Símbolos do Santanópolis

FOTO OFICIAL DO ENCONTRO

FOTO OFICIAL DO ENCONTRO
Mostrando postagens com marcador Emanoel Freitas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Emanoel Freitas. Mostrar todas as postagens

domingo, 26 de julho de 2020

AS REVOLUÇÕES DE SEU ARQUIMEDES


EMANOEL FREITAS – Santanopolitano, jornalista, advogado, editor do Blog “Viva Feira”, recomendado ao lado, pelo Blog Santanópolis,



  
    Era década de 70, viver no Rio de Janeiro, apesar do momento conturbado da história que o Brasil passava, era extremamente prazeroso. Foi uma época de tomada de consciência,  estávamos lutando para recuperar a democracia e a liberdade perdida e, de certa forma éramos como naus a deriva buscando um porto qualquer, uma vez que até a informação era censurada pelos órgão oficiais, as notícias mais confiáveis tínhamos através da imprensa alternativa e as mais comprometedoras eram passadas verbalmente, razão pela qual valorizávamos por demais encontros e bate-papos informais, onde quer que fossem.
    Encontrar Seu Arquimedes era sempre muito divertido e instrutivo, ele vivia nas mesmas imediações que eu, ali nas proximidades da Rua Machado de Assis, Rua Almirante Tamandaré, por ali, no Flamengo. Não sei exatamente em que prédio ou em que Rua ele morava, nos encontrávamos na Padaria ou bar localizado no térreo do prédio onde eu residia ou simplesmente andando pela praia do Flamengo. Nas cidades grandes isso é muito comum, é possível fazer amigos por encontrá-los sistematicamente no ponto do ônibus na ida para o trabalho ou para faculdade, outros quando estamos voltando para casa, no balcão do cafezinho do boteco ou padaria próximo de onde moramos e que costumamos frequentar, os vezeiros do futebol na praia, e de mais uma infinidade de situações, sem saber realmente  quem são, e qual a verdade de cada um deles. Algumas poucas destas amizades sedimentam com o tempo, outras desaparecem “sem que, nem pra que1”.
    Seu Arquimedes era um aposentado da Petrobras, com muitas histórias de conspirações políticas para contar e, apesar da época difícil que a ditadura militar impunha, se declarava sem fazer segredo, ser um comunista convicto, e mantinha vivo, quando expressava seu ódio pelo regime militar, dentre outras argumentações a de uma conspiração, no mínimo engraçada, na qual afirmava, com convicção, que havia um movimento homossexual para tomar o controle do mundo inteiro e que era fortíssima no Brasil. Fora este devaneio, que apesar de engraçado não havia nenhuma evidência de realidade, suas demais opiniões não demonstrava sinais de insanidade e, os dados históricos e fáticos que citava conferiam com a realidade, de modo que não poderíamos descartá-lo como completamente louco, apenas como paranoico e homofóbico, expressão que não era usada à época, até porque a sociedade tinha muito de homofóbica naquele momento histórico.
