo do estado e empresas privadas, construindo a Unidade de Alta Complexidade em Oncologia (UNACON), para tratamento de câncer, sendo hoje uma referência, e reconhecida pelo Instituto Nacional do Cân­cer (INCA), que priorizou a Santa Casa de Feira de Santana para a instalação de uma nova unidade, recebendo outra máquina de Acelerador Linear.
Também em sua gestão foi implantado o Setor de Cardiologia em parceria com empresas privadas, transformando o Hospital D. Pedro de Alcântara em hospital especializado, realizando todos os procedimentos cirúrgicos e clínicos dessa especialidade, contando com centro cirúrgico específico.
Escritor, poeta, contista e compositor. Tem os livros publicados: "Os Novos Valores da Bahia I" (antologia) 1973; "Célula Doce e Corpo" (1978); "O Protonauta" (contos) 1982; "Cabeça de Frade" (poesia); "Os Quatro Caminhos do Vento" (poesia); "Florilégio Poesias" (antologia); "Memorial Poético de Feira de Santana", organizado por Lélia Vitor Fernandes de Oli­veira; "A Verdade, o Tempo e Outras Mentiras” (2006). Tem trabalhos publicados pela revista Hera, e pela Scitientibus, da Universidade Estadual de Feira de Santana, além de crónicas e contos publicadas em jornais. Filiou-se ao Movimento Poético Nacional, sediado em São Paulo, desde 1987. Também é Membro da Academia Feirense de Letras, onde ocupa a Cadeira de n° 37, que tem como Patrono o Prof. Leonídio Rocha.
Filiado a AMAR (Associação de Músicos, Arranjadores e Regentes) sediada no Rio de Janeiro; ao Movimento Poético Nacional; do Movimento Cultural "Hera".
Compôs músicas para festivais estudantis, em 1967, também escre­vendo crónicas e contos.
Em 1975, juntamente com um grupo de amigos e de pessoas preo­cupadas com o meio ambiente, criou a Associação de Livre Pesquisa Ecoló­gica (ALPE), um dos primeiros grupos ambientalistas da Bahia e o primeiro de Feira de Santana.
Em novembro do ano 2000, em Havana, Cuba, onde esteve a con­vite do Representante do Ministério da Saúde de Cuba, para o Brasil, Dr. Filiberto Pérez, teve o trabalho do Hospital Psiquiátrico Lopes Rodrigues reconhecido, na área infanto-juvenil. Na oportunidade manteve contatos com Dra. Irtis Guasch Pascual, do Centro de Referência Latinoamericano Para La Educación Especial.
Casado com a Sra. Gersonita Oliveira Borges. São filhos do casal: Outran Sampaio Borges Júnior, (médico), Giordano Bruno Oliveira Borges (farmacêutico) e Thais Oliveira Borges (psicóloga).
Homenagens recebidas: Título de Cidadão lpecaetense (19/07/1997); Certificado de Agradecimento pelo trabalho em defesa do Sistema Coope­rativista UNIMED, em 12 de julho de 1993; Comenda Godofredo Rebello de Figueredo Filho (12/09/2001); Título de Cidadão Feirense (27/11/2002). Diploma Exemplo de Servir, concedido pelo Rotary Club Subaé de Feira de Santana, em outubro de 1998; Título de Oficial, pela Ordem Municipal do Mérito de Feira de Santana, em 18 de setembro de 2007; em dezembro de 2010, foi laureado pelo Jornal TRIBUNA DA BAHIA, com o diploma conce­dido às Empresas e Figuras da Década, pelos serviços prestados à Feira de Santana, durante o período.


domingo, 15 de setembro de 2019

REGISTROS HISTÓRICOS DE 15/09

MEMÓRIAS DE ARNOLD FERREIRA DA SILVA"
Organizado pelos santanopolitanos, Carlos Alberto Almeida Mello e Carlos Alberto Oliveira Brito e editado "Fundação Senhor dos Passos". Núcleo de Preservação da Memória Feirense - Rollie E Poppino.

Dia de hoje no tempo.



1885 - Entra em exercício do cargo de delega­do de pollicia do termo o tenente Manoel de Jesus Vieira.

1894 - Visita esta cidade o Dr. Rodrigues Lima, governador do Estado, em cuja companhia vêm os Drs. Luiz Vianna, Severino Vieira, José Marcellino e Cyridião Durval, general Galvão, de­putados e senadores estaduaes.

1912 - Renhidas eleições municipaes. Assis­tem-nas o chefe de polícia, senadores, deputa­dos e representantes da imprensa da capital.

