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quinta-feira, 25 de agosto de 2022

TÓPOS E KRONOS - IX

RONALDO SENNA – Mestre, Doutor, Antropólogo, escritor, professor aposentado: Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Universidade Católica de Salvador (UCSAL).

TÓPOS E KRONOS - VIII
 

O SIMPLES E O COMPLEXO

Fatalmente, sociedades

humanas, Interagindo com 

        oscilações, Constroem, nas     

        bordas tiranas, Nichos de 

        muitas razões.


         A princípio tudo parece Tão 

simples de compreender: Mas 

        é que a teia só tece O que lhe 

        foi dado a tecer.


        A malha da nossa vida Frágil,

incompleta, ferida,

        Vê-se, aos poucos, se esgarçar

        Sem poder sobre o destino

Remete tudo ao divino 

        Tentando se equilibrar.


    ÉTICA E ESTÉTICA: DUAS FORMAS DE SE VIVER O CONTÍNUO ESPAÇO- TEMPO

   Sabemos, desde as grandes constatações de Marx, que “não é a consciência que de­termina a vida, mas a vida que determina a consciência”. Só que, tanto a vida como a consciência se deslocam e se ressignificam, dentro de molduras previamente formadas e formatadas pela história, com o respaldo da geografia que produziu o ambiente (espaço físico) onde se instalou a coletividade huma­na (espaço social).

O tempo histórico e o espaço social con­solidam a dualidade onde as heranças que o ser humano (antropologicamente considera­do) exercitam as suas experiências. Viver é experimentar. sociais

        Mas, já que o primado da existência, muitas vezes, acopla-se em tentativas que podem vir a pressupor possibilidades para verificações, o simples ato de existir se verá, sempre, remetido à eterna busca das origens e de um conclusivo sentido subjetivo para a vida.

        Portanto, tanto as ilações morais como estéticas procuram, geralmente, equlibrar-se entre o o ético e o êmico que as histórias das suas respectivas sociedades e culturas conceberam para os mais determinados agrupamentos sociais.   

     

           

quarta-feira, 18 de maio de 2022

TÓPOS E KRONOS - VIII

RONALDO SENNA – Mestre, Doutor, Antropólogo, escritor, professor aposentado: Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Universidade Católica de Salvador (UCSAL).

TÓPOS E KRONOS - VII

A    REALIDADE PROJETADA


 Os fatos históricos acontecem Como ondas vindas do mar:

As circunstâncias que as tecem Raramente conseguiremos alcançar.

Deslocamos nosso tempo e espaço Para o que desejaríamos ver Mas, sem a dureza do aço,

Falham e devemos temer.

Quem hoje está no poder Vivendo todo o prazer Que essa realidade encerra,

Amanhã ou depois, poderá cair Esperando um dia reagir Enquanto sorve o pó da terra.


A REALIDADE RECONSTRUIDA

    Sabemos que toda cultura é projetiva. Já que nascemos, vivemos e morremos, todos os elementos que nos cercam devem seguir a mesma trajetória. Só que, para isso, temos que inverter a realidade, sem se prender o espaço no tempo.

O universo não está contido no tempo, é o tempo que está encerrado no universo. Logo, não é o tempo (incluindo todos os fa­tos e consequências) que delimita o espaço, é o espaço que fronteiriça o tempo. A du­alidade tempo-espaço caracteriza o nosso BRAHMAN e concebe o nosso ATMAN.

Em suma, o homem (um ente para a morte), é também um ser para a finitude adiada, um grão na poeira do tempo e um vazio no espaço. Convivendo com essas ca­tegorias e esses valores, elaboramos a cons­trução social no espaço, produzimos noções para o tempo e damos um sentido à vida. Surgem, assim, os perfis da existência.

