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FOTO OFICIAL DO ENCONTRO

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segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

POEMA DE NATAL - O OUTRO LADO

EDUARDO KRUSCHEWKY
 


Chega dezembro e, com ele, o Natal...

Cristo, milagre do marketing, surge no coração dos homens.

Há uma necessidade enorme de desculpas,

Por isso, todos caminham de loja em loja,

Assediados por meninos de rua,

Por mendigos, párias,

Que, mãos estendidas, cobram insistentes:

E, aê, doutor, cadê o meu Natal?

Mulheres depauperadas e paupérrimas,

Algumas grávidas de sem futuros,

Mercam quinquilharias nas calçadas.

 

FELIZ NATAL! PRÓSPERO ANO NOVO!

 

Certa de que será citada na coluna social,

Por seu gesto generoso e “altruísta”,

A madame, num carro importado, distribui,

Em nome de alguma instituição de “caridade”,

Falsos sorrisos e cestas básicas,

Num arroubo de bondade extemporânea...

Os carteiros andam como loucos

Distribuindo formais mensagens de otimismo,

Enfim, há um pedir e um dar sem conta!

Diante de tanta “fraternidade”,

De tanto” amor”,

De tanta “cidadania”,

Um louco revela-se poeta:

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

MARIA FELIPA - 2ª parte, final.

EDUARDO KRUSCHEWKY 

MARIA FELIPA - 1ª parte

    
    As revoltas explodiam em diversos lugares, e, em 1821, no Arraial da Ponta da Baleia, hoje Itaparica, o cirurgião Luiz Gonzaga da Luz criou a Campanha da Independência, onde se alistou Maria Felipa. Integrada à luta, tempos depois, vamos encontrá-la, liderando 40 valentes mulheres, na Praia de Manguinhos, onde estava ancorada a Canhoneira Dez de Fevereiro. Era o dia Io de outubro de 1822. Este dia ficaria marcado por nele ter ocorrido o primeiro dos ataques nativos às 42 embarcações portuguesas. A líder, Maria, chamou duas das suas comandadas e ordenou que estas chegassem próximas dos vigias da canhoneira, os portugueses Araújo Mendes e Guimarães das Uvas, atraindo-os para uma armadilha. Esbanjando feminilidade as nativas seduziram os vigias, conduzindo-os para um local um pouco distante, com promessa de sexo fácil. Os homens, ao tirar as roupas, foram surpreendidos por um grupo de mulheres que os surraram com galhos da planta chamada cansanção, repletos de espinhos. Após acabar com a vigília dos invasores, as “vendetas” (era assim chamado o bando de mulheres liderado por Maria Felipa) tomaram o navio de surpresa, enquanto a maioria dos tripulantes dormia, e atearam fogo à embarcação.

    Depois do sucesso desta missão, as “vendetas”, lideradas por Maria Felipa, ganharam o respeito e a companhia de homens nativos, mulatos e índios. Unidos, partiram para a destruição das embarcações portuguesas, ancoradas nas imediações da ilha, que aguardavam a ordem para invadir Salvador e reprimir as ações pela independência baiana. Sorrateiramente, os guerrilheiros se aproximavam dos navios e os incendiavam, causando baixas significativas na marinha portuguesa. Incansável, Felipa estava sempre à frente do seu pequeno exército mambembe, sendo suas maiores armas o denodo e o desassombro. Conta-nos Xavier Marques em seu romance “O Sargento Pedro” que os homens estavam se preparando para enfrentar um ataque português cavando uma trincheira na praia, iluminados apenas por uma tocha em mãos de Maria quando um deles disse: Estou cavando a minha cova!” ao que, de pronto, a mulher respondeu: Cave, não para ser a sua cova, mas a dos portugueses...”

    Itaparica conseguiu resistir a quatro assaltos, um atrás do outro, graças à tenacidade e uma organização de guerrilha: quando os portugueses estavam chegando, eles mandavam sinais, se escondendo nas trincheiras cavadas na praia.

Capas de livros que contam sobre Maria Felipa
   As tropas portuguesas eram bem municiadas, preparadas para a guerra, ao contrário do itaparicano, o pescador, a marisqueira. Estes, além de não ter o preparo, não tinham a munição, e por isso usavam da inteligência. Quando uma nau era vista, eles entravam nas trincheiras e aguardavam que os portugueses desembarcassem, atacando, então, como podiam com machados, facas, “chuchos” e o formidável cansanção. Os lusitanos ficavam loucos, sem entender de onde vinha tanta bravura.

    Incansável, ajudando ao tenente João das Botas, Maria Felipa estava em todos os lugares à frente dos seus combatentes. Além dos feitos de batalha, ainda distribuía mantimentos tomados dos inimigos, enviando-os para cidades do Recôncavo, como Santo Amaro, Santo Antônio de Jesus, Amargosa, Nazaré, Salinas das Margaridas, Cruz das Almas e outras. Portando armas simples e galhos de cansanção, e incendiando navios com tochas feitas de palha de coco e chumbo, à falta de armas mais eficientes, tornou-se o povo itaparicano fundamental para a Independência da Bahia e do Brasil. O pequeno exército de moradores era formado por um grupo de mulheres e homens de diferentes etnias: brancos, negros, mulatos, índios, enfim todos os que quisessem resistir aos invasores. São muitos os feitos desta mulher e foram inúmeros os desafetos que acumulou por seu denodo e bravura.

   Diversas são as histórias que se contam sobre a participação dos ilhéus de Itaparica. São fatos que enchem de orgulho o povo nativo por seu papel na libertação brasileira do jugo português.

