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FOTO OFICIAL DO ENCONTRO

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segunda-feira, 24 de outubro de 2022

ANTONIO PINTO, MEU PAI

RAYMUNDO ANTÔNIO CARNEIRO PINTO

In memoria

        Quero adiantar, de logo, que meu pai-Antonio Cypriano Pinto - não foi político, empresário nem teve especial destaque na cidade em que morou todos os oitenta e cinco anos de vida. Tomei a iniciativa de escrever sobre alguns dados de sua modesta biografia por entender que seria importante registrar num breve depoimento, para os feirenses de hoje, como se comportou no passado um simples cidadão que, sem ter ocupado altos cargos, deu uma parcela considerável, embora discreta, de contribuição à comunidade a que pertencia. Como filho único muito ligado a ele, sou testemunha da prática diária daquela que foi a sua qualidade mais marcante: a honestidade (de que tanto carecem, na atualidade, conhecidas figuras de várias áreas em nosso país!).
Antonio Pinto
(acervo do autor)

        
Nasceu em 1889, pouco antes de ser proclamada a República, numa pequena fazenda da zona rural de Feira de Santana, que tinha como proprietários meus avós Joviniano Pinto e a esposa Francisca. Mesmo não sendo o mais velho dos dez irmãos, seus contemporâneos reconheciam a inegável liderança que exercia, sempre convocado para resolver toda sorte de problemas, inclusive familiares. Casou com minha mãe Isabel aos 43 anos e justificou o atraso dizendo que “não teve tempo antes...” Um fato pitoresco que acompanhei na minha infância: uma certa sobrinha perdeu a virgindade com um homem casado e o pai a expulsou de casa. O lider impôs sua autoridade e exigiu que o severo pai aceitasse a filha de volta (que casou depois e foi feliz). Cito esse acontecimento para demonstrar que meu velho, diante dos rígidos costumes antigos, já mostrava uma mentalidade avançada para a época. Na infância, lembro que tomei poucas surras, mas depois, se errasse, sofria um “castigo moral”, ou seja, era proibido de ir ao cinema ou aproveitar algo que gostava. Descobri que ele não admitia atos de violência.

Nunca se desgarrou dos conhecimentos que adquiriu no campo. Como se sabe, realizava-se em Feira, no passado, uma das maiores feiras de gado do país. Entre os que comerciavam no local, meu pai era considerado o mais entendido. Quando a boiada entrava na balança e o velho calculava o peso aproximado em arroubas, quase sempre acertava ou errava por quilos. Foi intermediário na compra de gado para grandes proprietários de açougues em Salvador. Por muitos anos trabalhou para Antonio Rocha, o maior comerciante de carnes da Capital naquele tempo. Gostava da construção civil. Foram da inciativa dele as primeiras modestas casas da atual Rua Cristóvão Barreto (antigo “Pilão sem tampa”), que as alugava a preços módicos. O mestre de obras era o negro João Pascoal, que veio a tornar-se seu melhor amigo. Não alimentava qualquer preconceito. Tinha pena dos inquilinos inadimplentes e se orgulhava de nunca ter dado entrada na Justiça de uma ação de despejo.

         Não tinha o curso primário completo, mas gostava de ler, ouvir rádio, depois substituído pela TV, e conversar com amigos, mantendo-se sempre bem informado. Minha esposa Shirley, quando diretora da Biblioteca Municipal, custava trazer livros para ele ler, sendo Humberto de Campos seu autor preferido. Nunca deixou de me incentivar no sentido de cultivar os estudos. Apesar de ser um homem de reduzidas posses, conseguiu o mínimo suficiente para me manter, com dignidade, em Salvador durante os oito anos em que frequentei o Colégio Central da Bahia e a Faculdade de Direito da UFBA. Já atuando como advogado, um dia ele me confessou que gostaria que eu me formasse em engenharia. Mais uma vez revelou outro lado positivo: nunca tentou interferir na vocação profissional do filho.