Vários pensadores circunscrevem o ser humano (ente codificador e decodificador), afundando seu olhar para o herói endeusa do, para os senhores das guerras, para os desbravadores ou para o homem comum. Refletindo sobre constatações genéricas, mas que poderiam ser, por exemplo, o bicho da terra, tão pequeno , de Luiz Vaz de Ca¬mões, ou sobre o José, de Carlos Drummond de Andrade; José Ortega y Gasset, axiomaticamente, atesta estas duas comprovações básicas: primeiro, eu sou eu e minhas circunstâncias e segundo, o homem não tem natureza e sim história.

Na verdade, o homem tem, mas não é natureza. Substituiu o código genético pela diversidade das linguagens. Sabemos, portanto que o homem é homem, graças à linguagem, graças à metáfora que o fez ser outro e o separou do mundo natural. O homem é um ser que se criou a si mesmo ao criar a linguagem. Pela palavra, o homem é uma metáfora de si mesmo (PAZ, 1990, p.34).

Construindo os sentidos das linguagens, redimensiona as suas próprias complexidades e resinificai a direção das suas mais diversas mutações. "Embora seja possível dizer que o homem tem uma natureza, é mais significativo afirmar que o homem constrói sua própria natureza, ou, mais simplesmente, que o homem se produz a si mesmo" (BERGER, 2001, p. 72)

Já que o homem é produzido por si mesmo e, pelas mais diversas formas como se comunica, constrói a sua própria metáfora, podemos compreender que, tanto os seus negativos fracassos e como suas inclinações para viver as vitórias, são redimensionamentos delimitadores de suas próprias interpretações.

Sabemos que toda cultura é projetiva. Já que nascemos, vivemos e morremos, todos os elementos que nos cercam devem seguir a mesma trajetória. Só que, para isso, temos que inverter a realidade, sem se prender o espaço no tempo.

O universo não está contido no tempo, é o tempo que está encerrado no universo. Logo, não é o tempo (incluindo todos os fa­tos e consequências) que delimita o espaço, é o espaço que fronteiriça o tempo. A du­alidade tempo-espaço caracteriza o nosso BRAHMAN e concebe o nosso ATMAN.

Em suma, o homem (um ente para a morte), é também um ser para a finitude adiada, um grão na poeira do tempo e um vazio no espaço. Convivendo com essas ca­tegorias e esses valores, elaboramos a cons­trução social no espaço, produzimos noções para o tempo e damos um sentido à vida. Surgem, assim, os perfis da existência.

Vários pensadores circunscrevem o ser humano (ente codificador e decodificador), afundando seu olhar para o herói endeusa do, para os senhores das guerras, para os desbravadores ou para o homem comum. Refletindo sobre constatações genéricas, mas que poderiam ser, por exemplo, o bicho da terra, tão pequeno , de Luiz Vaz de Ca¬mões, ou sobre o José, de Carlos Drummond de Andrade; José Ortega y Gasset, axioma- ticamente, atesta estas duas comprovações básicas: primeiro, eu sou eu e minhas circunstâncias e segundo, o homem não tem natureza e sim história.

Na verdade, o homem tem, mas não é natureza. Substituiu o código genético pela diversidade das linguagens. Sabemos, portanto que o homem é homem, graças à linguagem, graças à metáfora que o fez ser outro e o separou do mundo natural. O homem é um ser que se criou a si mesmo ao criar a linguagem. Pela palavra, o homem é uma metáfora de si mesmo (PAZ, 1990, p.34).

Construindo os sentidos das linguagens, redimensiona as suas próprias complexidades e ressignifica a direção das suas mais diversas mutações. "Embora seja possível dizer que o homem tem uma natureza, é mais significativo afirmar que o homem constrói sua própria natureza, ou, mais simplesmente, que o homem se produz a si mesmo" (BERGER, 2001, p. 72)

Já que o homem é produzido por si mesmo e, pelas mais diversas formas como se comunica, constrói a sua própria metáfora, podemos compreender que, tanto os seus negativos fracassos e como suas inclinações para viver as vitórias, são redimensionamentos delimitadores de suas próprias interpretações.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

TÓPOS E KRONOS - VII

RONALDO SENNA – Mestre, Doutor, Antropólogo, escritor, professor aposentado: Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Universidade Católica de Salvador (UCSAL).