HISTÓRIAS E LENDAS

    Algumas delas: Uma imagem de Nossa Senhora da Piedade foi trazida para a ilha e depositada em um nicho na praia pelo Visconde do Rio Vermelho. Era Nossa Senhora da Piedade, a protetora dos pescadores, marisqueiras e de toda a população pobre da ilha. Estes a veneravam em todos os momentos: Antes de ir pescar, quando os filhos nasciam, na hora da morte, os nativos sempre pediam socorro à santa. Contam os mais entusiasmados, o que naturalmente se tomou uma lenda itaparicana: Nossa Senhora, em pessoa, lutou contra os portugueses em defesa do povo da Ilha. Alguns chegam a afirmar ter acontecido a intervenção divina no processo de Independência, porque no ano de 1823 viram uma mulher que, ao levantar os braços, fazia as balas de canhão cairem ao mar sem alcançar terra firme. “Os nativos juram que não sabiam de quem se tratava até que, ao fim do dia, deram-se conta de que o Oratório de Nossa Senhora da Piedade estava aberto e a imagem estava suja com a areia da praia”, afirma Augusto Albuquerque. Lendas ou não, quando o visconde morreu, seus descendentes quiseram retirar a imagem do nicho na pedra, onde se encontrava por gerações e gerações. Quando a polícia foi cumprir as ordens de sequestro da santa, Maria Felipa e suas seguidoras se postaram diante da imagem, impedindo isto e faltou coragem aos militares para tirar Nossa Senhora da Piedade do seu lugar. Aliás, a santa ainda está no altar da capela construída em honra da padroeira...

    Relatam ainda: ela, Maria Felipa, costumava remar sua canoa onde ficava sabendo das novidades sobre a guerra, levando as informações de volta à resistência em Itaparica. Quanto ao seu rosto desconhecido, numa tentativa de reconstitui-lo, a artística plástica Filomena Orge o fez a partir de memórias narradas, citações literárias e arqueologia.

  CONCLUSÃO

Maria Felipa por Filomena Orge
      O atestado de óbito de Maria Felipa é datado de 04 de janeiro de 1873,49 anos após o seu primeiro feito heroico: o incêndio da canhoneira Dez de Fevereiro, em 01.10.1822... Esquecida por todos e, de maneira especial, pelas autoridades, ela voltou à vida simples de catadora de mariscos, após a luta da Independência, até morrer. Assim, foi para o anonimato após todos os seus atos de heroísmo, a ponto de se pensar que ela havia falecido na guerra. Mas, a mulher simples, negra e pobre sobreviveu às batalhas e, tempos depois, teve uma filha, também chamada Maria Felipa, que era parteira e tornou-se avó de dona Zizi, a quem nos referimos no começo da narrativa. O ano exato e as circunstâncias do seu nascimento continuam um mistério. Ninguém sabe se foi uma negra alforriada, uma escrava ou se nasceu livre. Para o povo itaparicano ela nasceu, provavelmente, livre. Isto se supõe pelo fato de ter se oferecido como voluntária para espionar as tropas portuguesas e por sua atuação na resistência e luta pela liberdade da Pátria... De toda maneira, ela foi uma das grandes responsáveis pela Independência do Brasil na Bahia!

 Transcrito da Rev. IHGFS -E de Santana-N. 16                                                                                                                                                                                                                    


quinta-feira, 6 de outubro de 2022

MARIA FELIPA

EDUARDO KRUSCHEWKY

UMA MULHER, UMA SAGA E A FALTA DE
RESGATE DA NOSSA HISTÓRIA.


        Confesso sem pejo que fui um menino “malino” (adjetivo que os mais antigos usavam para qualificar o menino endiabrado, impossível de ser domado), era um “menino que tinha outro por dentro” devido a enorme excitação que me assaltava todas as vezes que via algo que me despertava a curiosidade. Hoje compreendo o porquê disto e agradeço a Deus esta inquietude infantil. Isto me fez procurar acumular um cabedal que dinheiro nenhum compra: o Saber. Se O Supremo Arquiteto do Universo não me deu bens materiais, mas dotou-me de uma fome insaciável de aprender mais e mais. Para mim, o importante não é apenas “conhecer”, mas “saber”. Pois bem...
        Ouvia falar de uma figura histórica fascinante, mas pouco conhecida, as referências eram de que ela houvesse sido uma mera coadjuvante na Independência na Bahia e do Brasil: Maria Felipa de Oliveira. Sempre que lia algo sobre ela, via nas entrelinhas que a História não lhe fazia justiça. Mesmo tendo sua saga contada de geração a geração pelos habitantes de Itaparica, ela era, apenas, uma mulher tida como bandoleira e prostituta por alguns e alijada por ser negra, do sexo feminino, semianalfabeta e pobre. Se por um lado, a população da Ilha se enchia de orgulho por conhecê-la de perto, por outro havia o medo de represálias, o preconceito, a ponto de Dona Zizi, nativa da Ilha de Itaparica e uma das suas bisnetas, acreditar que seria presa se contasse a estranhos as façanhas de sua antepassada...

UM POUCO DA HISTÓRIA DE MARIA FELIPA

        A diáspora que cercava Maria Felipa começou a ser desfeita e sua história tomar forma a partir de 2002, quando pesquisadores (professores e alunos) das Faculdades Integradas Olga Metting, de Salvador-Bahia, com a parceria de entidades como EWG; SEBRAE; CDL; Hotel Nativos-Aratuba e COMAB, passaram a pesquisar in loco a vida da personagem, num trabalho de reconstituição histórica em 32 comunidades da Ilha de Vera Cruz, apoiado pela prefeitura local de Itaparica-Bahia. Este grupo garimpou documentos raros, encontrados em arquivos dentro e fora da Ilha e fez surgir, embora ainda cercada de mistérios e lendas, a história de uma verdadeira heroína que parecia condenada a ser uma “vaga lembrança”.
        Diziam os mais antigos que Maria Felipa era uma bela mulher! Nascida na Ilha de Itaparica, muito atraente e, além do elegante porte físico, era conhecida como valente, possuindo habilidades de capoeirista, o que muito a ajudou a luta corpo a corpo com os portugueses. Costumava se apresentar na linha de frente das lutas com as saias amarradas nas pernas, o que lhe facilitava os movimentos nos passos da capoeira. Os portugueses ficavam surpresos com a agilidade dela e de outras mulheres e isso facilitava a fácil vitória dos nativos. Descendente de africanos sudaneses, vivia da comercialização de mariscos, embora alguns lhe acusem de ser prostituta. Tinha, então, na época da Guerra pela Independência da Bahia, segundo se presume, a idade de 22/23 anos. Esta mulher simples, sempre de saias rodadas, torso sobre a cabeça, vestindo bata e calçando sandálias, ela figura entre os heróis da luta pela liberdade em nosso país, sendo considerada a “Matriarca da Independência de Itaparica”. 
Forte de São Lourenço.
 (acervo do autor)

