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FOTO OFICIAL DO ENCONTRO

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terça-feira, 6 de setembro de 2016

CURIOSIDADES MATEMÁTICAS

Quando garoto conheci um livro que contava história de lendas árabes, de autoria de Malba Tahan, pseudônimo do educador professor matemático Júlio Cesar de Melo e Souza. Um livro editado no início da década de 40, tinha como proposito pedagógico incentivar os jovens a gostarem de matemática. Professor Amorim, Santanopolitano, fez parte de um curso da CADES, quando foi monitor da área de matemática, em que o autor era o professor Melo e Souza. Amorim ficou seu fã, agora no V ENCONTRO DOS SANTANOPOLITANOS, sorteou dois exemplares do “Homem que Calculava”, me presenteando com um terceiro, que tive o prazer de relê.
A seguir um dos contos, que é dos mais interessantes.
Evandro Oliveira

OS  35 CAMELOS

Poucas horas havia que viajávamos sem interrupção, quando nos ocorreu uma aventura digna de registro, na qual meu companheiro, Beremiz, com grande talento, pôs em prática as suas habilidades de exímio algebrista.
Encontramos, perto de um antigo caravançará[1] meio abandonado, três homens que discutiam acalorodamente ao pé de um lote de camelos.
Por entre pragas e impropérios
gritavam possessos, furiosos:
- Não pode ser!
- Isto é um roubo!
- Não aceito!
O inteligente Beremiz procurou informar-se do que se tratava.
- Somos irmãos esclareceu o mais velho e recebemos, como herança, esses 35 camelos. Segundo a vontade expressa de meu pai, devo receber a metade, o meu irmão Harned Namir uma terça parte e ao Harim, o mais moço, deve tocar apenas a nona parte. Não sabemos, porém, como dividir dessa forma 35 camelos e a cada partilha proposta segue-se a recusa dos outros dois, pois a metade de 35 é 17 e meio. Como fazer a partilha se a terça parte e a nona parte de 35 também não são exatas?
- É muito simples atalhou o Homem que Calculava. Encarrego-me de fazer, com justiça, essa divisão, se permitirem que eu junte aos 35 camelos da herança este belo animal que, em boa hora, aqui nos trouxe!
Neste ponto, procurei intervir na questão:
- Não posso consentir em semelhante loucura! Como poderíamos concluir a viagem, se ficássemos sem o camelo?
- Não te preocupes com o resultado, ó Bagdali! replicou-me em voz baixa Beremiz. Sei muito bem o que estou fazendo. Cede- me o teu camelo e verás no fim a que conclusão quero chegar.
Tal foi o tom de segurança com que ele falou, que não tive dúvida em entregar-lhe o meu belo jamal[2], que, imediatamente, foi reunido aos 35 ali presentes, para serem repartidos pelos três herdeiros.
- Vou, meus amigos disse ele, dirigindo-se aos três irmãos —, fazer a divisão justa e exata dos camelos que são agora, como veem, em número de 36.
E, voltando-se para o mais velho dos irmãos, assim falou:
- Deverias receber, meu amigo, a metade de 35, isto é, 17 e meio. Receberás a metade de 36 e, portanto, 18. Nada tens a reclamar, pois é claro que saíste lucrando com esta divisão?
E, dirigindo-se ao segundo herdeiro, continuou:
- E tu, Hamed Namir, deverias receber um terço de 35, isto é, 11 e pouco. Vais receber um terço de 36, isto é, 12. Não poderás protestar, pois tu também saíste com visível lucro na transação.
E disse, por fim, ao mais moço:
- E tu, jovem Harim Namir, segundo a vontade de teu pai, deverias receber uma nona parte de 35, isto é, 3 e tanto. Vais receber uma nona parte de 36, isto é, 4. O teu lucro foi igualmente notável. Só tens a agradecer-me pelo resultado!
E concluiu com a maior segurança e serenidade:
- Pela vantajosa divisão feita entre os irmãos Namir — partilha que todos três saíram lucrando — couberam 18 camelos ao primeiro, 12 ao segundo e 4 ao terceiro, o que dá um resultado (18+12+4) de 34 camelos. Dos 36 camelos, sobram, portanto, dois.
Um pertence, como sabem, ao bagdali, meu amigo e companheiro, outro toca por direito a mim, por ter resolvido, a contento de todos, o complicado problema da herança!
- Sois inteligente, ó Estrangeiro! — exclamou o mais velho dois irmãos. — Aceitamos a vossa partilha na certeza de que foi feita com justiça e equidade!
E o astucioso Beremiz — o Homem que Calculava — tomou Iogo posse de um dos mais belos “jamales” do grupo e disse-me, entregando-me pela rédea o animal que me pertencia:
- Poderás agora, meu amigo, continuar a viagem no teu camelo manso e seguro! Tenho outro, especialmente para mim!

E continuamos nossa jornada para Bagdá.




[1] Refúgio construído pelo governo ou por pessoas piedosa à beira do caminho, para servir de abrigo aos peregrinos. Especie de rancho de grande dimensões em que se acolhiam as caravanas.
[2] Uma das muitas denominações que os árabes dão ao camelo.

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