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Jose Carlos Barreto de Santana Santanopolitano |
Tabira é apenas um retrato na parede
Mas como dói!
(Carlos Drummond de Andrade)
A dor do
poeta talvez seja um ponto de partida para um feirense que resolva, ainda que
breve e superficialmente, relembrar aqueles recursos naturais que foram tão
importantes para o surgimento e desenvolvimento do município: as nascentes e
lagoas da nossa cidade.
Menos ainda
que retratos na parede, as nascentes e lagoas vão se tornando meras citações históricas,
enquanto desaparecem da nossa paisagem. Um dia, no entanto, foram tão
significativas que se constituíram nos fatores preponderantes no assentamento
do povoado que originou a cidade de Feira de Santana, muito em função da
presença da água superficial e subterrânea próximo à superfície.
Não por
outros motivos estiveram presentes na primeira nominação do que viria a ser a
nossa idade. Em função das nascentes, surgências d'água comuns na nossa região,
o povoado que nos originou) foi chamado de “Santana dos Olhos d'Água”.

Na década de
1960 foram contadas sessenta lagoas, distribuídas sobre rochas muito antigas
(pré-cambrianas) ou sedimentos mais recentes da formação Barreiras (terciário).
Algumas das lagoas contribuem com suas
águas para o lençol de água subterrânea, tornando-se, portanto, secas nos
períodos de estiagem; outras mantêm um “espelho d’água” visível durante o ano,
em decorrência do substrato impermeável sobre o qual estão instaladas. Dentre
as lagoas encontravam-se as lagoas Grande, Mendes, Mangabeira, do Prato Raso,
Subaé, do Peixe, Camisa, Pirrixi, Berreca, Seca, Ovo da Ema, etc.
Principalmente no núcleo urbano, a captação, a poluição, o assoreamento e o
aterro intencionalmente provocado foram mais intensos, devido às concentrações
de edificações, lixo e dejetos domésticos e industriais e ameaçam fortemente
suas existências.
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Lagoa Grande - no centro da cidade |
O verdadeiro
complexo de lagoas do bairro da Queimadinha, normalmente chamadas de Prato Raso,
segue inexoravelmente o caminho da extinção através do aterro ininterrupto que
sofre para construções de casas e edifícios comerciais, mesmo destino da Lagoa
do Subaé, mesmo com todo o apelo que o nome do corpo de água da nascente do rio
de mesmo nome pudesse ter. A Lagoa Grande de São José virou depósito de lixo e
entulho.
Apenas a
Lagoa Grande (a da sede da cidade), que foi uma das principais fontes de
abastecimento público de Feira de Santana, parece escapar à sanha destruidora
que ataca as nossas lagoas, uma vez que nelas se executam, lentamente, obras
que podem ressignifícar a sua existência.

Algumas
dessas fontes receberam a implantação de uma infraestrutura mínima, como a
construção de tanques de retenção e lavanderias de cimento, permitindo um
melhor aproveitamento da água, na irrigação de hortas, abastecimento doméstico
e atividades de lavadeiras, o que beneficiava as comunidades aos arredores da
nascente, a exemplo da “Fonte do Mato” e “Tanque da Nação”.

Outras
nascentes com as suas benfeitorias foram abandonadas sob a alegação de que o
progresso trouxe “água encanada” para todos. Aquelas cujo “milagre do
desenvolvimento” não destruiu completamente continuam sendo parcialmente
utilizadas pelas populações carentes dos bairros onde se localizam a exemplo
das fontes “de Lili” e “do Buraco Doce”, no bairro da Queimadinha, e “dos Milagres”,
no bairro da Gabriela.
A “Fonte do
Mato”, talvez a mais emblemática de todas, por ser a principal do bairro dos
“Olhos d'Agua”, considerado o mais antigo de Feira de Santana, jaz esquecida no
que sobrou de quintal da casa onde ainda moram os descendentes de “Noratinho da
Pamonha”.
Estes são
importantes elementos para que se perceba o tamanho do descaso para com esse
bem natural tão importante que é a água. Provavelmente, a maioria da população
de Feira de Santana desconhece que a relação dos seus moradores com esse bem
natural foi muito mais direta que atualmente. Em 23 de novembro de 1834,
divulgou-se a determinação de atribuir “multa de 15$000 a quem abrir poço e fizer
tanque ou qualquer obra em prejuízo das águas públicas desta Vlla”. Em sessão
realizada no dia 3 de fevereiro de 1872, “a Câmara dispende de 11 contos e 600
mil reis na limpeza da “Fonte do Valado” aqui já mencionada.
Aos poucos,
e sem maiores consequências para os que dilapidam os nossos históricos recursos
naturais, as lagoas e olhos d’água vão desaparecendo da cena feirense e em
breve não restará sequer um quadro na parede para doer em nossa alma.
Transcrito da revista "História e Estórias dos
Séculos XIX e XX (Escritas a cinquenta mãos).
Edição Especial do Instituto Histórico e Geográfico de
Feira de Santana - 2015 pag. 116,117 e 118