QUANDO A CHUVA PASSAR

Jean Parente
Santanopolitano
          Era uma manhã como outra qualquer. Estava sentado num banco de cimento na área externa do meu colégio, aguardando a primeira aula começar. Não era um bom lugar para sentar, mas era o único que tinha. Acredito que era pela resistência dele em ficar num espaço aberto recebendo sol e chuva, e também para evitar que quebrassem facilmente, pois alguns alunos adolescentes não tinham muitos cuidados em utilizá-los, sentando, deitando, ficando em pé sobre ele, e até improvisando como uma pequena mesa de tênis de mesa.
          Enquanto aguardava, observei um colega de sala que acabava de chegar, o qual sempre me chamava a atenção pelo jeito de andar com os pés voltados para fora exibindo os sapatos pretos vulcabrás, motivo pelo qual alguns o provocavam chamando-lhe de dez para às duas, comparando com a posição dos ponteiros de um relógio quando marcava esse horário, e, um guarda-chuva preto que sempre levava na mão. Era impressionante, fizesse chuva ou sol ele sempre o levava. Nunca o vi sem ele. Parecia um bichinho de estimação, pelo apego e cuidado que tinha, fazendo até que outros colegas o perturbassem, sem que ele se importasse com isso, e tratando todos com a maior educação e gentileza, justificando que era melhor prevenir do que remediar.
           Ele era um adolescente meio esquisito, que se vestia e se comportava como uma pessoa mais velha. O seu jeito de falar, de se vestir e de agir era sempre de uma pessoa com mais idade, fazendo com que os colegas e até mesmo os professores algumas vezes o provocasse chamando-o de senhor. Ele percebia a ironia, mas retribuía com um leve e amigável sorriso, desafiando a todos com o seu jeito pacato de ser. 
          Confesso, que algumas vezes me incomodava com a situação, por não entender como uma pessoa tão amiga, tímida e respeitadora fosse provocada e humilhada, por ter um jeito diferente de ser. Era incompreensível para mim, que ficava em silêncio observando, analisando e me fechando em meus pensamentos, já que me identificava com ele na timidez e na discrição, fazendo com que o meu coração disparasse e o meu rosto ficasse quente, esperando nunca não passar por aquilo em que estava presenciando.
          Apesar de tudo, esse meu colega parecia estar sempre de bem com a vida, cumprimentando a todos por onde passava, e, distribuindo um discreto sorriso. Era difícil ele parar nos grupinhos que se formavam pelo pátio do colégio nos momentos dos intervalos, pois, acredito, que seria uma forma de não ouvir as provocações. Geralmente, ele fazia um lanche na cantina, e voltava para a sala de aula, onde folheava alguns livros e ficava escrevendo algumas coisas num pequeno caderno de capa preta, que parecia uma espécie de diário, sendo misterioso para mim, mas acredito que era um amigo e confidente para ele, pois o guardava com muito cuidado e carinho, e, sempre conferia olhando para um lado e para o outro, se tinha alguém por perto de olho nos seus segredos. Assim eu acreditava.
          Uma certa vez em que  estava sentado sozinho no desconfortável banco de cimento, surpreendentemente o meu colega sentou-se ao meu lado e me desejou um bom dia confirmando o meu nome. Fiquei surpreso, pois apenas nos cumprimentávamos com um olhar e um discreto sorriso, já que era novato no colégio e estávamos ainda no início do ano, e, nunca tivemos a oportunidade de uma conversa ou aproximação.
          Mas, surpresa maior, foi descobrirmos que morávamos na mesma rua, só um pouco mais distante, nos deixando mais a vontade para uma conversa amigável, e ainda, com toda a  sinceridade, firmeza e confiança, me revelar que só parou para conversar comigo porque eu era um dos únicos que não sorria quando os colegas o  humilhavam. Fiquei parado e sem saber o que dizer, procurando palavras que justificassem o meu silêncio, quando, finalmente ele interrompeu os meus pensamentos dizendo que era muito observador, e que apesar de tudo não tinha raiva ou rancor de ninguém. Estava tudo bem para ele.
          Apos uma rápida conversa, já que tínhamos que entrar para a sala de aula, e revelar-me que  morava com os pais e uma irmã, que gostava de livros de histórias antigas da humanidade, de escrever tudo o que acontece em sua vida, e que detestava qualquer tipo de esporte, nos levantamos para seguirmos para a sala, onde iria começar a próxima aula.
          Eu não falei quase nada durante os minutos em que conversamos, apenas ouvi. Senti que a necessidade era mais dele, e o deixei falar. Acho que ele precisava mais do que eu, pois raramente  tinha visto conversando com alguém. Ele sempre preferia ficar afastado dos grupos e das conversas, somente participando involuntariamente quando se aproximavam dele para as provocações, tentando ser simpático, mas revelando o constrangimento no rosto e nas orelhas que ficavam avermelhados de vergonha. 
          Os dias foram passando, e nos aproximamos mais, estabelecendo uma relação de amizade e confiança, o qual pude perceber o quanto era inteligente, formal e perfeccionísta. Ele gostava de tudo certinho, e realmente se comportava como um homem mais velho do que a idade que tinha, mantendo o hábito do seu avô de sempre levar o guarda- chuva onde quer que fosse. Assim me confidenciou.
          Até que um dia, inesperadamente, me convidou para conhecer a casa onde morava, e pude conhecer a sua mãe e a sua irmã, que me receberam com surpresa e educação. Acho que os pais eram separados, pois não vi o pai, e não foi feito qualquer comentário envolvendo o nome dele. Era uma casa simples, com a entrada pela lateral, onde ficamos numa pequena varanda que exibia uns móveis antigos, e que chamava a atenção pela quantidade e a beleza das flores cuidadosamente organizadas num pequeno jardim. 
          Sentamos e conversamos por alguns instantes, e não pude deixar de perceber a inquietação no olhar da mãe do meu amigo, e uma certa ansiedade em sua irmã, as quais não conseguiam disfarçar a surpresa da minha presença, parecendo que não era muito comum aparecer visita por lá por parte do seu filho, que também demonstrava ansiedade, mas com uma pequena e eufórica alegria.