TÓPOS E KRONOS - VI


 


A ACOMODAÇÃO DAS CERTEZAS

O destino das certezas

E a sua substituição

Com arrogância, sutilezas,

Silêncio ou ostentação.


Pensamos que são equivocadas

 As previsões não acontecidas;

Apenas estão impossibilitadas

Pelas chegadas sem partidas.


E que sonhamos acordados,

Iludidos e enganados

Por nossa própria vaidade.


Mas, logo chega a vitória

Clara e imposta pela história

E sua intensa realidade.

FENÔMENOS E SEMELHANÇAS

E fato que as semelhanças (vistas como concretudes nas mentes que não conseguem separar o fenômeno da essência) ressigni- ficam o homem no mundo, que passa a se imaginar como ponta de lança das totalida­des, retrabalhando, assim, dogmas e outros fanatismos.

Quando o homem cria Deus à sua ima­gem e semelhança, cria o mundo dos deuses à imagem e semelhança do seu, que é real e suposto, subjetivo e introjetado. O distante e o invisível interiorizam-se em seu âmago. Assim, suas ânsias e tormentos mais íntimos se projetam nos quadrantes mais longínquos.

Torna-se compreensível, portanto, que se procure completar com o universo míti­co; que supra a sua carência com o outro mundo , o sobrenatural, o transcendente, o metafísico: que vá buscar no passado, con­siderando todas as reflexões que já fizemos sobre esta referência, os reflexos da sua an­gústia.

O mundo de hoje nega o de ontem, para poder crer em si mesmo como algo real, as­sim como nos mais diversos tipos de crise, vemos pessoas e grupos lançando-se ao pas-sado para inventar o presente insatisfatório. Nossa inquietude procura, nas raízes, os ele-mentos positivos e negativos, onde, muitas vezes se invertem.

Assim como os homens morrem e, ao passar pela morte,transformam-se em algo ou alguém diferente do que eram - para os seus contemporâneos ou para aqueles que ainda viriam - também os seus deuses ten¬dem a seguir a mesma trilha, na redefinição dos sentidos que as culturas subsequentes costumam imprimir aos fenômenos que sur-giram para satisfazer necessidades passadas.

A História, ao tratar das coisas que suce-deram , envolve-se com um passado das realizações do homem construído no corpo de um plano específico, que vai satisfazer certas necessidades físicas e sociais desse homem e, também, vai fazer a sua humani-dade ao projetar no espaço real de sua vida algumas de sua ambições, de suas esperanças, de suas utopias (Sousa, 1998:119).

Esboçando metas ambiciosas, delinean¬do formas de esperar e intentando atos e eventos utópicos, vai criando, imaginaria- mente, um fim a ser alcançado, cuja realiza¬ção se instala na consciência subjetiva onde estão esses fenômenos que sempre se mani¬festam fora de alcance.

Com isso, projetamos nossas preferências e a muito bem construída teia do ima¬ginário consideramos fato quando, na reali¬dade, não tem como passar de um conjetura. É que assim nos realizamos ante os nossos próprios referenciais. Claro, é bem mais agradável ver o oceano da história como um mar de almirante no lugar do que ele realmente é: ondas se deslocando em vários e desconcertantes disfarces e impulsionadas pelos processos.


quarta-feira, 24 de março de 2021

TÓPOS E KRONOS - VI

RONALDO SENNA – Mestre, Doutor, Antropólogo, escritor, professor aposentado: Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Universidade Católica de Salvador (UCSAL).
 

PASSADO E FUTURO SUSTENTÁCULOS DO PRESENTE


          Se futuro é passado avassalado

          E passado futuro renascido,

          O presente um pressuposto refreado

          Que formata o fenômeno acontecido

 

          E, assim, a trialidade

          Fronteiriza o pensamento,

          Nascendo o desejo e a vontade

          De viver cada momento.

 

          Por tudo isso, é imprescindível

          Crer no que é incrível.

          É consolidar rituais.