    Sempre havia uma lição qualquer nas opiniões de Seu Arquimedes, para cada situação uma ponderação, da maioria podíamos até gargalhar, mas não poderíamos nunca, de modo algum, rir da “teoria da conspiração2” de que o mundo estava sendo ocupado por homossexuais, que alias nosso amigo achava por bem de denominá-los de “veados”, de forma contundente e acintosa. Quanto maior o cargo, maior a difamação do indivíduo, pois o adjetivo também ia para o aumentativo, "(…)ah esse aí é um veadão(…)", afirmava Seu Arquimedes em relação a alguns membros da ditadura e do governo de então, e ainda tinha "(…)é um veadão dos mais perigosos(…)", para o caso de cargos de grande importância. Ai de quem ousasse discordar, certamente faria um inimigo, e poderia até ganhar a fama de estava do lado dos conspiradores ou de ser no mínimo um simpatizante. Ninguém se arriscava. O máximo que chegávamos era na indagação: “Será Seu Arquimedes, o homem tem mulher e filhos?”; ao que ele respondia sem vacilar: "É pra disfarçar, eles são perigosíssimos, querem tomar conta do mundo e de tudo farão para enganar os bobos".
    Envelhecer e aposentar-se faz dos mais inteligentes contadores de histórias (e estórias), e este era o traço mais interessante da personalidade de Seu Arquimedes. A sensação que nós tínhamos nos encontros com ele era de que ele havia vivido tanto quanto Matusalém, pois sempre tinha alguma (hi)estória para contar, a cerca da maioria das nossas experiências. Normalmente acompanhadas de alguma lição, que em regra eram extremamente plausíveis e geralmente continha alguma graça. Apesar da sisudez que lhe era comum ao referir-se a  conspiração homossexual que tomaria conta do mundo, suas demais lições eram carregadas do bom humor típico dos cariocas.
    Um outro amigo nosso, de nome Ubirajara, que no Rio vira "Bira", destes que encontramos comumente na hora do cafezinho, costumava lamentar e reclamar sobre tudo. Até quando seu Vasco ganhava, pra ele tinha jogado mal. Nada era satisfatório. Um verdadeiro pessimista, que tinha o hábito de normalmente se queixar de suas relações amorosas. Vivia a lamentar-se e ofender a ex-mulher e mãe de seus dois filhos, em função das brigas sobre pensão alimentícia. Não poupava ofensas a pobre mulher, que embora nós não a conhecêssemos, mantínhamos uma certa desconfiança de suas afirmações, em virtude de só surgirem, quando das discussões sobre a pensão. Invariavelmente Seu Arquimedes afirmava pra Bira: “Nunca fale mal da mãe dos seus filhos, pois se você ficar afirmando que ela era descarada, você era corno e, a bem da verdade, de mulher descarada tem um bocado de gente que gosta, ao passo que corno fica desmoralizado a vida inteira. Tem sempre alguém pra dizer que o cara é incompetente, por isso mesmo, é melhor você elogiar sempre a mãe de seus filhos, e nunca se esqueça de afirmar que ela sempre foi uma santa e da maior confiança. Se perguntarem porque você se separou, diga que o adultero foi você. Te garanto que a fama de machão é muito melhor que a de corno prá gente carregar o resta da vida, meu filho.”
    Sábio Seu Arquimedes!