          Mas, apesar de tudo, foi uma conversa muito agradável, onde sorrimos em alguns instantes, me fazendo sentir importante para aquela família naquele momento. Talvez tivesse acostumado com a alegria e agitação da minha casa, onde os meus sete irmãos homens movimentava e bagunçava num entra e sai sem limites, nunca deixando o ambiente em silêncio, e, achei um clima triste na casa do meu misterioso amigo, mesmo com o insistente canto de um pássaro que estava em uma gaiola próxima a nós, que parecia querer chamar a nossa atenção pelas repetidas vezes que cantava o Hino Nacional Brasileiro. O bicho, num desespero, cantava sem intervalos que acredito que nem dava para respirar, provocando uma pausa em nossa conversa para admirá-lo, e que terminou servindo para diminui a tensão da visita.
          Desse modo, após nos despedirmos, voltei andando para casa pensando na família do meu novo amigo, e me justificando que as famílias são diferentes, cada uma com os seus problemas e seus mistérios, e que no final todos ficam bem. Dessa forma, apressei o meu passo, e fui cuidar dos meus afazeres, tentando tirar os maus pensamentos da cabeça.
          No dia seguinte, lá estávamos novamente na sala de aula de ouvidos atentos as explicações dos professores, que não admitiam conversas durante as aulas e exigiam total atenção por parte dos alunos, que por sua vez retribuiam com todo o respeito e admiração. Era um período na década de 70, em que os alunos sabiam da importância do conhecimento dos professores, os quais recebiam total apoio da direção do colégio, e também dos pais. Estes, pela confiança adquirida nos professores, entregavam a eles todo o processo de educação para com os seus filhos, que quando praticavam qualquer ato de indisciplina, tinham que enfrentar os educadores e familiares, os quais, juntos, encontravam uma forma de educá-los, não deixando ninguém traumatizado com isso.
          Finalmente, já estávamos chegando próximo ao final do ano, onde durante alguns meses tentei aproximar o meu misterioso e introvertido amigo aos meus outros amigos e colegas, mas sempre percebia que ele oferecia uma certa resistência às novas amizades, falando o necessário, e evitando qualquer tipo de brincadeiras, as quais o deixavam nervoso e inquieto, estimulando até alguns colegas a provocá-lo, fazendo-o faltar algumas aulas com a justificativa de que estava doente. Até que um dia, ele não apareceu, e se ausentou por quase uma semana. Achei até que fosse mais uma daquelas reações para evitar o contato com os colegas e se isolar no seu mundo misterioso, e decidi não procurá-lo, respeitando a sua privacidade.
          Mas, infelizmente, não foi, e logo ficamos sabendo o motivo da sua ausência por uma coordenadora que veio até a nossa sala trazendo uma notícia que nos deixou perplexos. Ele, tragicamente, matou a tiros a própria mãe, e logo depois atirou contra a própria cabeça. A irmã não estava no momento em casa, e só ficou sabendo quando foram chamá-la no trabalho. Foi uma tragédia. Ficamos todos abalados, sem reação, nos olhando e tentando entender o que levou o nosso colega a cometer tal ato. 
          Alguns colegas, os que mais perturbavam o nosso amigo misterioso, sentaram-se no chão aos prantos, com as mãos nos rostos, num desespero que contagiou a todos, tornando um clima de sofrimento, talvez arrependimento, e um interminável silêncio tomou conta da sala, fazendo com que até  alguns saíssem para tomar um pouco de ar,  buscando uma resposta para a situação, já que poucos ou quase nenhum sabia da vida dele, o que me fez depois, passar algumas vezes pela frente da casa onde morava em busca de informações do que havia ocorrido, e também para saber de como estava a sua irmã. Mas, foi em vão, pois estava sempre fechada e não quis ser indelicado fazendo perguntas aos vizinhos.
          E assim, entramos de férias, e cada um seguiu o seu caminho, levando consigo a lembrança do colega do guarda-chuva preto que um dia passou por nós e talvez nem tenhamos percebido, e, que parecia estar sempre esperando que a chuva passasse por ele, para que pudesse exibir o seu "companheiro" protetor, numa aventura que somente ele compreendia.
          No entanto, acreditando que isso tudo teria chegado ao fim, alguns anos depois fui surpreendido quando saía de casa por uma visita inesperada. Quase não acreditei, ficando sem palavras e visivelmente surpreso, pois acreditava que esta pessoa tivesse morrido. Era, inacreditavelmente, o meu misterioso amigo com o seu guarda-chuva preto, aparentemente mais magro, com uma imensa cicatriz ao lado da testa junto com uma pequena deformação, e tentando com um tímido sorriso me cumprimentar. Não pude e nem deu tempo para falar nada, pois com poucas palavras e olhando sempre para o chão, ele me revelou que tinha feito uma loucura contra a mãe e a ele mesmo, e que milagrosamente sobreviveu numa oportunidade em que Deus lhes deu, apesar de tudo, onde, após alguns anos em um presídio numa intensa solidão e arrependimento, estaria tentando resgatar a sua vida novamente, sabendo que levaria para sempre o sentimento de culpa pelo que fez.
          Assim, sem mais palavras, apertou a minha mão como um agradecimento, olhou ligeiramente em meus olhos, me abraçou fraternamente, e se afastou vagarosamente segurando o seu inseparável guarda-chuva preto, me deixando com dúvidas e perguntas que ficariam para o resto da minha vida em minha cabeça, despertando o sentimento de compaixão por aquele ser humano, que em sua fragilidade não conseguiu controlar um terrível surto depressivo que afetaria a sua vida para sempre.
          Nunca mais o vi. Transcorrido mais de quarenta anos, nunca mais tive notícias dele, e dos poucos colegas da época que ainda encontro pelos caminhos da vida, nenhum comenta ou toca no assunto. Talvez por esquecimento, ou simplesmente porque não permitiram que momentos trágicos e tristes fizessem parte de suas lembranças, jogando para o esquecimento um amigo talvez inexpressivo, mas que se tornou inesquecível nas coisas da vida.