        Estive na Ilha de Itaparica e, atraído pelo mistério que cerca a história de Felipa (ah, doce vontade de saber mais...), fui conhecer mais sobre esta formidável mulher, conversando com alguns nativos. Ali visitei, também, o Forte de São
Lourenço construído em 1631, por ocasião das invasões holandesas. No Forte, fomos ciceroneados por um guia que nos acrescentou um pouco mais da história da resistência do povo ilhéu e da importância estratégica da Ilha em relação à capital do Estado, o que justificara a construção do forte. Em 1647, a fortificação foi ocupada pelos neerlandeses, que fizeram dali uma base para ataques à capital baiana. Fustigados pelos portugueses, em 1648, não sem antes destruir as fortificações, os invasores holandeses se retiram para Recife. Só em 1711 é que o forte foi recuperado, por ordem do Vice-rei D. Pedro Antônio de Noronha Albuquerque e Souza, mas, depois de anos sem serventia, foi fechado na segunda parte do século XX. Finalmente, após permanecer 45 anos fechado, a prefeitura de Itaparica, reformou-o inteiramente e transformou-o num museu em homenagem à Independência da Bahia (embora ainda com acervo resumido e em fase de coleta de material, recomendo a visita).
        O forte está localizado na ponta da Baleia, extremo norte da Ilha de Itaparica, atual Praça Getúlio Vargas s/n. Ao chegarmos, vemos, à porta do forte, placa do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia em memória dos heróis da Independência da Bahia, além de um painel em azulejo, que reproduz trecho da obra de Ubaldo Osório.

MARIA FELIPA E SEUS FEITOS HERÓÍCOS

        Como todo brasileiro sabe, em 7 de setembro de 1822, o Imperador D. Pedro I proclamou a Independência do Brasil, mas, sem muito sucesso, pois havia três séculos de escravidão de africanos e o poder nas mãos de poucos. O ato de D. Pedro não foi aceito por algumas províncias comandadas por governadores portugueses com a sustentação de tropas. Dentre estas províncias, nossa Bahia. Para formação de um exército brasileiro, o imperador viu-se forçado a contratar líderes estrangeiros pois as tropas portuguesas recebiam ordens diretamente de Portugal. Além disso, havia a negativa de senhores de escravos em cedê-los para servir ao Brasil... A insatisfação aumentou e escravos fugiram, unindo-se a grupos formados por brancos, mulatos, índios, todos juntos em nascentes movimentos libertários, surgidos a partir de populares brasileiros, à margem da lei portuguesa.

(continua na próxima postagem)



 

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

A HISTÓRIA É CONSTITUÍDA DE FATOS, MITOS E LENDAS...

EDUARDO KRUSCHEWSKY
 

A observação nos ensina ser a História constituída de acontecimentos reais recheados de suposições, informações contraditórias e coisas do tipo “por ouvir contar”. Isto porque, a depender do autor, um fato, em suas minudências, sofre uma série de alterações. Muita coisa se perde e outras são adulteradas por falta de informação e registro. Saliente-se que não existiam em determinados períodos históricos a fotografia, os recursos de tecnologias, ou mesmo alguém que deixasse registrado em escrita o fato, passando este a ser contado de acordo com diversos pontos de vista. Antes de polemizar, precisamos esclarecer algumas coisas, pois os anos de vida e o mergulho em pesquisas já nos fizeram ver que, como diziam os mais antigos, “quem conta um conto, aumenta um ponto...” Assim, trazendo o assunto para o meio em que vivemos, apontamos alguns pontos polêmicos na História de Feira de Santana:

DATA COMEMORATIVA – DIA DA VILA OU DIA DA CIDADE? - Na sexta-feira, dia 18 de setembro de 2020, Feira de Santana completou 187 anos de emancipação. Aqui já encontramos um ponto de desencontro de opiniões do povo feirense:

Hoje em dia, considera-se o Decreto Imperial que torna Vila o arruado de Sant‘Anna da Feira. O local prosperava dentro da Fazenda de Santana dos Olhos D´Água e, em 1829, os moradores fizeram o pedido de elevação a Vila, desmembrando-se de Cachoeira. Este pedido foi encaminhado, em 13 de julho do mesmo ano, para o General José Egídio Gordilho de Barbuda, Presidente da Província da Bahia, para emissão de seu parecer.

O documento foi devolvido para o imperador D. Pedro I que, anos depois, em 13 de novembro de 1832, atendeu o pleito. Naquela época, as coisas aconteciam muito vagarosamente e mais um tempo decorreu: só dez meses depois, em 18 de setembro de 1833, é que, oficialmente, o Decreto foi cumprido. Mas, outros consideram que a data de comemoração do aniversário da cidade é 16 de junho, dia em que, através do Decreto Lei 1320, no ano de 1873, a vila tornou-se cidade com o nome de “Cidade Comercial de Feira de Santana”! Aí, fica a pergunta: Qual é data a ser seguida para comemoração?

A - O Decreto Imperial de 13 de novembro de 1832?

B - O cumprimento deste Decreto em 18 de setembro de 1833?

C - O Decreto Provincial de 16 de junho de 1873?

Sem querelas, perguntamos: Deve ser comemorado o Dia da Vila ou o Dia da Cidade? Geralmente, as cidades consideram o Dia da Cidade, data em que a Vila é elevada... Sabemos que Feira  já celebrou o aniversário em junho. No ano de 2000, atendendo pedido de alguns intelectuais, a Câmara Municipal, mudou, “romanticamente”, a data para setembro. Em nossa opinião, a data correta seria junho. Até porque não se tem uma data exata em que a primeira povoação surgiu...