NOTAS:
1 – Sem que, nem pra que: expressão muito usada em diversas regiões do Brasil, que da uma certa ênfase para dizer que aconteceu alguma ou algum fato ou alguma coisa sem motivo algum.

2 – Teoria da conspiração (também chamada de conspiracionismo) é qualquer teoria que explica um evento histórico ou atual como sendo resultado de um plano secreto levado a efeito geralmente por conspiradores maquiavélicos e poderosos,[1] tais como uma “sociedade secreta” ou “governo sombra”

Da série: Pelo mundo afora…
Publicado em: 10/07/2020 - no Viva Feira

quarta-feira, 15 de julho de 2020

DOUTOR PIRAJÁ - NOSSO PANTALEÃO MUITO MAIS CRIATIVO

EMANOEL FREITAS – Santanopolitano, jornalista, advogado, editor do Blog “Viva Feira”, recomendado ao lado, pelo Blog Santanópolis,




         Os tempos mudam. Acabei de escrever esta frase no meu smartfone, para um amigo que não vejo há uns vinte anos, e que, por mágica destas novas tecnologias, nos encontramos no facebook, e já me acompanha também no twiter, instagran e whatsaap. Reatamos a velha amizade e trocamos informações gerais, e as saudosas dos amigos comuns. Hoje nas reuniões sociais não faltam assuntos para animar e dinamizar os encontros. Toda esta quantidade de informações decorrente de tantos meios de comunicação tem tornado quase todo mundo muito falante. É claro que a lógica não pode ser responsabilizada pelos entendimentos e interpretações equivocadas que as redes de comunicação soltam no ar e na internet aleatoriamente, de modo que o convívio social anda com um dinamismo sem precedentes na história humana. Todos tem o que falar e, por isso mesmo, parece que desaprenderam o hábito de ouvir. Bom, esse é um problema que certamente terá suas consequências, e as naturais soluções pela própria dialética, como diria meu velho amigo e filósofo das horas vagas, Arquimedes.
         A verdade é que nem sempre foi assim, antigamente tínhamos apenas os rádios AM, que enchiam as casas com informações, poucas, e muitas vezes já ultrapassadas, pois a comunicação andava a “lombo de burro”, o que tornava o convívio social bastante diferente. Tínhamos os contadores de histórias e estórias, normalmente pessoas desinibidas, alguns eruditos, outros muito criativos, e estes eram os que faziam mais sucessos em qualquer reunião social, pois traziam em suas estórias a capacidade de divertir e invariavelmente de provocar risos, o que tornava necessário que houvesse sempre um parceiro que confirmasse as estórias, para dar-lhes peso e aparência de veracidade.
         Chico Anísio consagrou este estereótipo em seu programa "Chico City", através de um personagem que se caracterizava pelo exagero das estórias que costumava contar, beirando quase sempre ao absurdo. O personagem era Pantaleão, que fez sucesso absoluto durante muitos anos, e até criou jargões, que eram repetidos em todo Brasil, e que permaneceram em uso, mesmo após o personagem não estar mais sendo exibido, como: "...tô mentindo Terta?", pergunta que fazia a esposa sobre a estória que acabara de contar, para que ela confirmasse, ou "...cala a boca Pedro Bó...", em reprimenda a um afilhado seu, que sempre estava presente durante as contações de estórias, mas que invariavelmente fazia interferências pouco inteligentes ou redundantes. A bem da verdade, o estereótipo de Chico, para nós, em Feira de Santana, não apresentava nenhuma novidade, sempre nos pareceu uma cópia um tanto quanto modificada de um personagem inesquecível que viveu em nossa cidade, e que divertiu muita gente nas boas reuniões sociais daquela época.
         Muito conhecido e respeitado na melhor sociedade feirense, como médico e cidadão exemplar, Dr. Pirajá, nunca deixava um bate-papo cair na rotina ou ficar monótono, logo que surgia um gancho na conversa ele apresentava uma história, e pronto, era a conta de reunir pessoas em volta da sua mesa para apreciar. Se não surgisse o tema que desse margem a qualquer de suas histórias começava falar de seu carro, um Citroen, que era no mínimo o melhor veículo do mundo, com o qual fez viagens absolutamente fantásticas. Imaginem que neste Citroen Dr. Pirajá fez uma curva tão fechada, mas tão fechada que no meio da curva enxergou a placa traseira do carro.
         Se como indivíduo e médico era uma pessoa inacreditável, que inclusive atendia as pessoas mais pobres gratuitamente e ainda arranjava remédios para seus pacientes menos favorecidos, firmando-se como um profissional exemplar e extremamente sério e competente, quando se reunia com amigos em eventos sociais, também era insuperável como contador de estórias que eram muito mais inverossímeis do que as do personagem do grande grande humorista brasileiro.