sábado, 14 de setembro de 2019

BELAS ESCULTURAS




Achei estas esculturas bem interessantes, aí consultei o meu expert, em arte, o santanopolitano Antonio Edson de Oliveira Freitas, ele mandou a resposta a seguir,

"Já recebi essas fotos a partir de várias fontes. Você percebe que em algumas delas o escultor é identificado no rodapé, outros são anônimos. Mas o que concluí é que esses talentosos artistas de regiões temperadas  (identificadas pelo cenário,  vegetação de coníferas, roupas, perfis étnicos, um até do Chile), parece que fazem esses trabalhos por diletantismo de fins de semana. Em uma delas aparece uma taça como troféu de concurso promovido pela comunidade local. Não acredito que elas envolvem autores de evidência no meio artístico nacional ou internacional; o mais provável é que tenham abrangência em uma região ou só paroquial. Mas algumas das esculturas são bonitas, outras bem humoradas,  as muito sofisticadas e ainda como motivo, os chamados "elementais", devas, espíritos da natureza: gnomos, silfos, elfos, trolls, ondinas, ninfas.
      A seu modo, o escultor polonês/brasileiro Franz Krajcberg, ambientalista e habitante apaixonado do sul da Bahia (Nova Viçosa), falecido em 2017, também se dedicava a essa atividade; mas com propostas orgânicas, abstratas e geométricas.

     Abraço."


















REGISTROS HISTÓRICOS DE 14/09


MEMÓRIAS DE ARNOLD FERREIRA DA SILVA"
Organizado pelos santanopolitanos, Carlos Alberto Almeida Mello e Carlos Alberto Oliveira Brito e editado "Fundação Senhor dos Passos". Núcleo de Preservação da Memória Feirense - Rollie E Poppino.


Dia de hoje no tempo.



1902 - Estréa no theatro local, o grupo dramá­tico “Mathilde Astero”.


1919 - Em excursão de despedida à vida aca­dêmica, vem a esta cidade os bacharelandos em direito.

TURMA GRANDE ANIVERSARIA HOJE

Léa
 Comemoram mais um ano de vida os santanopolitanos, do signo de Virgem, sob proteção de Exu/Obá, Léa Sylvia de Souza Cruz, Marcelo de Souza Carvalho, Maria Olga Miranda dos Santos, Marilinda Souza Boavista da Cunha e Nadja Caltro. Ao quinteto nosso párabéns.


Olga
Nadja

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

PIPIU

Fernando S. Ramos
Santanopolitano
Escritor premiado
Coluna sobre música publicada no jornal "Folha do Norte", edição de novembro de 1964.


Se existiu um cantor de voz extraordinária em Feira de Santana, esse foi Pipiu, que deixou há muito tempo de cantar como era um Intérprete amador, seu grande timbre vocal per­maneceu sem um esmerilamento para que pudesse atingir o climax de dizer bem as palavras, sentir o samba, ritmo do qual gostava, Pipiu era um cantor para redutos fechados ou abertos influenciado em Francisco Alves de cuja-lotfiness não ficava nada a desejar. Apenas um ficou conhecido no país, gravou os seus discos, enquanto o outro permaneceu na província.
Bernardino de C. Bahia
Santanopolitano
           O rei da voz possuía volume impressionante na laringe, contendo-se no pianíssimo.. Pipiu Bernardino não ia ao pianíssimo por culpa da sua desabrida influência nas melodias (nem sempre boas) do Chico Viola. Um: Quando trauteava «O cigano», de Marcelo Tupinembá e João do Sul, ao fazer cêrco em «... e agora que minh’alma te chora/ouve bem a canção que era assim:/ o amor tem a vida da flor.../, Bernardino Pipiu Bahia, ao planar a voz em 1-2, 3,  continuava em 4 5 6, saindo da unidade rítmica na palavra agora. Pior ainda é em «Cadeira Vazia», Lupiscínio Rodrigues, quando imitava Francisco Alves do principio ao fim.
           O maior fã de Pipiu em Feira de Santana é ainda Cícero.
           Era um cantor que não se debruçava no «mon descriptum», como os péssimos cantadores Orlando Dias e Valdlck Soriano, de vozes de cipó caboclo.
            Pipiu levantava a voz com uma facilidade incrível, sem esforço parecendo um helicóptero. Alguns bons cantores feirenses vivos também deixaram a melodia (Dourival Oliveira, Reginado Didi) enquanto outros – ainda em evidência – não conseguiram nem sequer ser razoáveis para poder aperfeiçoar as vozes: Sílton Brandão e Geraldo Bortges.
       Pipiu, sem ter aprendido canto, é um patrimônio da Feira como cantor-amador, infelizmente sem o flou musical, por falta exclusivamente sua.


REGISTROS HISTÓRICOS DE 13/09


MEMÓRIAS DE ARNOLD FERREIRA DA SILVA"
Organizado pelos santanopolitanos, Carlos Alberto Almeida Mello e Carlos Alberto Oliveira Brito e editado "Fundação Senhor dos Passos". Núcleo de Preservação da Memória Feirense - Rollie E Poppino.

Dia de hoje no tempo.




1891 - Acaba de ser eleito presidente da “So­ciedade Monte Pio dos Artistas Feirenses”, no período de 1891 a 1892, o Sr. Agostinho Fróes da Motta.


1908 - Toma posse da presidência do dito “Monte Pio”, o cap. Pedro Britto Sobrinho.

ANIVERSÁRIO DE NEUMA E LOURINHA

Neuma
 Comemorando aniversário os santanopolitanas, do signo de Virgem, sob proteção de Exu/Obá, Neuma Maria Pereira Portugal e Terezinha Santana de Souza (Lourinha). Que haja  repeteco deste evento por muitos anos com saúde.

Lourinha

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

REGISTROS HISTÓRICOS DE 12/09


MEMÓRIAS DE ARNOLD FERREIRA DA SILVA"
Organizado pelos santanopolitanos, Carlos Alberto Almeida Mello e Carlos Alberto Oliveira Brito e editado "Fundação Senhor dos Passos". Núcleo de Preservação da Memória Feirense - Rollie E Poppino.