QUEM FOI O FUNDADOR DE FEIRA DE SANTANA?  – Ao que  se sabe, Feira nasceu bem antes do que alguns dizem. No século XVII, havia uma grande preocupação do governo de Portugal: A Colônia do Brasil, depois de passar pelo insucesso das Capitanias Hereditárias e da distribuição de terras no Governo Geral do Brasil, por Tomé de Souza, em 1548, iniciou o século seguinte com muitas terras devolutas dentro de latifúndios como as Casas da Torre, pertencente a Garcia D´Ávila e a Casa de Pedra, da família de Caramuru. Estas terras precisavam ser colonizadas para gerar imposto para a Coroa. Assim, em 1615, a Região dos Tocós, onde nasceu Feira, foi repassada para gente como o Juiz da Câmara de Salvador, João Lobo de Mesquita, Miguel Ferreira Feio e outros. Feio aqui esteve e desistiu da doação, devolvendo seu quinhão à Coroa. Este lote, uma das possessões foi, então, entregue ao comerciante português João Peixoto Viegas, como prêmio por este ter se tornado “cristão novo” (judeu convertido ao cristianismo). Ao conhecer o local, o português resolveu se estabelecer aqui e foi nomeado pela Igreja como “Familiar” (uma espécie de representante da Santa Inquisição) para a região. Posteriormente, o novo morador, após instalado na região de São José das Itapororocas, tratou de adquirir mais terras e comprou as que foram doadas ao Juiz João Lobo. Em breve, a sede do latifúndio   tornou-se  um ponto de pernoite de tropeiros e vaqueiros e, em pouco tempo, formou-se um arruado.

O proprietário foi conquistando novas terras e formou o “Morgado de São José das Itapororocas”. Com o falecimento do patriarca, a viúva voltou para Salvador deixando o patrimônio em poder dos filhos que o redistribuíram entre si, dando fim ao Morgado. A grande extensão de terras foi parcelada em diversas fazendas menores.

No que se refere à chegada de Veigas na região de Tocós, há uma versão publicada na Wikipédia, que afirma ter João Peixoto aqui desembarcado em 1640. Parece-nos uma afirmativa sem embasamento. O historiador Mons. Renato Andrade Galvão em seu trabalho “Os Povoadores da Região de Feira de Santana” cita uma Carta de concessão de quatro léguas em quadra na serra chamada Itapororocas no campo de Caxoeira” (sic) em favor de Miguel Ferreira Feio, em 1615, e outra, 1619, concessão em favor de João Peixoto Viegas. Esta versão de que Viegas aqui chegou em 1640 pode ser desmentida pelo fato de que Viegas solicitou e conseguiu uma documentação renovada, em 1655, alegando extravio durante a Invasão Holandesa que ocorreu a partir de 1624, na Bahia. Convenhamos que os holandeses permaneceram na Bahia no período de maio de 1624 a maio de 1625...

Já no século XVIII, cerca de sessenta anos depois da divisão de terras entre os herdeiros, atraído por informações de terras férteis e baratas na Região dos Tocós, um comerciante de Cachoeira, chamado Domingos Barbosa de Araújo veio conhecer a região e adquiriu uma área de terras de João Peixoto Viegas Neto. Aqui instalou a “Fazenda Santana dos Olhos D´Água”, onde passou a morar. Com a fartura de água, o imóvel, localizado no cruzamento de estradas de boiada, virou pouso de viajantes, sendo feitos grandes currais para abrigar o gado que ali pernoitava. Sem filhos, o casal foi permitindo que algumas pessoas ali ficassem morando e comércios foram sendo abertos, criando-se uma grande feira que, naquela época, primeiras décadas de 1700, chegou a ter a frequência de cerca de 4.000 pessoas! Muito católicos, Domingos e Ana, no ano de 1732, doaram, na forma de usufruto, parte das terras (cem braças) para a Capela de Sant´Ana e São Domingos e, em 1735, o restante da fazenda, formando-se o “Encapelado de Sant´Ana dos Olhos D´Água”. O falecimento do casal causou uma grande polêmica já que a doação foi apenas apalavrada e quando os religiosos quiseram tomar posse do patrimônio, cumprido o usufruto, foram impedidos pelo Estado. A querela durou um século e somente, em 1848, por sentença judicial, é que tudo passou para a propriedade da União. Novas perguntas: Quem foi o fundador de Feira de Santana? Viegas, que fez surgir a Vila de São José, primeiro sinal de vida do Munícipio de Feira de Santana? Ou Domingos Barbosa de Araújo que cerca de um século depois adquiriu uma fazenda oriunda do Morgado de São José, surgindo a sede do município? Ou podemos dizer que João Peixoto é o precursor do Município e Domingos Barbosa o da Cidade?

O CASARÃO DOS OLHOS D´ÁGUA FOI MORADA DE DOMINGOS E ANA?

Agora, com a instalação da Casa da Cultura no Casarão, acende- se, mais uma vez, uma antiga polêmica. Alguns afirmam, “de mãos juntas” que o imóvel era de propriedade do casal Domingos Barbosa de Araújo e Ana Brandoa (Brandão). Mas, existem aqueles, como eu, que discordam. Em 2006, através do Fazcultura, o casarão foi reformado pela Prefeitura Municipal, a pedido da Fundação da família Pedra e recentemente, quando de uma segunda  reforma, novamente pelo Munícipio, foi assinado um Contrato de Comodato pelo prazo de 20 anos. Segundo historiadores, a sede da Fazenda Santana dos Olhos D´Água ficava nas proximidades do Polo Comercial conhecido como Feiraguai e a Capela de Sant´Ana e São Domingos, construída pelo casal, deu origem à atual Igreja Matriz da cidade. Além do mais, próximo da Capela, existia uma casa (Rua Araujo Pinho) que alguns, como o jornalista Hélder Alencar em seu Guia Turístico, de 1965, asseguram ter sido a moradia do casal... Como uma área de terras, objeto de uma querela Estado-Clero e que, cerca de um século depois da morte de seus proprietários, passou para o domínio da União (em 1848), poderia pertencer a esta família? Não seria estranho este imóvel ter ficado em mãos de particulares até o século XXI? Sobre o assunto, recomendamos a leitura do artigo “O Casarão dos Olhos D´Água”, do arqueólogo Vitor Batista dos Santos. O casarão, abandonado, estaria ainda em pé? Não há dúvidas de que o imóvel é uma testemunha de uma época, sem perder seu valor histórico... Convenhamos que a cidade cresceu tanto que algumas áreas rurais se tornaram urbanas, caso da fazenda que pertencia à família Pedra e propriedades outras, como a Mochila. Portanto, diríamos que o Casarão dos Olhos D´Água, sem ter pertencido a Domingos e Ana, é uma parte da Memória Feirense...