 

          Sem mito não existe história

          Sem rito não haverá memória

          Sem eles o sempre é jamais.

 

TRIALIDADE TEMPORAL: A SILHUETA DA ETERNIDADE

Instalar-se na trialidade do tempo ajuda o homem a se alojar no centro do mundo. Assim, quando coloca a sua reflexão na base do cosmos, põe, desta forma, a existência a seu serviço. Ideologias, crenças e cogitações, incrustam ordens, tanto objetivas quanto subjetivas, nas certezas e esperanças que violentam as dúvidas. É necessário, portanto, coordenar e regularizar os ditames na tentativa de perenizar as prescrições.

A ordenação contínua é tão necessária que as sociedades não tem feito muito mais que isso. A nível ideológico, nem parece que necessitam fazê-lo. Na verdade, sentem-se satisfeitas compreendendo o presente e o passado, não tendo muita importância, para o sentido da vida, se esse passado é uma concretude ou um dado por suposto. É real para aqueles que dele necessitam no ato de se firmar como um referencial na ordem da vida.

Apesar de tudo isso, de todo o esforço para a temporalizar o mito, o passado, no entanto, de certa forma, morreu. As faces do sido e do sendo se equilibram na elaboração do imaginário. O passado sido é o referencial da memória, o passado sendo é o presente anterior que convive com o cotidiano.

Torna-se imperativo, como consequência da interação entre esses planos, que o presente tenha que ser vivido, incluindo os elementos no passado que cruzaram com os umbrais da morte. O tempo e o espaço precisam ser reinventados. O presente é o passado recriado. 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

TÓPOS E KRONOS - V

RONALDO SENNA – Mestre, Doutor, Antropólogo, escritor, professor aposentado: Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Universidade Católica de Salvador (UCSAL).

 O CONTÍNUO ESPAÇO TEMPO CONTIDO NA DIMENSÃO HUMANA

 

O espaço-tempo da humanidade

Nas dimensões planetárias,

Embora de grande diversidade,

É irrelevância parasitária

 

Disso temos consciência

Por força de reflexão,

Conhecimento, fé, coerência

Sabedoria, equilíbrio e razão

 

Suposto dono do universo,

Constrói um destino perverso

Para si, os seus e o mundo.

 

Naõ podendo vencer o tempo,

Vira poeira ao vento

De todo acontecimento profundo


A LIMINARIDADE HUMANA E SUAS LIMITAÇÕES

 O contínuo tempo-espaço é envolvido por projetos, mitos e instalações que não podem negar, contudo, a situação sócio-cul­tural do homem como ser liminar. A existên­cia constatada acontece entre o nascimento e a morte, entre o surgir e o terminar. O alfa e ômega terminam por povoar, na consciên­cia, o fechamento de um círculo e o enlace basilar da eternidade.

Sendo finito e limitado, não pode - o homem - construir, para si, uma eternidade por inteiro. Pode, isto sim, perenizar-se, des­de quando o seu projeto vital lança-o para a frente, para o futuro, cuja finitude pode ser, no campo do imaginário, escoimada e adiada. A mortalidade inevitável do homem reflete-se, neste quadro, como o sujeito do existir. Os deuses são imortais porque o ho­mem é mortal. E, mais que isso, diferente dos outros seres vivos, sabe que vai trilhar essa fatalidade.

Só que esta mortalidade torna-se, du­rante a vida, existencialmente inaceitável.

Por esse motivo, procuramos, quase sempre, projetar a perpetuidade desejada em nossos filhos e obras. Não é por acaso que aquele que produz  livros, muitas vezes os chama de filhos e os escritores, criando as academias, intitulam-se imortais. Não basta sentir o passado, temos que alcançar o futuro.

Por força do que vimos como destino e por uma reflexão contida no processo, a re­alidade humana é um devir, um gigantesco e contínuo rito de espera. Isto leva a observar que a visão do homem se faz para a frente e, por isso, tempo e espaço a sua frente não acabam. No entanto, o mesmo não se dá com o passado.

