EMANOEL FREITAS – Santanopolitano, jornalista, advogado, editor do Blog “Viva Feira”, recomendado ao lado, pelo Blog Santanópolis,
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Os
tempos mudam. Acabei de escrever esta frase no meu smartfone, para um amigo que
não vejo há uns vinte anos, e que, por mágica destas novas tecnologias, nos
encontramos no facebook, e já me acompanha também no twiter, instagran e
whatsaap. Reatamos a velha amizade e trocamos informações gerais, e as saudosas
dos amigos comuns. Hoje nas reuniões sociais não faltam assuntos para animar e
dinamizar os encontros. Toda esta quantidade de informações decorrente de
tantos meios de comunicação tem tornado quase todo mundo muito falante. É claro
que a lógica não pode ser responsabilizada pelos entendimentos e interpretações
equivocadas que as redes de comunicação soltam no ar e na internet
aleatoriamente, de modo que o convívio social anda com um dinamismo sem
precedentes na história humana. Todos tem o que falar e, por isso mesmo, parece
que desaprenderam o hábito de ouvir. Bom, esse é um problema que certamente
terá suas consequências, e as naturais soluções pela própria dialética, como
diria meu velho amigo e filósofo das horas vagas, Arquimedes.
A
verdade é que nem sempre foi assim, antigamente tínhamos apenas os rádios AM,
que enchiam as casas com informações, poucas, e muitas vezes já ultrapassadas,
pois a comunicação andava a “lombo de burro”, o que tornava o convívio social
bastante diferente. Tínhamos os contadores de histórias e estórias, normalmente
pessoas desinibidas, alguns eruditos, outros muito criativos, e estes eram os
que faziam mais sucessos em qualquer reunião social, pois traziam em suas
estórias a capacidade de divertir e invariavelmente de provocar risos, o que
tornava necessário que houvesse sempre um parceiro que confirmasse as estórias,
para dar-lhes peso e aparência de veracidade.
Chico
Anísio consagrou este estereótipo em seu programa "Chico City",
através de um personagem que se caracterizava pelo exagero das estórias que
costumava contar, beirando quase sempre ao absurdo. O personagem era Pantaleão,
que fez sucesso absoluto durante muitos anos, e até criou jargões, que eram
repetidos em todo Brasil, e que permaneceram em uso, mesmo após o personagem
não estar mais sendo exibido, como: "...tô mentindo Terta?", pergunta
que fazia a esposa sobre a estória que acabara de contar, para que ela
confirmasse, ou "...cala a boca Pedro Bó...", em reprimenda a um
afilhado seu, que sempre estava presente durante as contações de estórias, mas
que invariavelmente fazia interferências pouco inteligentes ou redundantes. A
bem da verdade, o estereótipo de Chico, para nós, em Feira de Santana, não
apresentava nenhuma novidade, sempre nos pareceu uma cópia um tanto quanto
modificada de um personagem inesquecível que viveu em nossa cidade, e que
divertiu muita gente nas boas reuniões sociais daquela época.
Muito
conhecido e respeitado na melhor sociedade feirense, como médico e cidadão
exemplar, Dr. Pirajá, nunca deixava um bate-papo cair na rotina ou ficar
monótono, logo que surgia um gancho na conversa ele apresentava uma história, e
pronto, era a conta de reunir pessoas em volta da sua mesa para apreciar. Se
não surgisse o tema que desse margem a qualquer de suas histórias começava
falar de seu carro, um Citroen, que era no mínimo o melhor veículo do mundo,
com o qual fez viagens absolutamente fantásticas. Imaginem que neste Citroen
Dr. Pirajá fez uma curva tão fechada, mas tão fechada que no meio da curva
enxergou a placa traseira do carro.
Se
como indivíduo e médico era uma pessoa inacreditável, que inclusive atendia as
pessoas mais pobres gratuitamente e ainda arranjava remédios para seus
pacientes menos favorecidos, firmando-se como um profissional exemplar e
extremamente sério e competente, quando se reunia com amigos em eventos
sociais, também era insuperável como contador de estórias que eram muito mais
inverossímeis do que as do personagem do grande grande humorista brasileiro.
Dr.
Pirajá frequentava, praticamente, todas as reuniões sociais da cidade, pois
considerado e respeitado por todos, e assim era convidado para os melhores e
mais importantes eventos, numa época em que quase todos feirenses se conheciam,
e ele pelo seu trabalho social e profissional gozava de prestígio em toda
cidade. Aliando-se ao bom caráter reconhecido por toda sociedade da época,
divertia-se contando as exageradas estórias, nas quais ele próprio era o
personagem central e a esposa Mariinha sem dizer uma palavra assentia a todas
indagações que ele lhe fazia para confirma os causos. Alguns
maledicentes da época afirmavam que ela não confirmava nada, na verdade tinha
um sexto em se balançava sempre positivamente o corpo e parecia estar
respondendo em concordância com as estórias. A bem da verdade esta atitude era
outra semelhança entre ele e o personagem de Chico Anísio, que nesta época
ainda não existia.