sábado, 5 de fevereiro de 2022

JULIA ROBERTS

EDUARDO KRUSCHEWKY

Fazer o quê? Era quase impossível lutar contra a sensação de derrota, de desamparo. De concreto, daquela mulher tão amada restara a fotografia, teimosamente permanente em seu porta - cédulas e tantas vezes beijada nos momentos de solidão, embora ela houvesse sido tão real, tão presente em sua vida... Já haviam sido decorridos seis longos meses,   debatendo-se contra as lembranças, precisando de isolamento, de se tornar ilha. Ao vê-la de novo amor concluiu que o melhor remédio para dor de cotovelo era cair nos braços de uma nova mulher. Precisava fazer isto, o amor próprio ferido, não podia continuar só. Decidiu procurar alguém que lhe completasse, sem sucesso. Não tinha coragem e nem era mais nenhum garoto para sair por aí fazendo suspirar corações femininos! Assim, ficou retraído, quase não comparecia a algum evento ou festa. Sua rotina era de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Via tudo no horário nobre da TV, desligava o aparelho e tentava dormir. Virava de um lado para o outro na cama, pensando em Monica, sem conseguir dormir, a ausência da amada a lhe torturar. A frustração, o sentimento de perda, fez com que evitasse companhias. Insone, costumava sair de carro, passeando na noite, por vezes parando em trailer de lanches ou simplesmente rodando sem destino pela cidade.

Numa dessas madrugadas, viu Julia. Ficou vivamente impressionado: elegantemente vestido, ali estava um ser macérrimo, quase diáfano, profundamente pálido, pele leitosa, unhas longas, cabeleira esvoaçante, chamando a atenção de quantos passavam por aquela figura. A partir daquele momento, Julia não mais lhe saiu da cabeça e sempre que possível passava pelo local apenas para visualizar aquela silhueta esquia que tanto o fascinava... Travou um conflito íntimo quando descobriu, pelo noticiário, que aquele lugar onde ficava sua musa era um ponto de travestis. Lutou contra o desejo que sentia por aquele ser tão belo, mas inutilmente. Curioso, fez pesquisas e descobriu a identidade real do seu objeto de desejo: José, maquiador em um dos salões chiques da cidade, conhecido no mettier como Julia Roberts. Em choque, disse a si mesmo que aquilo era um absurdo. Onde já viu? Logo ele, ficar invocado com um baitola, um “traveco”?! Era inevitável! Havia ocorrido uma mudança em seu íntimo: de tanto imaginar um romance com a Julia, um dia abriu o porta - cédulas e viu a foto de uma mulher estranha. Não mais aquela que amara durante dez anos de sua vida e que lhe magoara tanto com a separação. Monica Mercedes Pizantino transformara-se num ponto obscuro de sua história de vida, passara, era uma página virada. Há dias em que nem se lembrava dela e agora saía para as madrugadas por motivos outros nos quais ela não estava incluída. Só enxergava o travesti, perdidamente impressionado pela figura impar.

Mas, algo atrapalhava a sua aproximação: a ambiguidade daquela pessoa, de dia, de roupas masculinas e á noite, rodando a bolsinha na esquina do prédio da Tv, uma perfeita e linda mulher. De maneira masoquista, sofria com o fato e, ao mesmo tempo, deixava-se enredar nos mistérios daquele que julgava hermafrodito ou, na pior das hipóteses, uma quase mulher. Disposto a acabar com aquilo, tomou coragem e aproximou o automóvel, buzinando para ela. Equilibrando-se em saltos Luiz XV, Julia aproximou-se, sedutora:

- Oi, meu bem! E aí, gato?

- Tudo bem. Vamos dar um rolé?

Foram. Ele, vítima de um ataque de timidez repentino, tremia e calava. Ele-ela, numa intimidade imediata, colocou a mão de unhas postiças espalmada na perna do moço e demonstrou estar bem à vontade. Depois, jogou os cabelos para trás, num movimento rotativo de cabeça, abriu a bolsa e apanhou um maço de cigarros e um isqueiro metálico, tipo Zippo. Deu uma baforada, lentamente, fechando a tampa do isqueiro. O barulho metálico assustou o motorista.

- O que foi, meu bem? Por que está tão nervoso? Como é seu nome, tesão?

- Ge... Ge... Geraldo – conseguiu dizer, engolindo em seco – e como é o... O... O seu?

- Depende. Mas pode me chamar de Julia Roberts. Você lembra daquele filme “Uma linda Mulher”? Quem sabe você não é Richard Gere da minha vida?

Riu amarelo, lisonjeado e mais solto. Estendeu a mão e alisou, com ternura, o cabelo ruivo do homossexual. Sentindo que tinha boa receptividade, a figura dúbia dobrou a cabeça e recostou-se no ombro do motorista. Este olhou de soslaio e considerou que ela era muito linda, muito delicada, muito perfumada e muito muita coisa... Perguntou, temendo ser precipitado, se ela tinha preferência por algum lugar. Dengosa, respondeu que com ele ia para o fim do mundo. Ela passou a percorrer seu corpo em ardentes carícias, ele quase não conseguindo dirigir, assediado por uma Julia cada vez mais ousada, boca nervosa e frenética. Parou na portaria do motel mais próximo, pediu a melhor suíte. Recebeu a chave e guiou até a garagem do apartamento. Quando saltava, o celular tocou. Julia ficou ali, discreta. Entrou no quarto, cheia de doces olhares e promessas, permitindo que atendesse a ligação. Ele abriu o flap do aparelho e atendeu:

- Alô? Pois não...