Raymundo e Antonio Pinto (acervo do Autor)

            Tendo-se aposentado por volta dos 70 anos, meu pai não se acomodou. Ele era grande admirador dos serviços humanitários prestados pela Santa Casa da Misericórdia. Na década de cinquenta, durante a administração do provedor Wilson Falcão, deputado federal e conhecido médico, o velho assumiu a tesouraria por quatro anos (1953 a 1957) e também tinha a seu cargo cuidar do Cemitério Piedade. O hospital daquela instituição funcionava, a princípio, na Praça Padre Ovídio. Uma forte chuvarada em 1955 fez ruir uma parede do prédio, estando ausente o provedor. Coube ao tesoureiro tomar a iniciativa de fazer a mudança para a sede atual, mesmo ainda inacabada. Auxiliou-o na tarefa o companheiro de diretória padre Mario Pessoa. Até hoje me emociono e me deixa orgulhoso quando recordo que o provedor Dr. Wilson, ao falar de honestidade, disse a mim e a muitas pessoas que “Podia-se confiar aAntonio Pinto ouro em pó”. João Marinho, figura de relevo na História de Feira, tendo sido seu prefeito, foi sócio, um certo tempo, de uma empresa baiana que comerciava com bois, à qual meu pai serviu. Pois bem, aquele excepcional empresário proclamou um dia para muita gente ouvir: “José Soares e Antonio Pinto foram os dois homens mais honestos com quem eu trabalhei”. Esclareça-se que o primeiro citado, muito respeitado na cidade, foi gerente do antigo Banco da Bahia, que teve João Marinho como um dos sócios. Ainda como aposentado, foi nomeado Juiz de Paz, um cargo honorífico que chegou a ter uma certa importância no passado distante, mas, no tempo em que ele exerceu, limitava-se apenas a presidir a cerimónia de casamentos civis quando estavam ausentes, em finais de semana, todos os juízes togados da comarca. Na época, o velho, com certeza, jamais pensou que o filho viria a ser um magistrado de verdade!...

Nas linhas acima, tive oportunidade de narrar alguns poucos fatos que marcaram em mim a personalidade de meu pai. Eram variadas suas qualidades e me orgulho de todas elas. Para honrar seu nome, sinto-me obrigado a seguir, em especial, seus passos no que entendo ter sido o maior exemplo que me deixou: a honestidade.    

 

domingo, 12 de junho de 2022

A PRIMEIRA VEZ - III (FINAL)

RAYMUNDO ANTÔNIO CARNEIRO PINTO

A PRIMEIRA VEZ - II

   Por causa da timidez, o currículo amoroso de Perna simplesmente estava em branco. Admitia que sua aparência de um típico "nerd" não ajudava. Somente com Maristela veio a experimentar o gosto de uma ardente paixão. Nunca entrava no carro da namorada. Achava feio ir ao lado de uma mulher ao volante. A princípio, Maristela disse que era besteira e ficou zangada. Depois, para não perder a companhia tão agradável, passou a achar divertido andar a pé ou de ônibus. Um dia até brincou com ele:

- Sabe, benzinho, eu estava muito acostumada à minha vidinha burguesa. É bom a gente ficar de vez em quando junto do povão; não é, querido?

A resposta, entre sorrisos:

- Juro que ainda lhe faço uma mulher politizada, sua burguesinha.

- Meu comunistazinho...

- Aprenda logo uma lição: ser de esquerda não significa ser comunista. E eu, meu bem, não sou comunista. Tá ouvindo?-concluiu sério.

- Deixe esse negócio de política pra lá. Depois você me explica a diferença; tá? Olha ali aquele barquinho lá longe no mar tendo por cenário o pôr-do-sol. Não está lindo!?

Como não poderia deixar de ser, finalmente um dia a conversa terminou chegando ao assunto inevitável: sexo. Coube ao Perna dar início:

- Pra mim, esse negócio de virgindade é frescura.

- Pra mim também - acrescentou Maristela, sem pestanejar.

Calaram-se. Um mesmo pensamento assaltou a mente dos dois: "Que diabo! Se nós não temos esses preconceitos, por que nunca fomos pra cama?"

Um pouco encabulado, Josiel perguntou:

- Você é virgem?

- Claro que não.

Só Maristela poderia avaliar quanto lhe custou soltar aquela mentira. Desde que ficara íntima de Perna, ouviu várias vezes ele afirmar que gostava muito de pessoas "autênticas". Por causa disso, procurava ao máximo se esforçar para não mentir diante dele. Nessa circunstância, porém, não havia jeito...

- Então, já está em tempo de a gente aprofundar nosso namoro. Não acha? - voltou Josiel, fazendo grande esforço para superar sua habitual timidez quando falava de tais assuntos.

