Continuação da postagem: OS PRIMÓRDIOS DA RELIGIOSIDADE FEIRENSE - I
A devoção a
Nossa Senhora dos Remédios
A devoção a
Nossa Senhora dos Remédios, é a segunda devoção do município de Feira de
Santana, a construção da Capela é anterior ao povoamento por intermédio de
Domingos e Ana Brandoa, com a devoção a São Domingos de Gusmão e Senhora
Sant'Ana. Como relata Morais, et al (2000, p.23),
A caracterização
artístico-arquitetônica da Igreja dos Remédios, juntamente com o registro
eclesiástico, permite afirmar-se que ela teve sua construção iniciada no século
XVII, haja vista a realização do Sacramento do matrimónio, nos anos de
1707-1711, na Capela, com invocação de Nossa Senhora dos Remédios, enquanto a
cessão das cem braças de terra, feitas pelo casal Ana Brandão e Domingos
Barbosa de Araújo para a edificação da Capela em louvor a Santana e a São
Domingos de Gusmão, só seria lavrada em escritura, no dia 28 de setembro de
1732.
Esta
devoção, remonta aos anos de 1700. A capela ficava localizada na Fazenda
Mochila, na então Sesmaria pertencente a João Peixoto Viegas, consta no livro
de batismo da Paróquia de São José das Itapororocas, o batismo de Úrsula, filha
de João Peixoto Viegas, e de celebrações de casamentos, acontecidos nesta
capela. De acordo com Galvão (1982, P- 26),
[...] o livro mais antigo, o
precioso volume de Batizados de 1685-1696, casamentos de 1685-1711 e óbitos de
1685-1724, constitui o documento primitivo da família feirense. Nele aparece o
lendário Sitio da Mochila, em fls. 2,4, 8 e 9, com a presença do Cel. João
Peixoto Viegas, o segundo desse nome batizando sua filha Úrsula (1689) e
numerosos escravos concentrados na mesma fazenda, em São Simão, Campo Grande
(RETIRO) e no povoado de São José[..].
A pequena
capela está situada na antiga rua direita, hoje nomeada Monsenhor Tertuliano
Carneiro, tem sua arquitetura em estilo colonial. A igreja tem nave única, que
tem sua construção realizada a partir do arco do cruzeiro. O gradil de ferro,
típico das construções a partir do século XVII, separando o altar, onde ficava
o padre, do restante dos fiéis. O altar mor, é de marmorite, o primitivo foi
substituído, em reforma executada por Pe. Amílcar Marques. Os altares laterais
foram retirados, e com eles, os santos das devoções dos feirenses. Restando na
nave da igreja o púlpito, que apresenta um dossel com traços do barroco, em sua
decoração tem o brasão do Vaticano. De acordo com Morais, et al (2000, p.75),
A Igreja dos Remédios tem uma única nave de proporções modesta, aí
resistindo um toque de graça que extrapola o sentido das grandes dimensões.
Partindo da porta principal, adentra-se no grande salão que teve sua construção
realizada a partir do arco-cruzeiro, arrematado por traçado dórico e com gradil
de ferro separando o retábulo da nave, de onde a forma de cruz a igreja. Esse
gradil, típico das igrejas construídas a partir do século XVII, possuía a
função de separar o corpo eclesiástico e/ou a elite das camadas populares da
sociedade colonial, que ficavam no interior da Igreja.
Com torre
única lateral, tendo sua cúpula revestida de louças, que segundo a tradição são
provenientes de Macau. A decoração da cúpula é composta por peças inteiras de
louça, como também por fragmentos, tendo sua decoração policromática. Neste
sentido, Morais, et al (2000, p.23), relata que:
O riquíssimo revestimento da
torre é de porcelana de Macau, com vários tipos de preenchimento do mosaico,
cujos desenhos apresentam basicamente um traçado geométrico e de arabescos.
[...]predominam as cores branco, azul e alguns detalhes em vermelho. Ladeando a
cúpida quatro coruchéus com base quadrada encimada por almofada, ao que se
sobrepõe uma pirâmide longa, também revestidas do mesmo material da cúpula.
Nos séculos
passados a Capela dos Remédios, além de servir como templo religioso, sendo sua
verdadeira funcionalidade, serviu de Câmara Municipal, e Tribunal do Júri, e
comprovando sua importância na cidade recebeu a visita do Imperador. Tudo isso,
registra a importância desta Capela na Sociedade Feirense. Como afirma Morais,
et al (2000, p.23),
A Capela dos Remédios foi palco,
no século XIX, de realizações de Tribunais dos Júris, reuniões da Câmara
Municipal, eleições, festas, celebrações litúrgicas, dentre outros
acontecimentos. Merece nota que o primeiro Júri, após três anos de emancipação
política de Feira de Santana, foi realizado na Capela dos Remédios, sendo
condenada a ré Joana Maria dos Prazeres. Também é registrada a visita do
Imperador D. PEDRO II, em 1859, no seu diário sobre a viagem ás Províncias Norte
e Nordeste do Brasil.
A Capela dos Remédios, é um património material para o povo feirense, onde podemos considerá-la como marco histórico da cidade. Esta edificação registrou através dos séculos todas as fases do surgimento da cidade de Feira de Santana. Atrelado a devoção dos Remédios em solo feirense, o culto Sant'Ana surge da devoção do casal Domingos e Ana.