- Geraldo, preciso falar com você...- gelou quando reconheceu a voz embargada da ex-companheira que, sem lhe permitir nenhuma resposta, foi dizendo atropelando as palavras:

- Olha, meu amor, me perdoa. Tentei lutar contra o meu sentimento de culpa, eu não devia ter dado uma burrada daquelas, trocar você pelo ordinário do Donato. Nossa separação não pode ser definitiva. Eu amo você... Eu amo você... Por favor, por favor, me perdoa... Se você não me quiser mais, vou fazer uma besteira! Venha me ver, querido! Já tomei meia garrafa de uísque para ter coragem de lhe pedir perdão! Venha, Geraldo, venha... Meu corpo precisa do seu, meu gostoso... – e desligou, de repente, atropelada pelos próprios soluços, deixando-o estupefato. Geraldo entrou no apartamento sentindo o programa quase perdido. Diabo! A Monica tinha que dar as caras logo agora quando ele começava um novo relacionamento? Do banheiro vinha uma voz em falsete, alternando-se com alguns graves. Sentou-se à beira da cama, abriu o frigobar, pegou uma miniatura de uísque, derramou o conteúdo num copo com gelo e completou a mistura com clube soda. Ligou a televisão, surgindo na tela uma cena de sexo. Olhou com desdém e desligou. Ficou em silêncio, a mente trabalhando febrilmente, ouvindo o jato de água do chuveiro e aquela voz em falsete cantando uma música desconhecida para ele. Encostado na cabeceira da cama redonda, sorvia a bebida que preparara e Monica não lhe saia da cabeça, trazendo uma confusão terrível: Ela estava pensando o quê? Então terminava dez anos de romance sem mais nem menos, pondo-lhe um belo par de chifres, e agora achava que ele ia cair de joelhos? Que nada! Podia ficar iludida! Ele já tinha um novo caso, acabara de fazer uma conquista, começava a se envolver com uma figura nota dez! Mas... Diabo! Dez anos não são dez dias e Monica lhe pareceu tão desamparada... Ela bem que merecia uma lição, mas aquele apelo fora muito forte, espicaçara sua masculinidade: “Venha, Geraldo, venha... Meu corpo precisa do seu, meu gostoso...” Coitada! Tão desamparada e chorando tanto! Deus do Céu, e se ela tentasse o suicídio caso ele não atendesse ao apelo? Mulher desesperada faz cada besteira... Que droga! – pensou.  - Ter que ir ao enterro de Monica, o povo pondo a culpa nele, o remorso roendo suas entranhas. Ficaria muito transtornado, a ponto de nem poder se olhar mais no espelho sem ali ver um pústula. E a certeza de que se tornara um assassino? Ah, precisava tomar uma decisão e que fosse definitiva, sem arrependimentos posteriores.

Tão absorto e desorientado estava que nem percebeu a água do chuveiro ser interrompida. Tomou um susto quando a porta do banheiro foi aberta e no umbral surgiu algo jamais imaginado por ele: Deixando escorregar a toalha de banho, sem a maquiagem que a tornava tão linda, ali estava um ridículo arremedo de Julia, a Roberts...

Nua, afetada, como todos os atributos físicos de um José, a caricata personagem postou-se de braços abertos e suspensos, as munhecas quebradas, joelho direito para frente, inclinou a cabeça, revirou os olhos e bradou: “-A... rra... sei, meu gato! Sou uma quase perfeita mulher!”

Surpreso, Geraldo vendo as protuberâncias masculinas do parceiro, arregalou os olhos e levantou-se da cama, de chofre, desviando-se daqueles braços que queriam abraçá-lo. Sem saber o que fazer. Entrou correndo no banheiro, colocou o copo na pia, trancando a porta por dentro. Levantou a tampa do vaso, ajoelhou-se e, para não sujar o chão, enfiou a cabeça na cloaca, vomitando... Depois, abriu a torneira, tossindo e cuspindo. Colocou água na boca, fez bocejo para limpá-la, ao tempo em que lavava a face. Olhou no espelho e viu, com tristeza, uma cara amassada, confusa. Tentou acalmar-se, bebeu um gole grande do uísque. Sentou no vaso sanitário, levou as duas mãos à testa, a mente a mil, o coração disparado, atarantado.

Alguns instantes depois, mais calmo, com as emoções sob controle, respirou fundo. Convicto da decisão que tomara, saiu do banheiro.

Julia estava deitada na cama redonda, olhando para o teto espelhado enquanto, lasciva, acariciava o próprio corpo. Geraldo apagou a luz e vencido, libertando-se do turbilhão contraditório de sentimentos contraditórios, arrancou apressada e nervosamente a roupa.

Suspirando, caiu nos braços de Julia Roberts, seu novo e definitivo amor...    


 

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

UM LENÇO GUARDA RECORDAÇÕES

EDUARDO KRUSCHEWKY

(In memória Irma Amorim)

    De repente, sentiu necessidade de abrir aquele velho guarda-roupas, prisão de lembranças, agora esquecido no quarto dos fundos da casa. Precisa encontrar um documento antigo, que só podia estar ali, faria prova curricular na escola de música. É que, à falta do que fazer, resolvera voltar a tocar piano. Fora pianista amadora, seus dedos percorreram teclados como o do majestoso piano de cauda, ainda na sala da casa. Este piano, agora inerte, servindo apenas de enfeite, era o orgulho da família. Nos saraus organizados por seus pais, ele era a principal atração. Naquela época, tudo era motivo de alegria.  Até a visita do vetusto afinador de pianos, um homem meio trôpego, sempre cheirando a bebida alcoólica, mas como se transformava quando sentado ao piano para a afinação! Suas mãos ágeis derramavam pela morada o néctar harmonioso de Bach, Bethoven, Litz...

