Símbolos do Santanópolis

FOTO OFICIAL DO ENCONTRO

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domingo, 17 de abril de 2022

O ESTOURO DA BOIADA

MOACIR COSTA CERQUEIRA


    Fui testemunha ocular deste fato que aconteceu em Feira de Santana por volta de 1961, no final de uma tarde ensolarada de segunda-feira, quando já se observava aquela natural e costumeira agitação de fim de feira livre. Os feirantes gritavam anunciando as últimas ofertas de seus produtos e aceitavam, àquela altura, qualquer preço, pelas sobras do dia. Era sempre uma boa chance para as pessoas mais modestas se abastecerem, na medida de suas posses. Outros já arrumavam suas coisas para ir embora como sempre acontecia em todos os dias da grande feira. Ainda havia muita gente se movimentando pela praça quando o fato ocorreu, surpreendentemente, assustador, dantesco.

      Cerca de duas dezenas de grandes e gordos bois mineiros invadem a praça da feira originários da Av. Getúlio Vargas, desgarrados de uma boiada que passava lá pelo Ponto Central e promovem um espetáculo de destruição, choques, quedas, escorregões, correria e quebra de barracas. Resto de frutas, legumes e verduras foram esparramados por toda parte. Os bois desequilibrados no calçamento escorregadio chocavam-se novamente adiante. As pessoas corriam para todos os lados gritando apavoradas. Os que assistiam na calçada gritavam e vaiavam a cada lance do espetáculo, e se divertiam até. Foi uma total devastação. O que restava da feira foi tudo destruído, esmagado.

           Todo espetáculo não durou mais de 30 minutos. Os bois passavam por cima de tudo. Só um ficou estendido no chão e foi sacrificado barbaramente, com instinto de vingança, talvez, por uma turma excitada e armada de machado, facas e paus.

           Uns três vaqueiros montados nos seus cavalos tentaram inutilmente controlar a situação, porém suas montarias também escorregavam e eles se estatelavam no calçamento. E os bois, os que conseguiram atravessar toda a praça, desceram desabalados, melados, extenuados em direção à chácara de Manoel Matias. Soube-se que mais tarde foram conduzidos ao seio da manada, lá pelas bandas do Campo do Gado, junto com outros que foram aprisionados no antigo curral do conselho.

           Já noite a dentro ainda existiam, na praça e nas ruas do centro, grupos de pessoas comentando o fato.

         Durante a semana não se falou em outra coisa. A Imprensa, local e da Capital, noticiou em destaque o inusitado acontecimento que deu muito prejuízo, mas que felizmente, não causou vítimas humanas fatais. Somente aquele único e infeliz BOI MINEIRO foi trucidado ali na praça nas proximidades do abrigo predileto.  

quinta-feira, 7 de abril de 2022

A FARRA COM AS CAVEIRAS HUMANAS

Moacir Costa Cerqueira
    O escândalo da farra com as caveiras humanas apanhadas no Cemitério Piedade por um grupo de cinco parceiros de farras nos fins de semana. As caveiras estavam numa ossada amontoada nos fundos do cemitério. Os malandros, já com a cuca esquentada pelos primeiros pileques da noite, invadiram o local e cada qual pegou a sua e juntos saíram pela noite direto para o boteco costumeiro na Praça da Matriz. Compraram uma garrafa de cachaça e serviram doses para cada um nas suas respectivas “taças macabras”, e após consumirem o “líquido precioso” sob os olhares estarrecidos dos presentes no local, saíram cantarolando modinhas de velhos carnavais rumando para o centro da cidade, como se fosse um bando carnavalesco.

            Já era madrugada, porém ainda estava aberto o Bar Recife na Praça João Pedreira. Lá entraram na maior algazarra sob o espanto dos clientes notívagos que ficaram escandalizados ao verem aquela turma, com caveiras na mão como se fossem taças. Pediram mais uma garrafa de pinga e serviram-se, todos já em estado de embriaguez. Um dos clientes entre os que lá estavam, horrorizados com o que viam, foi chamado à parte pelo dono do bar que solicitou-lhe ir até a delegacia para informar ao policial de plantão o que estava ocorrendo. Este acionou o Delegado que por sua vez convocou os policiais de sobreaviso, um fotógrafo e um repórter da cidade.


            Chegando ao citado bar, o Delegado, ao presenciar a macabra cena daqueles malandros bebendo cachaça em crâneos humanos, diante do funesto quadro, deu voz de prisão aos violadores de restos mortais.

            O fotógrafo registrou tudo em sua câmara e o jornalista fez suas anotações.

            Os desajustados foram conduzidos ao xadrez. O tenebroso fato ganhou as páginas dos jornais locais, da capital e pelo país, além de repercutir também nos noticiários radiofônicos.