Devoção a
Sant’Ana: da fazenda ao Arraial
A devoção a
Avó de Jesus Cristo, inicia-se na então Fazenda Olhos D’Água, pertencente
a então Vila de São José das Itapororocas, dos campos da cachoeira. A Fazenda
Olhos D’Água, que foi adquirida por Domingos Barbosa de Araújo e esposa, foi o
primeiro local devocional aos Santos, em seus oratórios particulares, onde eram
rezados novenas, ofícios e ladainhas, suplicando as bondades do céu. Tamanha
era a fé do casal que doaram 100 braças de terra, no Sítio Alto da Boa Vista,
para a construção da capela em devoção a São Domingos e a Santa Ana. A este
respeito Cerqueira (2007), aponta que:
Embora localizada no semi-árido,
a fazenda era rica em ‘Olhos d Agua ’, córregos e riachos e rodeada de
pastagens naturais, por isso se tornou um grande atrativo e local predileto
para pousos de tropas e viajantes que vinham do Piauí e de Goiás em direção a
Cachoeira. As praças Padre Ovídio Alves de São Boaventura e Monsenhor Renato de
Andrade Galvão e a igreja da Catedral Metropolitana de Senhora Santana,
provavelmente, erguida sobre a construção da antiga Capela dedicada a São
Domingos e Senhora Sant 'Ana.
A partir da
construção da capela, inicia-se um novo povoamento do território feirense,
sendo que agora em decorrência da devoção a Sant'Ana. Na capela as pessoas se
congregavam para rezar, suplicando a intercessão de Sant'Ana e São Domingos, e
ao redor da primitiva capela, as primeiras trocas foram efetuadas, surgindo a
feira, que gradativamente cresceu, levando o conhecimento do Arraial para além
dos Campos das Itapororocas. Foi famigerada troca e venda de mercadorias, que
nomeou a cidade de Feira de Santana. De acordo com Poppino (1968, p. 20),
Algum tempo depois da construção
da capela, tornou-se ela um ponto de encontro para o povo do distrito, que aí se reunia para
fazer orações, visitas e negócios. Dessa maneira, a pouco e pouco se ia
desenvolvendo uma feira periódica em Santana dos Olhos D’Agua. A feira, que
teve início no primeiro quartel do século dezoito, deu o seu nome à atual Feira
de Santana dos Olhos d 'Agua. Expandir-se-ia contudo o arraial vagarosamente e
um século decorria antes que a sua fama se espalhasse além dos confins da
paróquia de São José das Itapororocas.
 |
Igreja de Feira de Santana, à esquerda Estação Ferroviária. |
As trocas e
vendas de mercadorias, por tropeiros, mascates e vaqueiros, que transitavam por
aquela localidade em direção a Vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto da
Cachoeira, faz surgir a feira livre, e em decorrência disso, as primeiras
casas, que serviam de rancharia para os transeuntes. De acordo com Almeida
(2004, p 39),
O casal proprietário da fazenda,
Santana dos Olhos D'Agua, adquiriu suas terras, nos idos de 1710 e doou, com
escritura passada, em 1732 ‘cem (100) braços em quadra’para Santana e São
Domingos, onde foi edificada a capelinha no Alto da Boa Vista em redor da qual,
um vilarejo com casas e casebres. Deste pequeno aglomerado de
gente, dadas as necessidades de cada um, foi despontando, paulatinamente, um
pequeno comércio, onde eram negociados gêneros alimentícios de toda espécie e
até pequenos e grandes animais.
O local
escolhido para a capela era propício aos tropeiros e vaqueiros, pois tinham nas
proximidades as aguadas, para os animais. Apequena capela passa por ampliações
e reformas. Algumas reformulações estruturais, como as executadas pelos padres,
Ovídeo de São Boaventura, que construiu as naves laterais e Tertuliano
Carneiro, que ergue as torres, no ano de 1913. As reformas demostram a
necessidade da expansão do espaço físico que comportasse os fiéis. A igreja de
SanfAna era e é, o símbolo da religiosidade feirense. Local onde diversas
pessoas marcaram suas vidas em decorrência das celebrações, em épocas que a
velha Matriz era a referência na cidade. Como descreve Poppino (1968, p. 309),
A Religião sempre foi uma força
poderosa em Feira de Santana, desde os tempos coloniais. Quase todo o povo do
município constitui-se de católicos, para os quais os símbolos da fé
representavam uma parte da vida diária. Em todas as ocasiões importantes, do
nascimento até a morte, uma cerimonia religiosa acompanhava, invariavelmente, a
vida de cada qual, enquanto os dias santos especiais e os festivais religiosos
se celebravam com toda a pompa e ostentação da Igreja Católica.
Outras
reformas e ampliações foram executadas ao decorrer dos anos, no interior da
igreja. Como a construção da sacristia e do coro, a construção do altar lateral
do Sagrado Coração de Jesus. Ao redor desta rudimentar capela, casas foram construídas,
e o comércio instaurado, surgindo o povoado, sendo transformado em vila,
recebendo o título de cidade. Segundo Oliveira (2014, p. 12),
A ligação dos feirenses com a sua
Padroeira era tão forte que ela determinou o próprio nome da cidade que, após
ter se emancipado de Cachoeira, em 1832, deixou de ser um pequeno Arraial e
ganhou titularidade de Vila, famosa pela tradição comercial e feira de gado. Em
um combinado da expressão de fé e tradição, emancipada Vila se tornará Feira de
Santana, tendo como uma de suas principais marcas as homenagens anuais
prestadas a Sant’Ana.
A devoção a
Sant’Ana surge através de Domingos e Ana, quando trazem a propriedade as imagens dos santos padroeiros. Esta devoção extrapola
as cercas da fazenda, fazendo com que os tropeiros, viajantes e moradores do
entorno pudessem celebrar a Avó de Jesus.
VITOR BATISTA DOS SANTOS
Bacharel em Arqueologia pela Universidade do Estado da Bahia -
UNEB/CAMPUS VIII.
Revista do INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE FEIRA DE SANTANA - Ano XVI - Nº 16