    Nos dias de reuniões musicais, os convidados todos, meio apavonados, cheirando bem, sentavam-se em volta do piano: as senhoras em vestidos esvoaçantes e de finos tecidos, comprimidas em espartilhos, e os homens, empertigados em roupas de linho engomado, postavam-se em pé ou sentados, cuidadosamente, procurando manter o vinco das calças e evitando o amasso do tecido. Tudo num perfeito estilo rococó!

Abriu a porta do quarto e respirou um ar impregnado de aromas do passado, uma mistura de mofo com lavanda e amaciante. Na penumbra, enxergou a boneca de pano e  bambolê, juntos à bicicleta infantil. Aqueles brinquedos foram, um dia, de Juliana, sua filha – zum, zum! – passeando de bicicleta pelas calçadas do bairro e mostrando ser uma exímia equilibrista do bambolê, levando-o da cintura ao pé, do pé á cabeças, ao braço, para gáudio e aplausos de todos. Um dia – ah, menina sem juízo! -  Juju, mal completou a maioridade, fez a sua declaração de independência. Disse, sem demonstrar nenhum remorso: “-Mãe, vamos viajar, eu e meu namorado, para conhecer gente nova e lugares...”. De modo decidido, jogou a mochila nas costas e saiu porta afora, deixando ela, sua mãe, aos prantos. Nunca mais deu notícias... “-Ah, Juliana, onde você anda, minha filha? Será que está girando o mundo como girava seu bambolê?” – pensou, com um travo de tristeza na garganta e uma lágrima furtiva no rosto... 

Quando escancarou as portas do móvel, foi como se fenestrasse os umbrais da alma, a história de sua vida. Lá estavam os guardados, relíquias de família, objetos de estima dos seus pais que teimou em preservar, porque continham histórias de vida contadas em coisas. Tudo bem arrumado, sem um grão de poeira, como se ali colocados recentemente, começou a retirar peça por peça para procurar o que queria.

Escorregando do meio das toalhas de tecedura artesanal que sua mãe bordara, com carinho, algo caiu no chão indo parar em baixo do guarda-roupas. Tentou ver o que caíra, mas inutilmente. Tomada pela catarata, sua visão era ruim embora ainda fosse dia. Contraiu os olhos, na tentativa de melhorar a visão, os óculos de grossas lentes ausentes, esquecidos em cima da cômoda da sala. Acendeu a lâmpada do quarto, ajoelhou-se com dificuldade e tateou por baixo do móvel, sujando-se de poeira e teias de aranha, até que sentiu os dedos tocarem em algo macio. Com cuidado, pegou a peça, evitando que se sujasse em contato com a poeira acumulada. Trouxe-a para próximo da luz. Aproximando-a do rosto sentiu o odor e enxergou, com dificuldade, o formato gracioso do bordado. Algo fez com que disparasse o seu coração quando constatou: era ele, o lenço perfumado!

O lenço, o seu lenço! Ele que estivera durante anos em sua bolsa e com o qual enxugara suores nos dias quentes, limpara a boca tirando o excesso de batom e enxugara muitas lágrimas, como as derramadas quando viu o namorado de asa arriada pela oferecida da Marlene... O lenço que encharcava de perfume e quem quando abria a bolsa, inebriava o ambiente com seu olor único e irresistível! O lenço amarelecido pelo tempo, mas que lhe parecia tão novo pela redescoberta... Nem fazia ideia de que ele estivera ali tão perto, durante tanto tempo, ao alcance da mão,  bastando abrir uma porta de guarda-roupas. Curiosamente, há pouco, o belo adereço era apenas mais uma lembrança, algo que guardara esquecido durante tempos... Lembrou-se dos versos da poetisa Irma Amorim, sua amiga, que Deus levara para junto de si:

“ Há de se deixar espaço

- luzes, tochas acesas,

Cortinas rendadas,

Tapetes,

Jarro com flores,

- lenço perfumado –

E  amores. (...)”

Irma Caribé Amorim
Aproximou, mais uma vez, a delicada peça das narinas e aspirou tentando recuperar, através das muitas fragrâncias que por ali passaram, seu passado tão bonito, sua juventude feliz e despreocupada. Sentada no chão, os olhos rútilos de lágrimas fixos na urdidura do pequeno lenço de cambraia bordada, nem percebe que as recordações, as mais gostosas recordações, começaram a ocupar cada um dos espaços livres do velho quarto de guardados.

Envolvida nas dobras do tempo, com o olhar perdido, um sorriso brincando nos lábios, recupera a vaidade feminina que o lenço lhe devolvera. Tenta ajeitar-se, passando as mãos nos cabelos, enxugando as lágrimas. Como num passe de mágica, o poeirento cubículo transmuda-se em salão de baile e, desembarcando da carruagem do tempo, a mulher madura, levantando-se do chão com a dificuldade que os anos lhe legara e se ver no espelho da alma como adolescente Cinderela calçando imaginários sapatinhos de cristal.

Nos braços de um príncipe encantado, sai rodopiando pelo salão, sentindo-se invejada por todas as outras mulheres...

Ah, que maravilha, o lenço! 



 

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

A INTRUSA

EDUARDO KRUSCHEWKY  

Tudo começou numa noite em que acordou assustado, sentindo a sensação de cócegas no peito. Levantou-se, foi à cozinha, abriu a torneira do filtro, encheu o copo com água, bebendo em seguida. Pareceu-lhe que dezenas de pezinhos ou patinhas percorriam, velozmente, seu corpo como que fugindo da água. O fato estranho deixou-o nervoso, impaciente.  Com muita agilidade, parecia que um ser afobado, vivo, nitidamente caminhasse pelo seu corpo, indo do coração ao fígado, do estomago para a garganta. Era um desconforto que não sabia descrever... Nervoso, passou a tossir, mas a sensação continuava:  um bichinho em fuga por dentro do seu corpo, dando-lhe comichões.  Sem poder coçar, já que aquilo acontecia internamente, passou a esmurrar o peito, sem resultado...