- Mas Josiel — disse Maristela procurando desesperadamente uma escapatória - eu sou de opinião que é vulgar a mulher que vai pra cama logo no início do namoro. Primeiro precisamos ter certeza de que realmente nós nos amamos. Nós nos gostamos muito, é evidente, porém entendo que o tempo de namoro ainda não é suficiente para sabermos se existe entre nós um verdadeiro amor. Não tenho preconceitos contra o sexo, mas só admito que seja praticado entre pessoas que se amam. E eu tenho medo que você me ache vulgar. Ainda está cedo. Concorda?

- De minha parte garanto que existe amor. Se você quer esperar mais um pouco, eu protesto, mas concordo. Volto a dizer: prefiro a autenticidade. As pessoas devem ser livres para decidir.

As palavras de Josiel encantaram a jovem. Naquele momento ela percebeu que, ao dizer que não o amava ainda, apegava-se a uma mera desculpa. Sua cabecinha se enchia novamente de belos sonhos. Era inacreditável. Ela agora se sentia a mesma adolescente apaixonada da noite dos 15 anos. Sem o dia seguinte, é claro.

Um mês havia passado, desde o início do namoro, quando finalmente Maristela convenceu o Perna a entrar no seu carro. Foi num domingo à tarde. Combinaram que ela iria ensiná-lo dirigir. Rumaram para o Horto Florestal, onde as ruas eram normalmente quase desertas. As aulas de direção se repetiram em outras oportunidades, sempre nos fins de semana. O Perna vivia felicíssimo. Em pouco tempo, não só já dominava o volante, como vibrava com o final das aulas, seguidas religiosamente de um apimentado troca-troca de carícias. Foi após um prolongado beijo na boca que Josiel, vencendo sua insistente timidez, lançou a indagação:

 - Então, querida, já estamos maduros para uma experiência sexual?

- Parece, né? - disse Maristela, procurando esconder o nervosismo.

E acrescentou, ainda um tanto perturbada:

- Mas nada de ser aqui no carro. Que tal um motel? É mais tranquilo e mais seguro. E tem de ser com data marcada para eu poder me preparar psicologicamente. Tá, queridinho?

- Próximo sábado, às quatro da tarde. Combinado?

É difícil descrever o que se passou nas mentes dos dois jovens enquanto aguardavam, bastante ansiosos, o tão esperado dia. Quem já viveu - ou vive - um grande amor pode muito bem imaginar.

Eles jamais tinham sentido uma semana se arrastar com tamanha lentidão. O sábado afinal chegou. Sob o pretexto de mais uma aula de direção, os amantes saíram no carro branco. Perna tinha ouvido falar que havia um motel perto da lagoa do Abaeté. Tocaram para lá. Próximo ao motel, Maristela colocou óculos escuros, abaixou- se no banco e pôs uma revista na frente do rosto. Uma coroa, parecendo lésbica, atendeu no portão de entrada e secamente disse:

- Apartamento doze. Vire à esquerda.

Na frente de cada apartamento existia uma garagem. Com dificuldade, Josiel fez a manobra do carro e entrou na que ostentava o número indicado. Imediatamente um portão se fechou atrás do carro. Ambos desceram do veículo e entraram numa porta em frente. O motel era o melhor da cidade. Tinha ar condicionado, espelho no teto, televisão, uma pequena piscina e um sistema de som que tocava música lenta, orquestrada.

- Eu acabei de tomar banho em casa. Não vou usar o banheiro nem a piscina - foram as primeiras palavras de Maristela, toda embaraçada.

- Eu também tomei banho e até botei perfume... - disse Perna,

demonstrando visível nervosismo. E acrescentou:

Vou apagar a luz. No escuro fica melhor.

Apesar de ainda estar de dia, o apartamento ficou escuro. Apenas tiraram os sapatos e se deitaram na cama redonda. Um apaixonado beijo na boca deu início ao ritual. Josiel desabotoou a blusa da amada e a tirou. Ele fez o mesmo com a própria camisa. Cada peça do vestuário foi sendo retirada aos poucos, entre beijos e carícias. Estavam, afinal, inteiramente despidos. O nervosismo de Perna foi aumentando em proporções incontroláveis. Eis que o jovem descobre, com surpresa, um fato por demais perturbador. Embora cheio de desejos em relação a seu amor, constatou, atormentado, que seu estado de nervos impedia a normal ereção. Fez um enorme esforço de concentração, mas não conseguiu. Enquanto isso, Maristela começa a perceber que algo de anormal está acontecendo. Não diz uma palavra e também se desconcentra.