Dia de hoje no tempo.




1874 - Para o logar do fallecido dr. João Vicente Sapucaia é nomeado medico do município o Dr. Manoel Marcolino da Silva Pimentel.


1897 - Parte para Mundo Novo o cónego Britto, ex-vigário da freguesia.

QUERELAS LITERÁRIAS DE ANTIGAMENTE VI.



Martiniano Carneiro entra nas "QUERELAS" com o artigo abaixo.

CONTENDAS E CONTEDORES

Na verdade não podia eu encontrar uma ocasião que me fosse maís propicia mais favoravel, para então mais facilmente expor o meu vão e humilde juiso que faço sobre as contendas e os seus contendores.
Embora com muito pouco saber, sem a me­nor intuição das cousas, muito intrusamente procurei ás cegas bispar alguns pontos que me fossem permitidos dizer relativamente às po­lemicas.
E quasi que a proposito disto surgio agora uma contenda entre os dois Jovens, Aluizio e Werdeval; e realmente é para me fazer pensar que foi a proposito mesmo, tal coincidência.
As contendas que não passam de ideias oppostas entre duas ou mais pessoas, como sempre, quasi que são intermináveis; e mui­to principalmente quando nos espíritos dos contendores reina a preterição de não serem vencidos ou derribados.
Bem poucas vezes, casoalmente, entre os muitos contendores se encontra um só, que então, deante da verdade, da justiça, ou da ra­zão, se emmudeça e se convença de que errou, de que atirou apodos a esmo.
Geralmente não é muito fácil um destes en­contros visto que hoje muito resumido é o numero destes observadores, do direito; os refractários, os inconscientes, os casmurros, com a banal intenção de dominarem a tudo e a to­dos, julgam talvez que só elles, são justiceiros, sábios, ínfalliveis, puros, applicados; que final­mente, só elles sabem definir tudo de uma maneira exacta e precisa.
E porisso, sem o menor receio ou remorso lançam ás columnas dos jornaes as suas criti­cas horripilantes, indignas até duma convivên­cia já civilisada, sem terem talvez base daquillo que quiz ou quer criticar.
Qualquer pessoa, que como eu estiver bem conhecedora da contenda Aluizio-Werdeval, certamente, não duvidará que esta é uma das taes intermináveis; pois, muito intuitivo está, que Werdeval não se entrega e Aluizio mui­to especialmente. Não deve também ignorar que o collega Aluizio, já ha muito tempo, sem fazer questão de ter ou não razão ou motivo, interessadamente, vem procurando, como talvez se procura uma agulha, uma pessoa que lhe dê attenção ás suas criticas inconscientes e injustas; tão provável isto, que muitas dellas o collega só teve o prazer de vel-as na sua pasta.
Envolto em uma esperança duvidosa de ob­ter uma replica para então polemicar e bazofiar que era uma das suas maiores ambições, já bastante acabrunhado, julgando-se talvez esquecido por todos que elle criticava, creio também, o collega Aluizio pelas columnas des­te jornalzinho, immerecidamente, lançou um artigo intitulado Ondas, com o intuito de desfazer o Werdeval e outro collega (José Ri­beiro Falcão ) que em dias passados tinha es­treado a sua collaboração, também, neste jornalzinho.
Foi realmente um prazer indizível que lhe deu este ultimo arremesso critico.
Werdeval lhe respondeu; e então já teria Aluizio gosado tal satisfação neste mundo?...
Afinal, não era censurável que o collega continuasse a discutir; mas, se nos seus arti­gos, se encontrasse em vez de escarneo e ironia reles, as provas justificáveis da sua defesa ou então, da sua critica.
Não queira zangar-se o collega Aluizio, porem, o que eu posso unicamente deduzir do seu artigo, - Pernóstico e Embusteiro, em res­posta ao de Werdeval, - Tarouquices de um critico, é o seguínte: vendo-se o collega prestes a sucumbir em um naufragio, sem ter o me­nor. indicio ou esperança de salvação, recorreu ao único meio que podia existir alli, embora com todo perigo, afim de salvar-se.
Quero dizer; embora com a detestável apre­ciação do publico,o collega afim de esquivar-se do grande certamen em que se meteu recorreu à forma repugnante de se polemicar, con­forme foi a sua.
Eis os motivos, collega Aluizio, porque para mim você não passa de um critico casmurro, inconsciente e refractarío.
Casmurro - porqne não se convence deante da verdade; bem como a forma JOVEN, (cer­tíssima), em vez de JOVEM.
Inconsciente - porque procura desfazer o que não conhece; por exemplo, a sua contra­dição com esta mesma palavra JOVEN.
Refractario - porque desobedece áquelles que exercem forças sobre você.
Portanto, melhor seria se o collega demorasse mais um certo tempo colhendo mais conhecimentos, não obstante já ter algum, para então, quando houvesse necessidade e ca­bimento fazer as suas criticas; assim mesmo, com uma forma mais aproveitável ou agradavel, para não se ver tambem obrigado a utillsar-se do referido meio único.
Quanto ao collega Werdeval, eu aconselho que se conserve sempre assim: diplomata e benévolo para com o seu adversário; embora que no seu ultimo artigo, - Machiavelismo de um novo ícaro - taxasse o collega Aluizio de bifron, etc.
Quanto a mim, creio que o collega não per­derá talvez o seu precioso tempo em dar-me attenção; e se resolver a isto só imploro ao collega, a fineza de poupar-me um pouco di­zendo exclusivamente aquillo que eu merecer.
Com respeito ás suas rigorosas correções de linguagem, eu ficarei um pouco descabriado, não há dúvida; mas, aceita-la-eis agradecido, se realmente estiverem analogas aos dos mestres; pois, ninguém mais do que eu precisa, absoiutamente, de mestres.
MARTINIANO CARNEIRO
Feira, Setembro de 1921
Notas do Blog: 1) os erros por acaso encontrados, são do português da época ou da tipografia. 