Vendo que não resolvia o problema, sentou-se num banquinho junto à mesa da cozinha, numa irrequieta quietude. Daí a pouco, sentiu que a movimentação parara e, cansado, dormiu ali mesmo, a cabeça reclinada entre os braços em cima da mesa, com receio de que o corpo estranho se assustasse e entrasse em movimento...

No outro dia, bem cedinho, fez a primeira visita ao médico:

- Doutor, tem um bicho dentro de mim fazendo o maior carnaval. Pelo amor de Deus, isso tá me dando uma terrível agonia! Dá um jeito, doutor, de tirar a coisa de dentro de mim. Já não aguento mais...

O médico, surpreso com o inusitado, colocou o estetoscópio nos ouvidos e passou-o por todo o corpo do angustiado cliente, tentando ouvir algo de anormal, tudo aparentemente   normal. Com um sorriso meio maroto nos lábios, sem levar a coisa muito a sério, disse ao paciente que aquilo era uma autossugestão ou, na pior das hipóteses, uma distensão natural de músculos num momento de repouso. O homem, meio sem se convencer, aceitou a ponderação do médico e, sentindo a necessidade de acreditar, tentou esquecer o episódio, aquilo não era nada de grave, onde já se viu alguma coisa caminhar acima e abaixo no corpo de alguém?

À noite, tentava dormir quando percebeu, com clareza, que algo com muitas patas andava dentro de si! Com os pés descalços, levantou da cama e passou a andar pela casa, impaciente. De repente, deu um espirro e, de imediato, de dentro de si, garganta acima, chegou às suas narinas um cheiro forte de... barata! Teve, então, a certeza de que uma nojenta e miserável de uma barata habitava nele! O pior era que a desgraçada se movimentava com desenvoltura, cada vez mais íntima do seu corpo: passava por trás dos olhos, por cima do fígado, provocando cócegas. Fizera do seu estômago uma piscina onde mergulhava à vontade, sem cerimônia e, naturalmente, sem pedir licença...

Ficaram cada vez mais frequentes, as consultas. Sem saber mais que exame fazer para detectar o que incomodava tanto o paciente, o médico já o recebia de má vontade. Radiografias, ultrassonografias, tomografias  foram feitas sem resultado prático. Com certeza, aquele era um nosomaníaco, via doenças onde elas não estavam.

O homem, por sua vez, de tanto falar da sua hóspede ganhou o apelido de “Baratão” e ouvia, com frequência, piadinhas tipo “Cara, te acho o maior barato!”. Por causa do seu problema, ninguém mais o levava a sério. Até mesmo dentro de casa quando, na madrugada, levantava várias vezes tentando minimizar o incômodo, ouvia a mulher pigarrear, impaciente e dizer:

“-Vê se você tem paz e dá paz aos outros, homem...  Como se não bastassem seus roncos e suas fraudulências, você ainda inventa esta merda desta barata, acendendo a luz toda hora... Que inferno!” - e ficava revirando-se na cama, irritada, sem conseguir dormir. Ninguém acreditava nele e, lá dentro, o inseto, cada vez mais ambientado, movia-se rapidamente.

Uma tarde, caminhava no centro da cidade, quando, esbaforido, resolveu atravessar a rua, sem usar faixa de segurança ou aguardar o sinal fechar. No meio da travessia, sentiu algo parecendo morder, gulosamente, seu coração. Assustado, parou de andar e levou a mão ao peito. Perdeu o equilíbrio e caiu no meio do asfalto, sendo atropelado por um carro dirigido por alguém que tinha pressa. Teve morte instantânea...

No velório, realizado numa das salas de uma funerária, todos comentavam sobre a causa da morte, o aparente problema psicológico que acometera o defunto. À noite, paulatinamente, os grupos se formavam em torno dos bules de cafezinhos, as madames reunidas, sentadas nos bancos do lado de fora da sala, “tricotando” a vida alheia, ficando o defunto sozinho.

Na solidão da noite, o inseto, estranhando a esquecida inatividade do corpo que habitava, instintivamente sentiu que algo de errado acontecia.  Resolveu explorar  o mundo exterior, emergindo do seu habitat. Aflorou pelo nariz do morto e foi explorar o ambiente. Viu uma única pessoa na sala do esquife. Era uma serviçal da funerária. A moça, de imediato, percebeu o pequeno inseto andando por cima das flores que ornavam o peito do cadáver. Largou a bandeja, pegou a sandália, mas a barata foi mais rápida: saiu voando para o velório vizinho, escapando da agressão.

Ao penetrar no cômodo, o bichinho viu uma velha, rosto virado para cima, a boca escancarada, roncando alto, num canto da sala onde estava um esquife. Espavorida, em fuga, a barata procurou proteção na boca enrugada, momentos antes da serviçal chegar ao ambiente e encontrar uma velha que tossia muito, tentando escarrar, a mão na garganta. Sem desconfiar do destino do bichinho, deixando de lado a perseguição, a mulher socorreu a anciã que alegava ter engasgada com a própria saliva. Após acalmar a mulher, foi buscar água para que esta tomasse e, ato contínuo, após uma rápida busca no ambiente, saiu à procura do inseto. A velha ficou sozinha, pigarreando e sentindo cócegas no peito. Bêbada de sono, porém, voltou a dormitar um sono intranquilo.

Lá dentro do velho corpo, o inseto que sempre abandonava a moradia quando sentia falta de agitação e sons, sentiu-se em segurança. Embora estranhando os movimentos mais lentos de agora, à vontade e levantando uma das múltiplas patas, cofiou as antenas. Daí a pouco, já ambientada com os novos sons e pulsações, resolveu entrar em movimento. De maneira sorrateira e desconfiada, começou a movimentava-se com alguma desenvoltura. Cada vez mais íntima do novo corpo, era hora de explorar o novo habitat...


Filme do Santanopolis dos anos 60