A tentativa - Fonte: www.wikihow.com
As repetidas tentativas de fazer voltar a concentração foram em vão. Desesperado, Josiel vira-se na cama, esconde o rosto com um travesseiro e chora como uma criança. Diante da situação inesperada, Maristela compreende o ocorrido, repassa rapidamente todos os seus conhecimentos teóricos sobre sexo que tanto lera e, fingindo naturalidade, tenta contornar o imprevisto:

- Deixe de bobagem, querido. Todos os bons sexualistas estão cansados de afirmar que as grandes emoções são as maiores causas de uma repentina impotência. Se você se emocionou, é porque me ama de verdade.

Procurando dar ânimo ao namorado e levantar a autoestima abalada dele, continuou:

- Vamos embora daqui. Depois desta, não quero mais essas frescuras de marcar data e fazer questão que seja num motel. Devemos deixar a coisa acontecer naturalmente. É melhor; não acha?

Em completo silêncio, Perna levantou, vestiu a roupa e pegou as chaves do carro. Maristela também se arrumou bem depressa.

- Você quer que eu dirija, querido.

- Não. E tem mais: não vou pagar esta merda de motel. Vou sair em disparada e dar uma banana para aquela coroa horrorosa Estou sentindo a maior vergonha do mundo.

Passou na portaria com velocidade. Sendo ainda um motorista aprendiz, não conseguiu controlar o veículo na primeira curva que surgiu. Aconteceu, então, o segundo desastre: o carro capotou três vezes, ficando, por fim, na posição normal, mas bastante amassado.

- Você está ferida, Maristela?

- Não tive nada. Só o susto. Você está bem?

- Estou. Só uma pequena pancada na testa. Nem saiu sangue.

Começava a escurecer. Do local onde o carro foi atirado descortinava-se uma linda vista da lagoa do Abaeté. Na queda, a saia de Maristela, que era rodada, ficou bem suspensa, aparecendo suas bonitas pernas morenas e uma pontinha muito sensual da calcinha um pouco transparente, de cor azul ciara.

Quando fixou com atenção sua namorada naquela posição engraçada que ficara após o acidente, o Perna esqueceu, por um momento, tudo de ruim que lhe havia acontecido naquele dia. As bonitas, roliças e aveludadas coxas de Maristela atiçaram seu instinto sexual. Quase automaticamente acariciou tão atraentes pernas. Abraçaram-se. Milagre! Naquela situação desagradável, por incrível que pareça, ele passou a sentir-se um homem com virilidade normal.

Maristela vibrou de alegria vendo que as coisas agora funcionavam a contento... Como por encanto, os movimentos seguintes aconteceram de modo rápido, parecendo ensaiados. O silêncio só não era total porque havia o leve barulhinho do roçar de peles e os suspiros felizes de amantes em êxtase. Formou-se ai um único corpo, cuja forma assumida poderia ser a representação do próprio símbolo do amor. A impressão que eles tinham é que estavam levitando.

Na verdade, ao alcançarem o clímax do ato sexual - ao mesmo tempo, ressalte-se - não mais poderiam dizer que pisavam em terra firme. Voavam, romanticamente, pelo reino encantado do máximo prazer.

Realizada a aterrissagem de volta ao mundo real, Maristela não se conteve e resolveu fazer uma confissão:

- Perna, meu amor, vou te contar um segredo. Tá vendo aí umas manchas vermelhinhas?

- Tou. Que é isso?

- Sangue. Não conhece? É isso aí: até minutos atrás-acredite - eu era virgem, benzinho. Depois lhe conto por que até hoje ocultei de você. Aquela fama de que eu seria muito "avançada" em termos de sexo é tudo mentira. As informações que tenho sobre o assunto não passam de teoria e, assim, enganei muita gente. Para ser autêntica - como você gosta - a verdade mesmo é esta: foi A PRIMEIRA VEZ.

Transcrito da REVISTA DA ACADEMIA FEIREJSE DE LETRAS - 2021 ANO XV-Nº 11 
 

 
 

quarta-feira, 1 de junho de 2022

A PRIMEIRA VEZ - II

RAYMUNDO ANTÔNIO CARNEIRO PINTO


    No princípio, Maristela passou a achar que todos os homens do mundo eram iguais a Tom, ou seja, umas bestas que apenas se deixavam levar pelo instinto e que só pensam em sexo. Restabelecida a saúde, voltou a raciocinar como mais calma e começou a indagar- se: "por que a humanidade dá tanto valor ao sexo?" Daí em diante, dedicou grande parte de seu tempo disponível à leitura de revistas, livros, enciclopédias; enfim, tudo que encontrava abordando assuntos sexuais. Nunca mais namorou. Evitava contatos mais íntimos com rapazes. Mas compensava suas reservas em relação ao sexo oposto contando uma série de mentiras sobre aventuras amorosas. As estórias vinham sempre entrecortadas de observações teóricas a respeito de experiências sexuais.