2) este texto é um Facsimile do jornal "A FLÔR" edção nº24 de 2 de outubro de 1921. pag. 1,3

Querendo só ver a série das Querelas, acompanhe o passa a passo:
1. ao lado direito do Blog na 1ª página, veja em MARCADORES e clique com o mouse em Querelas;
2. aparecera todos os textos, está por ordem cronológica, interessante começar por Querelas I.



quarta-feira, 11 de setembro de 2019

REGISTROS HISTÓRICOS DE 11/09


MEMÓRIAS DE ARNOLD FERREIRA DA SILVA"
Organizado pelos santanopolitanos, Carlos Alberto Almeida Mello e Carlos Alberto Oliveira Brito e editado "Fundação Senhor dos Passos". Núcleo de Preservação da Memória Feirense - Rollie E Poppino.
Dia de hoje no tempo.




1906 - Dissolve-se o ‘Clube Recreio Juvenil”, creando-se em substituição, o “Clube das Péro­las”.

OSWALDO FAEL: "MORENA DO RIO VERMELHO"

ANIVERSÁRIO DE GESSÉ E JOSÉ

Gessé
 A dupla dos santanopolitanos, do signo de Virgem, sob proteção de Exu/Obá, Gessé Campos Rodrigues e José Moreira Teixeira, são os nascido nesta data. Parabéns e muita festa comemorativa.

José

terça-feira, 10 de setembro de 2019

AMAZÔNIA 10X2 “CIVILIZAÇÃO” I

Evandro J.S. Oliveira

Por causa dos incêndios na Amazônia, gerando um clima de histeria, provocado principalmente pelo governo brasileiro, dando lugar a vários palpites, a maioria em completo desconhecimento da região, resolvemos coletar o beabá , sobre o assunto.

Durante cinco séculos a Amazônia sofre ataques do “civilizadores/destruidores”, com poucas ajudas nessa luta.
 A Amazônia sempre foi uma incógnita e fonte de fábulas e projetos mirabolantes.
A grandiosidade da Amazônia, criou ambiente ideal para ficção e megalomanias, raramente com conhecimento científico. Dezenas de livros com imaginários da selva, desde tribos de mulheres: O nome Amazonas, que batiza o maior Estado do Brasil e um dos maiores rios do mundo, tem sua origem em uma lenda grega que veio parar em terras brasileiras, quando expedicionários europeus, liderados pelo espanhol Francisco Orellana, chegaram à região que hoje pertence à Amazônia, em 12 de fevereiro de 1542, encontraram um grupo de índias guerreiras. Segundo os relatos, elas lutavam nuas e viviam em tribos isoladas, sem homens. Eram chamadas pelos índios de icamiabas. Por seus costumes, elas lembravam as lendárias amazonas da mitologia grega, que viviam na Ásia Menor, e logo foi feita a associação entre elas[1].
Até o grande escritor peruano, Mário Vargas Llosa, em seu livro hilário de ficção, “Pantaleão e as visitadoras”, descreve um projeto do militares do Peru, em que Pantaleão era chefe de um grupo de prostitutas levadas para os quarteis da floresta amazônica com o objetivo de diminuir os hormônios dos soldados, evitando ataques às mocinhas das aldeias.
Mas entrando nos problemas mais sérios, de ameaças a o territórios nacionais, iremos citar alguns episódios para melhor entendimento da Amazônia.

ALGUNS FATOS OFICIAIS DA COBIÇA POR PAÍSES  ESTRANGEIROS.

Não é segredo para ninguém: a região amazônica brasileira é a última fronteira natural com alto potencial econômico a ser explorada no mundo.
A biodiversidade, o conhecimento dos povos nativos sobre o uso farmacológico da flora, a diversidade da fauna, a capacidade florestal de contribuir para a estabilização do clima e o regime natural de regulação de precipitações hídricas no planeta, são bens de interesse mundial.
...França tentou se apropriar de parte do território do Amapá, para anexá-la à Guiana Francesa – visando justamente as jazidas minerais ali existentes. O conflito se estendeu até 1895 quando se deu a arbitragem sobre a questão, tendo por árbitro inquisidor o Conselho Federal Suíço. A sentença favorável ao Brasil foi proferida pelo Presidente Walter Hauser e confirmada pelo Rei da Bélgica, Leopoldo II.
Em 1904, porém, a Corôa Britânica decidiu apropriar-se da região do Pirara, no território de Roraima, usando como subterfúgio um conflito muito similar ao que foi observado há pouco pelo Supremo Tribunal Federal, na vizinha Raposa Serra do Sol. Esse conflito, com clara conotação minerária, já vinha se arrastando desde o final do período do Vice-Reino de Portugal, em 1810, quando, soldados ingleses iniciaram uma incursão na região, sendo impedidos pelas forças portuguesas aquarteladas no magnífico e já bicentenário Forte de Macapá.
Posteriormente, em 1835, o explorador Robert Schomburgk fez uma incursão “científica” à região, a pretexto de compreender a geografia física da Guiana. Schomburgk desenhou um mapa abrangendo a região do Tacutu, do Mau e do Surumu – segundo ele ocupada por “tribos independentes”.
A opinião pública europeia “aplaudiu” o relatório, e a Corôa Britânica decidiu relativizar a soberania do Brasil na região.
A relativização foi ainda incentivada pelo missionário protestante Thomas Yound, encarregado de “catequizar” os índios, ensinando-lhes o idioma inglês e hasteando a bandeira da Inglaterra na região do Pirara – terra brasileira. A disputa pelas terras prosseguiu até que se decidiu optar pela via diplomática, em 1898.
A Inglaterra, por óbvio, nunca objetivou garantir direitos indígenas na superfície ou atraí-los para o cristianismo. Sempre quis se apropriar dos minerais estratégicos contidos no subsolo daquela região.
Arbitrado o conflito pelo rei da Itália, Vitório Emanuel II, o Brasil perdeu o território para a Corôa Britânica, que o anexou à Guiana Inglesa, ganhando, assim, um acesso à Bacia Amazônica – que até então não tinha.
Esse impressionante fato histórico permanece ignorado solenemente por quem deveria sabê-lo de cor e salteado – dentro e fora do Estado Brasileiro.
Porém, a história da cobiça inglesa ainda não terminou.
 A estratégia da obstrução à exploração minerária
O episódio de 1904 constituiu o pano de fundo da visita ao Brasil do Príncipe Charles, herdeiro do trono da Inglaterra, e do Primeiro Ministro Gordon Brown, acompanhados do economista da Coroa (e prócer eurocêntrico da política de mudança do clima), Nicholas Stern, não coincidentemente duas semanas antes da “histórica” decisão do Supremo Tribunal Federal sobre o caso da Raposa Serra do Sol.
A Raposa Serra do Sol é vizinha do território de 30 km retirado do Brasil pela Corôa Britânica, no século passado, e por ela ainda cobiçada. Afinal, a Corôa Britânica planeja estrategicamente, projetando intervalos de cinquenta e cem anos (ela não tem pressa…).
A “liberação” da Raposa Serra do Sol para os “povos indígenas”, foi decidida pelo Presidente Lula e avalizada por decisão do STF. (*1)