Diferente do futuro, onde o ser final pode ser infinitamente projetado, o seu pas­sado necessita ter um marco, um início. A cosmogonia pode ser algo que não acabe, mas não pode ser uma manifestação que não comece.

A incessante e incansável busca das ori­gens é, em todas as culturas, o mito como narrativa desta génese que só existe para tentar explicar o mundo e compreender a vida, dando a eles um sentido coerente fren te ao absurdo da morte.E a morte só deixa de ser absurda quando prolongamos a vida além de um final físico, quando a vida nega a morte, ou seja, temos de matar a morte para viver a vida.

Este ato de desnaturalização da morte (a idealização da vida) é, tudo indica, ge-nialmente construído de forma sistemática e dialética. Sistemática porque esta atitu¬de, além de conceber e formatar diferentes planos de lucidez, também hierarquiza as convicções e envolvimentos. Dialéticas e reflexivas porque esses estados e hierarquias podem, ao sabor das circunstâncias, flutuar, entre as alternâncias, alteridades e ambivalências.

O aparelhamento do espírito, a partir das possibilidades emanadas do meio circundante, instala-se nas realidades descorbertas ou inventadas ao sabor dos acontencimentos, determinado, assim, o surgimento da certeza e a angústia das dúvidas.


terça-feira, 27 de outubro de 2020

A HISTÓRIA SIMULTANEAMENTE DESDOBRADA, CÍCLICA E TRANCENDENTAL

RONALDO SENNA – Mestre, Doutor, Antropólogo, escritor, professor aposentado: Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Universidade Católica de Salvador (UCSAL).

 


Seria gratificante o acontecer,

Sentindo a delícia novamente,

Escoimado de todo o prazer

O que a ele nãoi faz referente.

 

Pensado nos atos e eventos

Selecionamos as alternativas,

Escolhendo, sempre, os ventos

Que nos levam a outrasd vidas.

 

Só que elas não são reais:

Apenas iludem os mortais

Fazendo o homem mais atávico.

 

Sabemos que transcender é bonito

Fértil, rico, completo, infinito

Mas reduz ao fantástico.

O SIDO E O SENDO

Como não podemos nos deslocar até o sido, torna-se necessário que o transforme­mos, existencialmente, em sendo, permitin­do que o humano (que é histórico) se reduza à natureza (que é cíclica). Como não pode­mos, concretamente, compor a nossa vida, aqui e agora, com muitas existências, estru­turamos a nossa existência em muitas vidas.

Os papéis e funções (vistas como o con­junto de papéis) com os quais balizamos o nosso estar no mundo, não bastam para satisfazer todos os componentes do nosso permanecer, não bastam para realizar todos os componentes do nosso projeto vital. A cultura (considerada como património sim­bólico) remete os seus referenciais por ou­tras esferas e outros planos, em reciclagens constantes, além de um necessário e eficaz exercício do imaginário.

E assim visitamos a nós mesmos em cada raio da roda viva que tornam mais abran­gentes as nossas convivências. Quebramos as fronteiras do espaço, anulamos as limita­ções do tempo e tornamos improcedentes os mapas das sociedades e das culturas. Sim, o contínuo espaço-tempo estrutura o substrato da dimensão da poesia.

Tanto o espaço que mal será preenchido, quanto o tempo que não poderá ser alcançado (religiosos, mágicos, ritos de espera e de passagem), tornam-se elementos dessa dimensão. Como exemplo: a saga da conquista do mar oceano (que significa sem fim, logo, não poderá ser dominado por inteiro) proporcionando ao genial poeta maior Fernando Pessoa, em seu poema intitulado Li-berdade, vaticinar que, "quando é melhor, quando há bruma, esperar por Dom Sebastião, quer venha ou não". Ou seja, não se espera alcançar, mas realizar-se no ato de esperar.