Dadas essas explicações sobre a verdadeira Maristela que ninguém conhecia, voltemos ao cursinho de vestibular que ela frequentava. Na segunda semana desde que as aulas tinham começado, apareceu na sala um rapaz alto e magro que usava óculos. Chegou um pouco atrasado. Somente achou uma cadeira vaga numa das primeiras filas. Todo mundo olhou para ele. Ficou um pouco vermelho e sentou-se. No meio da aula, o professor fez uma pergunta. De início, ninguém respondeu.

    O magrelo novato (logo um engraçadinho pôs o apelido de "perna de avestruz"") levantou o braço, respondendo à questão formulada com a maior segurança. Na semana seguinte, Josiel - era assim o nome do magro - já se tornara uma figura conhecida. Era o principal "CDF" da turma ou um "nerd" (segundo os que gostavam de termos em inglês). Alguns chegaram até a comentar:

- Será que ele precisa mesmo deste cursinho?

Maristela sempre admirou as pessoas inteligentes. Procurou se aproximar de Josiel. Em pouco tempo, estavam amigos. Na convivência do dia a dia, mesmo mantidos os contados nos limites do respeito mútuo e sem maiores intimidades, ela foi descobrindo outras facetas do novo colega. Além de muito estudioso e inteligente, ele não conversava apenas sobre assuntos ligados às disciplinas que cursavam. Acostumada a ouvir o papo bastante imaturo e fútil da rapaziada do Farol da Barra, Maristela afinai encontrou alguém que a levava a pensar e raciocinar sobre outros temas que antes nunca nem havia cogitado.

- A civilização de um povo não se mede apenas pela sua riqueza material. Povo civilizado é, sobretudo, aquele que cultiva todas as espécies de artes e que conserva e amplia seu património cultural - disse Josiel um dia num intervalo de aula, alongando-se depois no assunto.

As constantes dissertações do "Perna" (o apelido iniciai - "perna de avestruz" -foi considerado longo demais, sendo abreviado) fazia crescer a admiração de Maristela pelo amigo. De outra feita, ela, toda contente, mostrou-lhe o último disco que acabara de comprar, contendo somente músicas americanas de "rock". Ficou estarrecida com a reação de Josiel:

- Não sei como você gosta dessas porcarias importadas. Na maioria, é mais barulho do que música. A gente, que é jovem, deve prestigiar a música popular brasileira. Devemos ser autênticos, patriotas, valorizar o que é nosso.

Passou, então, a falar de Gil, Caetano, Chico Buarque, Milton Nascimento e outros "monstros sagrados" da MPB. No fim, Maristela estava até com vergonha de ter feito aquela aquisição. Prometeu ouvir com mais atenção os ritmos nossos, como o samba, e comprar discos de compositores brasileiros.

Josiel surpreendeu novamente sua simpática amiga no dia em que bravejou contra as chamadas "injustiças sociais". Maristela engasgou e não soube responder quando ele lhe atirou a pergunta:

- Você pensa que a pobreza existe porque Deus quer? Nada disso. Você, filhinha de papai burguês, ignora muita coisa que há neste mundo. Um dia ainda vou lhe esclarecer sobre essas questões.

Começou até a correr o boato que Perna era comunista. Maristela pensou em se afastar dele por causa daquelas ideias políticas "esquisitas". A colega Cristina a tranquilizou, argumentando:

           - Deixe de bobagem, menina. Meu pai costuma dizer que todo cara inteligente, enquanto é jovem, gosta de assumir ideias esquerdistas. Depois de adulto, quando começa a ganhar dinheiro, isso passa.
            
            - Deixe de bobagem, menina. Meu pai costuma dizer que todo cara inteligente, enquanto é jovem, gosta de assumir ideias esquerdistas. Depois de adulto, quando começa a ganhar dinheiro, isso passa.   

  Decorridos dois meses, a amizade entre Josiel e Maristela estava cada vez maior. Iam sempre à Biblioteca Pública, no bairro dos Barris, onde permaneciam horas e horas estudando e conversando. As quatro meninas freguesas da carona passaram a fazer "onda" insinuando um possível namoro entre os dois. A jovem alvo dos comentários assim descartava:

- É apenas amizade, gente. Aquele magrelo de óculos, metido a intelectual, não faz meu tipo.