            Os protagonistas do sinistro acontecimento passaram uns dias presos, mas ao serem libertados não tiveram condições de permanecerem por aqui diante da repulsa da população. Sabe-se que três deles sumiram da cidade, um outro enlouqueceu e um último ainda perambulou por aqui uns tempos, porém na condição de verdadeiro farrapo humano. O fato é que a história da tresloucada farra perdurou por muito tempo nas rodas de conversa contada quase sempre ao gosto do imaginário popular.  

 

segunda-feira, 28 de março de 2022

A HISTÓRIA DO NOIVO FUJÃO


 MOACIR COSTA CERQUEIRA

Santanopolitano, membro da Academia Feirense de Letras.


Este fato, ocorreu mais ou menos entre 1951/1953(não houve precisão da fonte) foi testemunhado por muita gente e a informação era de que abalou a população desta cidade e foi assunto predominante na Imprensa falada e escrita. Caso de família, ganhou notoriedade quando um rapaz, já maduro, passou a dever a honra de uma jovem com quem namorava há longo tempo e manifestava constantes promessas de casamento, o que não aconteceu porque o rapaz praticou o ato de desonra e resolveu desaparecer deixando profunda decepção para a moça e sua família. Pai, irmãos e tios juraram vingança em qualquer tempo.

     Passado o período suficiente para que nascesse a criança, um amigo da família foi ao local de trabalho do irmão mais velho da ex-donzela, chamando-o à parte, passou-lhe a informação de que vira o “sujeito” no bar da rua lateral do Mercado Municipal. Pedro, o irmão mais velho, solicitou ao patrão dispensa para ir resolver uma emergência familiar. Pediu ao portador da informação para chamar seu pai e os dois irmãos. A eles juntaram-se dois amigos e dirigiram-se resolutos ao bar onde encontraram o cara tomando pinga e conversando com os demais presentes. Quando o grupo chegou, o mais velho dos irmãos, dirigindo-se ao fujão, que se chamava Maneca, foi logo, em voz alta, dizendo:

              - Chegou a hora de você acertar contas com a nossa família, “cabra safado”.

Desnorteado diante dos parentes da moça, ali irritados e ameaçadores, Maneca quis saber o que queriam que fizesse.

              - Vamos leva-lo à delegacia onde tem uma queixa registrada e mandado de prisão para você.

              - Está bem – aquiesceu o acusado já bastante nervoso e assustado. Saíram em direção à praça, ele na frente e quando atravessaram com destino à rua da delegacia, o sujeito deu uma guinada para o lado e saiu em desabalada carreira debandando em retorno na direção do antigo prédio na esquina da praça João Pedreira com a avenida Senhor dos Passos. Subiu a escada do prédio em largas passadas, alcançando o primeiro andar, entrou na sala à esquerda que era escritório de um advogado seu amigo.

              Ao se desvencilhar e sair correndo, ouviu-se do grupo que o conduzia gritos de:

              - Pega ele aí, pega, pega.

              Havia a movimentação de muitas pessoas na rua e logo se ouviu também gritos de:

              - Pega ladrão, pega ladrão, pega.

              Isto contribuiu para ajuntar muita gente, muitos curiosos querendo saber o que estava ocorrendo. Mas o grupo que o conduzia na rua, após sua fuga, chegou em seguida e invadiu o escritório em busca do fujão. Houve confusão, insultos e o advogado tentava controlar a situação propondo que todos se acalmassem.

              O grupo de familiares não se conformava e buscava explicar para o advogado que estavam conduzindo o sujeito à delegacia onde havia queixa registrada e um mandado de prisão esclarecendo sobre os motivos daquela ação.

              Os ânimos permaneceram exaltados. O prédio antigo dispunha de portas com parapeitos de grade de ferro à altura da cintura.

              A confusão generalizou-se com empurrões, socos e xingamentos. Ocorreu, contudo, o inesperado; o rapaz despencou da porta/janela, de considerável altura e caiu estatelado no passeio diante dos olhares de um aglomerado de pessoas ávidas pelo desfecho do rumoroso caso.  

              Meia hora depois chegou a Polícia questionando sobre o ocorrido. O pai e irmãos da moça, com apoio de amigos, falavam para o Delegado que conduziam o rapaz para a delegacia onde há queixa e mandado de prisão, quando ele fugiu em desabalada carreira e chegou até o escritório do advogado e não resistindo à pressão atirou-se lá de cima.

            Um policial aproximou-se e informou ao Delegado que a “vítima” ainda dava sinais de vida, tendo sido orientado que chamasse uma ambulância. O Delegado então intimou o pai e os irmãos da moça para comparecerem à delegacia afim de formalizar seus depoimentos inclusive porque corria rumores de que o rapaz havia sido empurrado para baixo. Queria ouvir testemunhas. Maneca foi levado para o hospital. Nos dias seguintes ao fato, as informações eram desencontradas; diziam que havia morrido, mas falava-se também que quatro dias depois de internado levantou-se e sorrateiramente saiu do hospital e fugiu mais uma vez sem deixar rastro.   



Filme do Santanopolis dos anos 60