O nosso destino não será apenas devir. O ser, assim pensado, não se instalará apenas, em um projeto de vida, mas em diferentes seres historicamente multifacetados. Algo, porém, não se pode negar, por mais divididas que se encontrem as verdades, dúvidas ou certezas: o homem simboliza (a si mesmo, ao outro e ao mundo) gerando, elaborando e engendrando reduções, prismas e arestas que darão sentido ao seu espírito.

A continuidade sonhada, dentro da abrangência sentida, será sempre a construção possível, a crença que se faz realidade, a compreensão aproximada. Sim, o fato (captação feita através de ato ou evento) se manifesta como fenômeno e tende, muitas vezes, a se revelar como um dado por suposto.

Será sempre em uma sociedade mais homogénea, onde o sido e o sendo se interpenetram, com muita ênfase, que as noções do que passou, do que está e do que virá se manifestarão como componentes do único, absoluto, abrangente. A realidade não se dilui, o aqui e agora se projetam para e em todos os quadrantes do imaginário. Existe-se dentro de uma unidade.

O espaço sofre (na história, nas sociedades e nas culturas) diferentes e contínuas recriações, redimensionamentos e ressignificações. Assim, um determinado espaço pode ser mais denso ou mais elástico do que outro, a depender das necessidades criadas por determinadas circunstâncias e que pedem especificas soluções.

Espaço e tempo delimitam mitos, códigos, rituais e sentimentos. E um processo criador de paradigmas, que gera múltiplos resultados ao processo histórico vivido por diferentes sociedades. Enquanto, por exemplo", as sociedades saxônicas, nos seus contextos, separam, com mais nitidez os dois referenciais, a sociedade brasileira se sin-gulariza pelo fato de que muitos espaços e muitas temporalidades convivem simultaneamente" (DaMatta, 2000:32).

 


sábado, 18 de julho de 2020

AS HISTÓRIAS, AS CERTEZAS E AS SURPRESAS


RONALDO SENNA – Mestre, Doutor, Antropólogo, escritor, professor aposentado: Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Universidade Católica de Salvador (UCSAL).





Jamais conseguiremos escrever
As histórias dos futuros
E nem mesmo esconder
Os passados entre os muros.

Tendo suas próprias existências,
Seus fracassos e vitórias,
Suas razões e preferências
Tecem inconstantes memórias

Sendo a trajetória humana
Uma sucessão de erros insana
Apoiada na fé e na certeza,

Por mais segura que seja a gesta
A história sempre se manifesta
Pelos caminhos da surpresa