A bem da verdade, no entanto, a coisa, de ambos os lados, evoluía para tornar-se algo mais além de uma simples amizade. Um dia estavam juntos resolvendo um problema de Física quando o papel acabou. Faltava uma única conta. Josiel, com naturalidade, segurou a mão esquerda de Maristela e fez a conta na palma. Terminado o cálculo, olhou o resultado, mas não soltou logo aquela mão macia da colega. Por fim, perceberam que estavam de mãos unidas por alguns momentos, apesar de já saberem a solução do problema. Josiel ficou vermelho, como era de costume nos instantes em que sentia forte emoção. Sorriram um para o outro. Ainda de mãos dadas, o Perna - num esforço enorme para vencer a timidez - tentou falar:

- Você... - e engasgou.

- Você o quê? Faie sem medo.

Maristela disse isso percebendo que seu coração batia mais forte.

Josiel, reunindo suas últimas forças de uma coragem que não sabia de onde veio, soltou, de repente, de uma forma muito desconcertada:

- Você quer namorar comigo?

Já dissemos que Maristela era muito cotada. Receber declarações de amor se tornara uma constante em sua vida. Contudo, jamais nenhum pretendente foi assim tão direto no assunto logo de início. Aliás, essa estória de falar para namorar estava fora da moda há muito tempo. "Uma caretice", diziam. O rapaz interessado alimentava uma conversinha mole por alguns dias-até que, de uma hora para outra, o romance "pintava", quase sem sentir.

Apesar da cafonice do desajeitado Perna, a sua eleita não estranhou seu jeitão antiquado. Pelo contrário, ficou emocionada com uma declaração simples, "quadrada", mas dita de forma tão sincera e espontânea. Para não dar a entender, de logo, que também gostava muito do magro, encenou uma pequena resistência:

- Mas, Josiel, nós somos somente bons amigos. Será que dá

certo?

Recebeu como resposta:

- Maristela, acho que já é tempo de a gente acabar com essa estória de que somos apenas amigos. Descobri que estou apaixonado por você. Sinto também que você não é indiferente a essa paixão. Eu gosto de ser autêntico. Vamos ser autênticos?

Houve um silêncio de alguns minutos. Foi o suficiente para Maristela fazer desfilar em sua mente um montão de pensamentos. Concluiu que hoje suas ideias não eram as mesmas em relação àquelas em que se agarrou após o trauma. O imoral primo Tom e Josiel - agora tinha a certeza - são pessoas de dois mundos completamente diferentes. Ali, diante dela, estava alguém que teve oportunidade de conhecer bem de perto. Não achava que sentia amor por ele. "Ainda não" - completou em pensamento. Mas Josiel lhe inspirava confiança. Podia entregar-se a ele. O verdadeiro amor - ela acreditava - viria depois, com toda certeza. E disse, afinal:

- Não custa nada a gente fazer uma tentativa; né?

Josiel, ou melhor, o Perna (o apelido terminou pegando) dizia aos colegas que era de Feira de Santana. Nesta cidade, estudou vários anos. Era natural, porém, do vizinho município de Santa Bárbara, onde ficava a fazenda do velho Juvenal, seu pai, um viúvo semianalfabeto. Frequentando o colégio, em Feira, conheceu um pessoal que fazia teatro. Chegou a trabalhar uma vez como ator, sem ter revelado muito jeito. A convivência com a turma de teatro- que reunia alguns ditos "intelectualizados" e outros tantos "politizados" - exerceu forte influência em sua formação. Daí o gosto pelas artes e o conhecimento de ideias políticas avançadas. Não tinha boas relações com o pai. Este, todavia, apesar de carrancudo, nunca lhe faltou com o mínimo de dinheiro para sustentá-lo nos nos estudos. Seu grande ideal era formar-se em Economia. Por isso, sua mudança para Salvador.

        Continua: A PRIMEIRA VEZ - III (final).


Transcrito da REVISTA DA ACADEMIA FEIREJSE DE LETRAS - 2021 ANO XV-Nº 11

  

terça-feira, 24 de maio de 2022

A PRIMEIRA VEZ - I

RAYMUNDO ANTÔNIO CARNEIRO PINTO
 

Conto dividido em três postagens.