OS MEGALÔMANOS PROJETOS FRACASSADOS

FERROVIA MADEIRA/MAMORÉ

A  primeira tentativa de fato, se deu em 1872, através do empresário norte americano George Church, que contrata uma empreiteira inglesa com concessão para a construção da ferrovia.
“Mas não dá certo, eles não tem a mínima ideia do que vão encontrar aqui, vêm despreparados”, comenta o historiador.
Depois, em 1878, novamente Church faz uma tentativa, convida para Rondônia uma empreiteira norte americana.
“Também não dá certo, eles passam por muitos percalços principalmente relacionados às doenças tropicais, complementa, Dante.
Em 1905, o governo faz uma nova proposta de concessão para construção e quem ganha é um empresário brasileiro, o engenheiro Joaquim Catrambi, que logo depois vende para o norte americano Percival Farquhar. Esse compra a concessão em 1907 e começa a construir a ferrovia.
Devido ao alto preço da borracha no mercado mundial, a ocupação do Vale do Guaporé pelos portugueses levou a região do alto Madeira a Mamoré a intensificar a produção da colheita do látex. A ligação que ia do Mato Grosso ao Atlântico, através dos rios Guaporé, Mamoré, Madeira e Amazonas, era o percurso realizado no escoamento da produção comercial do Brasil e da Bolívia. A ideia de construir uma ferrovia surgiu em 1861, mas somente em 1877 é assinada Madeira – Mamoré Railway Co., um empreendimento incorporado pelos irmãos americanos Philips e Thomas Collins. Da Filadélfia, no ano de 1878, partiram engenheiros e demais trabalhadores junto com toneladas de máquinas, ferramentas e carvão mineral. Dada a insalubridade do local aliada à falta de alimentação, o único saldo positivo foi a construção de sete quilômetros de trilhos assentados. Vencidos pelas doenças e pela fome, foram poucos os trabalhadores que sobreviveram. A partir de janeiro de 1879, com a falência da empresa Collins decretada, não havia mais o que fazer. Com a assinatura do Tratado de Petrópolis em 17 de novembro de 1903 entre a Bolívia e o Brasil, o Estado do Acre, que à época se fazia uma região pertencente à Bolívia, formalizou-se incorporado ao território brasileiro. Com esse acordo, o Brasil pagou à Bolívia dois milhões de libras esterlinas, cedeu algumas terras do Amazonas e se comprometeu com a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, com o seu trajeto desde o porto de Santo Antônio, no rio Madeira, até Guajará-Mirim, no Mamoré, com um ramal chegando à Vila Bela, Bolívia, o que permitiria o uso de ambos os países com direito às mesmas franquias e tarifas. O Brasil ficava obrigado a construir a estrada de ferro no prazo máximo de quatro anos. mesmo nome usado pelos irmãos Collins: Madeira Mamoré Railway Co.. Saíram de Nova York em 1907. A partir do ano de 1909, quando a ferrovia já contava com 74 km construídos, Dana Merrill, fotógrafo nova-iorquino oficial contratado pela Brazil Railway Company, desembarcou em Porto Velho onde começou os seus primeiros registros dos avanços e percalços no campo das obras ferroviárias. Especula-se a produção de 2 mil chapas em sua estada na Amazônia. Em meio a exemplares da fauna e flora, membros de populações indígenas são registrados em contato com os personagens da obra dominante. Seus registros como cronista do caminho do ferro seguem até o ano de 1910, quando se supõe que Merrill retorna para os Estados Unidos. Sem mais informações sobre a sua vida, Merrill foi revisto no reencontro dos sobreviventes da Exposição Mundial de Nova York, em 1939. A Estrada de Ferro Madeira – Mamoré estava inaugurada em 1912. No entanto a Bolívia, nesse ano, já chegava ao Pacífico por duas ferrovias e estava sendo concluída a sua ligação com o Atlântico, pela Argentina. O canal do Panamá estaria concluído dentro de três anos e, com isso, a Madeira – Mamoré só daria lucro nos dois primeiros anos de atividades, pois a produção ordenada dos seringais do Oriente fariam cair o preço da borracha no comércio internacional. Com a falência de Percival Farquar, os investidores ingleses e canadenses foram obrigados a assumir a administração da ferrovia, o que fizeram até o ano de 1931. Em 1937, Aluízio Pinheiro Ferreira, a mando de Getúlio Vargas, assume a direção da ferrovia, que permaneceu em atividade até 1966. Depois de 54 anos de atividade, acumulando prejuízos durante esse tempo, Humberto de Alencar Castelo Branco determina a erradicação da Estrada de Ferro Madeira – Mamoré que seria substituída por uma rodovia. Atualmente, o que restou da ferrovia é um trecho recuperado que atinge a vila de Teotônio. Por falta de recursos para manutenção, o trem trafega apenas no primeiro trecho, mesmo assim, precariamente.