AS CONVICÇÕES OSCILANTES

As convicções estarão sempre oscilando ao sabor das circunstâncias, assim como as crenças só podem se estabelecer no bojo das heranças culturais. Por essas constatações apreendemos que as verdades se realizaram e sempre se realizarão no cerne das modificações contínuas e multidirecionadas. Instalar-se nessa panorâmica é a única forma objetiva e lógica de vermos o contínuo sociedade e cultura.
Essa herança em mutação, acionando a vida como é possível ser vivida, permite-nos ver que "eu sou eu e minhas circunstâncias" e que "o homem não tem natureza e sim história". Podemos dizer ainda, completando, que "não é a consciência que determina a existência, mas a existência que determina a consciência". Os dois primeiros pensamentos são de Ortega, o terceiro veio de Marx. Uma simples e atenta observação será o bastante para que uma identificação clara entre eles se torne patente e provoque, ainda mais, a nossa reflexão.
Sim, tanto a estrutura social (de onde nascem e vicejam as mais variadas conjunturas), como os contextos históricos (de onde saem os atos e eventualidades), são responsáveis pelos desfechos que direcionam o tempo e o espaço vivenciados.
Se as circunstâncias que envolvem um homem - ser histórico - são, por esta mesma história, construídas e - por esta construção - a sua consciência é trabalhada, este homem tem consciência, portanto, de que o ato de entender a sua vida tende sempre a ser o seu passado reorientado.
Inicia-se, por esta causa, o seu próprio projeto de vida. Ele nada mais é que uma das formas da sua consciência sendo determinada pela compreensão do mundo que recebe como herança das suas circunstâncias étnicas, económicas e socioculturais.
A partir da observação de tudo isso, o seu mundo se constrói. Este ser gerundial, esta realidade cinemática, ordena a consciência e arquiteta a determinação. O espaço no qual se estende o domínio do imaginário é o seu próprio projeto que se finaliza, em cada demarcação, instalando-se entre a Cosmologia e Cosmogonia.
Os conceitos de cosmologia e cosmogonia têm campos semânticos de tamanho desigual, tendendo o primeiro desses termos a englobar o segundo. Com efeito, o antropólogo pode definir a cosmologia como um conjunto de crenças e de conhecimentos, como um saber compósito, que abrange o universo natural e humano; a cosmogonia (parte da cosmologia centrada na criação do mundo), por seu lado, expõe, sob a forma de mitos as origens do cosmos e o processo de constituição da sociedade. Assim, a cosmologia - pela qual nos interessamos de maneira prioritária - apresenta-se como uma exigência de síntese, como a pesquisa duma visão totalizante do mundo. Além duma função redutora, uma vez que isola e dá importância a certos elementos considerados como constitutivos do universo, tem também uma função explicativa, pois ordena e põe em relação o meio natural e os traços culturais do grupo que a produziu. (Lallemand, 1974:27)
A cosmologia, portanto, procura logicizar o tempo e o espaço a partir de uma reflexão científica, no sentido objetivo e sistemático, dentro de um cálculo abrangente de possibilidades. Já a cosmogonia vê o universo, indubitavelmente como criatura, logo, tem que haver o criador. Produz, dessa forma, um painel rico em símbolos e metáforas. Para as mentes que se pretendem lógicas e coerentes, o espaço é sempre uma manifestação de área, lugar, distância, local, fronteira, delimitação (total ou parcial). "Já para o homem religiosos, o espaço não é homogêneo: apresenta roturas, quebras; há porções de espaço qualitativamente diferente dos outros" (Eliade, 1967:35).
Acompanhado a espacialização social, notamos que as ambientações se diferenciam, inclusive hierarquicamente, porque impregnadas de sagrado. Assim, vemos que em uma das nossas praças brasileiras em que exista uma igreja, aquele logradouro é mais sagrado que outros, a igreja mais sagrada que o restante da área, dentro da igreja, as naves mais sagradas do que o portal, o altar mais sagrado do que as naves e o sacrário mais sagrado do que o altar.
Tal como o espaço, o tempo também não é, para o homem religiosos, nem homogêneo nem contínuo. Há, por um lado, os intervalos de tempo sagrado, o tempo das festas (na sua grande maioria, festas periódicas); por outro lado, há o tempo profano, a duração temporal ordinária na qual se inscrevem os actos privados de significação religiosa. Entre estas duas espécies de tempo existem, bem entendido, solução de continuidade mas, por meio dos ritos, o homem religiosos pode “passar” sem perigo, da duração temporal ordinária para o
tempo sagrado. (Eliade, 1967:81).
A socialização do tempo constrói anos santos, meses santos, semanas santas, dias santos e, até horas santas. Mesmo quando as sacralizações não se manifestam como santificações, existem atos e eventos que possuem o poder de marcar o momento sagrado, como, por exemplo: o momento da escolha, a consciência da vocação, o desígnio da missão ou da sina, a romaria, a viagem à Meca, a sétima volta em torno da Caaba.
A cosmogonia é o modelo exemplar de toda espécie de fazer. Não só por ser o Cosmo o arquétipo ideal ao mesmo tempo de toda a criação, mas por ser uma obra divina. O Cosmo é, então, santificado na sua própria estrutura. Por extensão, tudo o que é perfeito, pleno, harmonioso, fértil, em uma palavra, tudo o que é concebido como um cosmo, tudo o que se parece a um cosmo, é sagrado. Fazer bem feita qualquer coisa, obrar, construir, estruturar, dar forma, informar, formar, tudo isso se resume em dizer que se faz com que alguma coisa comece a existir, que se dá vida a alguma coisa e, em última instância, que se faz com que alguma coisa se assemelhe ao organismo por excelência, o Cosmo. Ora, o Cosmo, não custa repetir, é a obra exemplar dos deuses, é a sua obra-prima (Eliane, 1967: 68).
O ser humano para se sentir semente, raiz e árvore da existência e não fruto da história, além de pôr os deuses a seu serviço, posiciona-se como centro do universo e, em consequência, coloca o cosmo como uma existência para o homem. Ora, se a vida (qualquer uma - não apenas a humana) desaparecesse não faria falta alguma ao universo. Não ver isso é apenas instalar-se em um tempo e espaço religiosos.