    De segunda a sexta-feira, o cursinho que preparava estudantes para o temido vestibular encerrava as aulas às dezessete horas. Logo depois, uma onda alegre e descontraída de rapazes e moças, formando pequenos grupos, aumentava o vaivém de gente no Jardim da Piedade. Alguns sempre demoravam na porta, comentando as novidades do dia. Outros preferiam conversar dando voltas em torno da praça. Os mais apressados corriam de imediato logo para o ponto de ônibus.     

A primeira vez - wikihow.com
    Ah!, mas havia os que a turma chamava "filhinhos de papai". Era o pessoal que tinha carro. Estes nunca demonstravam estar com pressa e raramente iam embora sozinhos. Os fregueses da carona eram certos. Entre os motorizados, existiam algumas garotas. Maristela, por exemplo, tinha um automóvel branco, presente do pai no Natal do ano anterior.

Quem não conhecia Maristela? Morena de olhos claros, estatura mediana, invejável corpo do tipo "enxuto", cabelos pretos, um pouco ondulados e cortados bem curtos. Uma jovem de 18 anos que irradiava beleza e simpatia. Um colega novo que pedia informações sobre aquela "menina linda" obteve a seguinte resposta de um cara cabeludo que estava ao lado mascando chicletes:

- Essa aí, meu chapa, é paqueradíssima, mas a coisa mais difícil é conseguir namorar com ela... Conheço um monte de gente que já tentou e desistiu.

No carro de Maristela só cabiam quatro pessoas além da motorista. Uma pena, pois um número muito maior de colegas gostaria de sentir o prazer daquela companhia agradável todos os dias. Não era somente pela alegria espontânea e pelo jeitinho cativante que ela possuía em alta dose. Havia outra razão que levava as meninas do curso a sempre procurarem um bate-papo com a simpática colega. Ela adorava falar sobre assuntos ligados ao sexo.

Cecília, Dora, Cristina e Zuleide, todas moradoras do bairro da Barra, onde Maristela também residia, eram suas companheiras mais constantes. Não chegavam a ser consideradas feias, mas, na opinião da rapaziada metida a entender de "mulherologia", deixam muito a desejar. Para sermos comedidos, diríamos que pertenciam ao grupo das "sem atrativos especiais". A verdade é que tinham dificuldade de arranjar namorados. A pouca experiência em contatos amorosos mais íntimos contribuía para que fossem as mais curiosas nas horas em que Maristela "pontificava" em torno de temas sexuais.

- Mais importante do que ato sexual em si, deve ser, sem dúvida, a fase de preparação. A mulher realmente experiente conhece se o homem é, ou não, um bom amante pela habilidade que ele demonstre em saber excitá-!a antes do coito.

Essa afirmativa foi feita uma vez por Maristela com tamanha convicção e tranquilidade que deixou suas habituais ouvintes absolutamente certas de que estavam diante de uma verdadeira "expert" em sexo. E mais: alguém que, além da teoria, demonstrava ter também considerável prática...

Uma das meninas, de outra feita, comentou que viu uma reportagem pela televisão sobre a pílula anticoncepcional, que inclusive prevenia poder ela ser causadora de câncer. Foi o bastante para que Maristela, com a maior desenvoltura, desse uma verdadeira "aula" a respeito dos métodos anticoncepcionais.

- Minha filha, - disse ela, começando - de vez em quando aparecem esses boatos de que a pílula dá câncer. Não acredito muito nessas estórias. Por enquanto, não inventaram método mais seguro. Eu, por exemplo, não confio nos outros. Soube que um cientista daqui da Bahia - Dr. Elsimar - está fazendo atualmente umas experiências, mas nada definitivo ainda.

Todas as garotas que iam no carro permaneceram silenciosas e atentas, como se escutassem a maior autoridade médica no assunto.

E prosseguiu, com desembaraço, como sempre:

- Hoje quase ninguém usa a tal tabela. É a que mais falha. Além disso, exige que a mulher seja bem regular nas menstruações. Existe também um dispositivo chamado DIU, que é introduzido na vagina. Dizem que às vezes provoca infecção. Deus me livre de ter um corpo estranho dentro de mim.

No dia seguinte a essa conversa, Cecília e Zuleide saíram atrasadas e perderam a carona. Aproveitaram o caminho de casa para tecerem alguns comentários sobre a desinibida e bem informada colega. Zuleide aventurou levantar uma dúvida que a estava deixando intrigada há tempo. E perguntou à companheira:

-Cecília, você acha que Maristela é tudo aquilo que aparenta? Você já conheceu algum namorado dela?