Histórias inéditas da Ferrovia do Diabo
O livro "Trilhos na Selva" mostra que a construção da Madeira-Mamoré foi um faroeste com doenças, levantes e jogos de pôquer



Deu no “The Porto Velho Marconigram”, o jornal dos engenheiros e operários americanos encarregados, no início do século passado, da construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré, na Amazônia brasileira: “Perigoso encontro com um tamanduá”. A matéria de primeira página da edição de 19 de novembro de 1910 narra em tom bem-humorado a aventura do dr. Garrett e de um funcionário da construtora, ambos envolvidos em uma “luta breve e decisiva com a fera” que, com “uma pata poderosa, rasgou a bota do médico e feriu-lhe a perna”. Essa publicação circulou na nascente Porto Velho (à época com uma população de mil habitantes), mas nenhum dos seus exemplares havia sobrevivido. Agora, uma dezena deles aparece reproduzida no livro “Trilhos na Selva” (Bei Editora), dos autores americanos Rose e Gary Neeleman, junto a imagens inéditas dos fotógrafos Oscar Pyles e Dana Merrill, o documentarista oficial desse empreendimento faraônico no meio da floresta, planejado para escoar a produção de borracha do Brasil e da Bolívia. De posse do valioso material, o casal Neeleman descortina um novo panorama sobre a história da Madeira-Mamoré centrando no cotidiano dos trabalhadores aventureiros. São detalhes anedóticos – e também trágicos – que, em meio à série de livros já publicados sobre o assunto, dão colorido a esse episódio com ares de epopeia.
Editado completamente em inglês, o “Marconigram” tinha a função de entreter uma mão de obra envolvida com perigos maiores que um mero tamanduá de patada certeira. Vítimas de malária, febre amarela, beribéri, febre hemorrágica e outros males tropicais, metade dessas pessoas vindas de diversas partes do mundo morria na selva, criando-se a lenda de que, debaixo de cada dormente da estrada de 360 quilômetros, escondia-se uma alma. Ao todo, dez mil trabalhadores perderam a vida e estão sepultados ao longo do rio Madeira. O dia a dia nas clareiras não era fácil. O uso do álcool era proibido. A prática religiosa, banida.
À noite, os trabalhadores ficavam aterrados com os uivos dos animais e muitos deles passavam a ter transtornos psicológicos.
O livro narra um episódio envolvendo o responsável pelo registro das horas de trabalho J.E. James que sentiu-se mal na mata e, com medo de pernoitar no local, começou a delirar. Baseado em outra edição do “Marconigram”, fica-se sabendo de um levante comandado por uma centena de alemães, em dezembro de 1910. Eles haviam sido contratados para trabalhar na construção, mas não imaginavam o “mico” em que iriam se meter. “Nas várias paradas feitas no rio Amazonas, a desilusão foi aumentando: quando chegaram a Porto Velho, recusaram-se a desembarcar”, lê-se no jornal. O que se segue é a formação de um pequeno exército rebelde ameaçando deflagrar uma “guerra civil na selva”. Atendidos, saíram em debandada. Nove homens que partiram numa jangada improvisada nunca mais foram vistos: mais tarde as cabeças de cinco deles foram encontradas flutuando no rio.
Segundo os Neeleman, a região era habitada pelos hostis índios paintintins e cangas-piranhas. Nem todos os nativos, contudo, eram perigosos. Os caripunas, de barriga avantajada por se alimentar unicamente de amido, aparecem em fotos de Merrill. O cacique veste um pijama que o fotógrafo havia comprado de um navio holandês de suprimentos: o trocou por flechas e algumas poses vaidosas. Em outra imagem, vê-se um caripuna de cabelo encaracolado, o que deveria ser uma moda local. Acompanhando a distância a chegada do progresso, as tribos indígenas ficavam admiradas ao ver uma locomotiva testando os trilhos. Se o bicho metálico parava de andar, viravam as costas, indiferentes.
Apesar de a construção da “Ferrovia do Diabo” ter sido uma façanha da engenharia (tinha até hospital completo), os trabalhadores narram esses episódios em tom de faroeste e até uma prática da corrida do ouro nos EUA é reproduzida no que eles chamavam de “zona ardente”: o pôquer. O jogo de cartas era praticado no dia seguinte ao pagamento e quem ganhasse deveria abandonar o emprego e retornar aos EUA. Alguns perdiam tudo, cerca de US$ 150, uma boa soma para a época. Voltar para o lar era, aliás, o sentimento geral, expresso inclusive em versos. O poeta mais frequente no “Marconigram”, R.S. Stout, não poupava o Brasil: o pintava como “a terra da febre sombria”.  

Filme do Santanopolis dos anos 60