sexta-feira, 15 de maio de 2020

TÓPOS E KRONOS II

RONALDO SENNA - Antropólogo, escritor, professor aposentado: Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e Universidade Federal da Bahia (UFBA). Universidade Católica de Salvador (UCSAL).




Por mais que pareça fatal
O que o futuro nos espera,
A dúvida surge, afinal,
No centro da nossa tela.
Vendo se assemelhar no horizonte
O que sugere fenômenos parecidos,
Pensamos brotar, da mesma fonte,
A construção dos mesmos tecidos.
Mas a realidade se revela
Como tintas de aquarela
Em seu próprio caminhar.

De forma brusca ou sincera
Ela própria se acautela
Quando quer se manifestar.

PRISMAS DA SILHUETAS DO SOCIAL

A sociedade constrói os seus próprios mecanismos de funcionamento, complexidades, cortes, quebras de referências e traumas. É o homem vivendo e vivenciando as suas histórias e por elas sendo construído, direcionado, ressignificado e, como consequência, plantando e colhendo determinações.
O mito dá sentido à existência do mundo, do homem e do homem no mundo. O ritual consolida o projeto da vida humana sendo vivida, aqui e agora. Os códigos organizam e administram os dois e, da interação dessa trialidade, nascem as faces mais visíveis dos sentimentos.
Os estudiosos do social sabem que inexistem - porque inteiramente impossível de acontecer -, tanto uma cultura que não se assente sobre mitos, como uma sociedade em que não haja rituais. Os dois constroem e desconstroem as noções de tempo, espaço, ordem, desordem e tudo mais que for necessário para evitar o caos.
Com a modernização dos transportes e consequente aumento da velocidade, o espaço se contrai ou se dilata, dependendo da observação daquele que o usa. O termo longínquo, por exemplo, está em franco desuso, enquanto perto e longe depende, sempre, da continuidade ou descontinuidade das visitas a locais determinados.
A sensação do tempo que passa é mais rápida ou vagarosa, a depender do prazer ou da dor que um determinado evento existencialmente proporcione. O prazer comprime o tempo, a dor o dilata. O prazer alarga o espaço, a dor o reduz. Necessitamos inventar vários tipos de passado, contraditórias formas de presente, incongruentes projeções de futuro. Ou fazemos tudo isso ou não conseguiremos administrar o nosso espaço, grande demais para o nosso corpo, muito pequeno para os nossos sonhos.
Essas reflexões, até agora elaboradas, nos fazem ver que o homem é um construtor. Construtor da vida e da morte. Como a vida se faz por etapa, por etapa se fará também a sua história. E o passado reinventado na tentativa incessante da eterna busca das origens. Essa reorientação coloca o presente no reino da luz e o passado no mundo das trevas.
Os deuses do passado são os demónios da presente. Assim, podemos colocar um duplo processo na ação humana, que seria o resgate da cultura posta e no retrabalhar constante em sua prática religiosa, o que se confunde com o próprio sentido da existência: o seu património de significados - a reinvenção de uma nova continuidade cultural.
O sentido da coerência, o desejo da conservação, a elaboração das sequências e quaisquer outros elementos de cultura presentes na construção do tempo significam, sempre, viver um determinado legado, ou seja, um estipulado perfil do espaço que perpassa de uma face do tempo para outra.



Filme do Santanopolis dos anos 60