- Eu acho que Maristela tem demonstrado que entende mesmo de sexo - respondeu a outra.

- Não é isso que eu quero dizer- retrucou Zuleide. Concordo que ela lê muito sobre sexo e está bem informada. Mas acontece que, nas conversas, ela dá a entender que muita coisa daquilo que diz foi também vivido na prática. Não acha? Agora eu pergunto: praticou com quem? Já notou que a gente nunca conheceu um namorado dela?

Cecília não se convenceu, porém começou também a ter certas dúvidas.

As interrogações de Zuleide eram, na verdade, procedentes. Toda aquela sapiência de Maristela em relação aos temas sexuais não passava de uma cortina de fumaça para ocultar outro lado de sua vida que era totalmente desconhecido de todos. Portarás da jovem simpática e alegre, existia uma moça triste e cheia de temores diante do sexo oposto. Recebia inúmeras propostas de namoro, mas recusava todas, delicadamente. Um incidente ocorrido num passado não muito distante fez criar em sua mente uma total descrença dos homens em geral. Vale relatar os fatos.

Maristela ia completar 15 anos numa sexta-feira após o carnaval. Seus pais, Sr. Mário e D. Clara, tinham apenas dois filhos e o outro era um garotinho de apenas 7 anos. Prepararam uma festa que os colunistas sociais não tiveram defeitos a apontar. Para atender a uma promessa feita aos pais, ela não namorou antes de debutar. Entretanto, prometeu a si própria que se decidiria por um de seus paqueras na programada festa de aniversário.

Viera passar o Carnaval na Bahia um primo carioca de nome Antônio Carlos, apelidado Tom. Garotão de 17 anos, louro, cabelos longos, pele bem queimada do sol de Ipanema. Um "gato" na opinião unânime das meninas que o conheceram. Além de boa pinta, o carioca tinha um papo que encantava e apaixonava as menininhas. Corriam versões as mais exageradas em torno de suas aventuras durante o Carnaval. Com muito segredo chegaram até a circular notícias de que ele desvirginara três garotas. "Uma delas ficou grávida" - acrescentava, com malícia, uma conhecida comadre fofoqueira da redondeza.

Maristela só conheceu o famoso primo no dia da festa, mas não acreditava em nada do que lhe contaram sobre ele. Como não podia deixar de ser, Tom aplicou uma de suas infalíveis "cantadas" na prima. Comparou o bonito parente com os demais rapazes de suas relações. Vários deles também poderiam obter a classificação de "gato", porém nenhum tinha aquela conversa envolvente e aquele charme todo especial de Tom. Sua decisão foi tomada com rapidez. 0 primo a havia conquistado e seria seu primeiro namorado.

Não puderam ficar sozinhos no dia da festa. Afinal, a aniversariante tinha que se desdobrar em atenções aos convidados. Combinaram encontrar-se no fim da tarde do dia seguinte, um sábado. Encerradas as comemorações, Maristela não pôde dormir bem, apesar do cansaço. Como toda adolescente que se sente tocada pela primeira vez com uma flechada de Cupido, imaginou mil coisas. Em nenhum momento, contudo, pensou em sexo. Romanticamente se viu formando um belo par com aquele "garotão lindo". Por fim, admitiu que isso, sim, era o amor! Estava, sem dúvida, apaixonada.

Tom chegou pouco depois das 17 horas. A casa onde Maristela morava fora construída num vasto terreno. Ficava bem recuada e, na frente, havia um florido e cuidado jardim. Os pais estavam avisados do início do namoro e permitiram os encontros ali mesmo na área da casa. Sentaram num banco existente debaixo de uma frondosa mangueira. Enquanto estava claro, conversaram normalmente, e Maristela não deixou um só momento de contemplar seu amado. Que beleza e que encanto tinha o priminho!

A noite foi chegando. Com a claridade diminuindo a cada instante, Tom achou que estava na hora de acabar com o papo e "partir pra verdade". Quando namorava qualquer carioca - e sempre preferia as mais experientes - ele logo no primeiro dia costumava deslizar a mão boba por certas "zonas mais delicadas" do corpo feminino (a "verdade", para ele, era isso).

Continua: A PRIMEIRA VEZ - II

Transcrito da REVISTA DA ACADEMIA FEIREJSE DE LETRAS - 2021 ANO XV-Nº 11


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