         Dr. Pirajá frequentava, praticamente, todas as reuniões sociais da cidade, pois considerado e respeitado por todos, e assim era convidado para os melhores e mais importantes eventos, numa época em que quase todos feirenses se conheciam, e ele pelo seu trabalho social e profissional gozava de prestígio em toda cidade. Aliando-se ao bom caráter reconhecido por toda sociedade da época, divertia-se contando as exageradas estórias, nas quais ele próprio era o personagem central e a esposa Mariinha sem dizer uma palavra assentia a todas indagações que ele lhe fazia para confirma os causos. Alguns maledicentes da época afirmavam que ela não confirmava nada, na verdade tinha um sexto em se balançava sempre positivamente o corpo e parecia estar respondendo em concordância com as estórias. A bem da verdade esta atitude era outra semelhança entre ele e o personagem de Chico Anísio, que nesta época ainda não existia.
         Conheci Dr. Piraja na residência de Francisco Dórea, a quem considerava um Tio por ser casado com Elvira, prima carnal de meu pai, e que pelo fato de terem sido criados juntos na casa de Senhora Araújo, me dava o status de tia por consideração, e o bom doutor não faltava as reuniões realizadas por aquela família, sendo inclusive compadre, por ter batizado um dos filhos do casal.
         Eram muitos encontros, os Dóreas tinha, salvo engano, oito filhos, ou seja, no mínimo oito aniversários por ano, nos quais Dr. Pirajá estava presente em todos, nossa família também estava sempre nos eventos, de modo que presenciei muitas estórias daquele mestre de causos incomuns e muitas vezes absolutamente inacreditáveis. Até mesmo as crianças, que não costumam se interessar por conversas de adultos, se reuniam para ouvir, quando começava contação as estórias. Certa feita tomei conhecimento do asfaltamento da rodovia Feira-Salvador, ressaltado quando doutor Pirajá lembrou que logo quando pavimentaram a tal estrada (BR. 324), gabando ser um asfalto de primeira, quando voltava de uma viagem a Salvador, na altura da Igreja dos Capuchinhos, um menino atravessou a pista correndo atrás de uma bola, ele que vinha em seu Citroen em alta velocidade, deu um freio tão violento, que após ter passado uns cem metros do local, olhou para trás e observou que os meninos estavam tirando a borracha dos pneus do asfalto para fazer badogue. Na verdade não era só o asfalto que era de primeira, a borracha dos pneus também não era brincadeira.
         Vez por outra envolvia familiares nas estórias. Relatando uma viagem feita para Salvador, as pressas, em razão de uma urgência para socorrer um paciente que se encontrava na capital, e que só confiava em seus diagnósticos, acompanhado de sua filha Miriam, em seu famoso Citroen, desenvolvia velocidade tão grande, que a menina tendo colocado uma pequena vara de bambu para fora do carro pela janela, ele só ouviu o barulho, tá-tá-tá-tá-tá-tá, do bambu batendo nos marcadores de quilometragem da BR. Ressalte que os marcadores tinham distância de um quilômetro de um para o outro.
         Nunca faltavam boas e inacreditáveis estórias a Dr. Pirajá. De outra feita, ou para ser mais exato, em outra festa, o Dr. relatou uma caçada que fez em uma região perto de seu sítio em Humildes, e a certa altura da jornada sentiu uma forte dor de barriga, como não havia outro meio, teve que se aliviar ali mesmo, no mato, assim, procurou uma boa moita, e como tinha o hábito de só ir ao sanitário completamente sem roupas, tirou-as e colocou sobre a moita, o relógio, no entanto, um suíço de primeira linha automático de 25 rubis, tirou do braço e colocou em um pequeno arbusto que havia ao seu lado. Terminando de se aliviar, vestiu a roupa e continuou sua caçada durante todo o dia, e só depois que chegou em Feira em sua casa na rua Georgina Erisman, à noite, é que se deu conta de que havia esquecido o relógio no pequeno arbusto que havia pendurado no mato. Era um bom e caro relógio suíço, último modelo, automático, mas não havia como voltar mais naquela altura da noite e conseguir localizar exatamente onde o teria deixado, assim teve que esquecer o relógio. Ainda segundo Dr. Pirajá, alguns anos depois, caçando nesta mesma região, em um verão de sol abrasante e calor insuportável, procurou uma árvore para se proteger e descansar um pouco, sentou-se em uma boa sombra e logo que se acomodou ouviu o barulho, tic-tac, tic-tac, curioso subiu na árvore e la estava o relógio suíço funcionando perfeitamente sem atrasar um minuto sequer. Neste momento alguém interpelou: "Mas Dr. como é que pode o relógio ter funcionado esse tempo todo sem ninguém dar corda?"; no que ele respondeu, "ora meu filho o relógio era automático de primeira linha, e nesta região venta muito, toda vez que o vento balançava os galhos da árvore dava corda no danado. Não foi Mariinha?" e D. Mariinha se movimentou na cadeira como se estivesse concordando com o bom doutor.
         Como afirmei inicialmente nosso Pirajá era melhor que qualquer Pantaleão que possa ser encontrado por aí.


Da série : Verdades e Mentiras sobre Feira de Santana



Filme do Santanopolis dos anos 60