Conheci
Dr. Piraja na residência de Francisco Dórea, a quem considerava um Tio por ser
casado com Elvira, prima carnal de meu pai, e que pelo fato de terem sido
criados juntos na casa de Senhora Araújo, me dava o status de tia por
consideração, e o bom doutor não faltava as reuniões realizadas por aquela
família, sendo inclusive compadre, por ter batizado um dos filhos do casal.
Eram
muitos encontros, os Dóreas tinha, salvo engano, oito filhos, ou seja, no
mínimo oito aniversários por ano, nos quais Dr. Pirajá estava presente em
todos, nossa família também estava sempre nos eventos, de modo que presenciei
muitas estórias daquele mestre de causos incomuns e muitas vezes absolutamente
inacreditáveis. Até mesmo as crianças, que não costumam se interessar por
conversas de adultos, se reuniam para ouvir, quando começava contação as
estórias. Certa feita tomei conhecimento do asfaltamento da rodovia
Feira-Salvador, ressaltado quando doutor Pirajá lembrou que logo quando pavimentaram
a tal estrada (BR. 324), gabando ser um asfalto de primeira, quando voltava de
uma viagem a Salvador, na altura da Igreja dos Capuchinhos, um menino
atravessou a pista correndo atrás de uma bola, ele que vinha em seu Citroen em
alta velocidade, deu um freio tão violento, que após ter passado uns cem metros
do local, olhou para trás e observou que os meninos estavam tirando a borracha
dos pneus do asfalto para fazer badogue. Na verdade não era só o asfalto que
era de primeira, a borracha dos pneus também não era brincadeira.
Vez
por outra envolvia familiares nas estórias. Relatando uma viagem feita para
Salvador, as pressas, em razão de uma urgência para socorrer um paciente que se
encontrava na capital, e que só confiava em seus diagnósticos, acompanhado de
sua filha Miriam, em seu famoso Citroen, desenvolvia velocidade tão grande, que
a menina tendo colocado uma pequena vara de bambu para fora do carro pela
janela, ele só ouviu o barulho, tá-tá-tá-tá-tá-tá, do bambu batendo nos
marcadores de quilometragem da BR. Ressalte que os marcadores tinham distância
de um quilômetro de um para o outro.
Nunca
faltavam boas e inacreditáveis estórias a Dr. Pirajá. De outra feita, ou para
ser mais exato, em outra festa, o Dr. relatou uma caçada que fez em uma região
perto de seu sítio em Humildes, e a certa altura da jornada sentiu uma forte
dor de barriga, como não havia outro meio, teve que se aliviar ali mesmo, no
mato, assim, procurou uma boa moita, e como tinha o hábito de só ir ao
sanitário completamente sem roupas, tirou-as e colocou sobre a moita, o
relógio, no entanto, um suíço de primeira linha automático de 25 rubis, tirou
do braço e colocou em um pequeno arbusto que havia ao seu lado. Terminando de
se aliviar, vestiu a roupa e continuou sua caçada durante todo o dia, e só
depois que chegou em Feira em sua casa na rua Georgina Erisman, à noite, é que
se deu conta de que havia esquecido o relógio no pequeno arbusto que havia
pendurado no mato. Era um bom e caro relógio suíço, último modelo, automático,
mas não havia como voltar mais naquela altura da noite e conseguir localizar
exatamente onde o teria deixado, assim teve que esquecer o relógio. Ainda
segundo Dr. Pirajá, alguns anos depois, caçando nesta mesma região, em um verão
de sol abrasante e calor insuportável, procurou uma árvore para se proteger e
descansar um pouco, sentou-se em uma boa sombra e logo que se acomodou ouviu o
barulho, tic-tac, tic-tac, curioso subiu na árvore e la estava o relógio suíço
funcionando perfeitamente sem atrasar um minuto sequer. Neste momento alguém
interpelou: "Mas Dr. como é que pode o relógio ter funcionado esse tempo
todo sem ninguém dar corda?"; no que ele respondeu, "ora meu filho o
relógio era automático de primeira linha, e nesta região venta muito, toda vez
que o vento balançava os galhos da árvore dava corda no danado. Não foi
Mariinha?" e D. Mariinha se movimentou na cadeira como se estivesse
concordando com o bom doutor.
Como
afirmei inicialmente nosso Pirajá era melhor que qualquer Pantaleão que possa
ser encontrado por aí.
Da série : Verdades e Mentiras sobre Feira de Santana
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