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quinta-feira, 5 de novembro de 2020

0 CORONELISMO NA BAHIA - IV (final)


HORÁCIO QUEIROZ DE MATTOS

Continuação final de Horácio de Mattos

Ver também:

O CORONELISMO DA BAHIA - I

O CORONELISMO NA BAHIA - II

O CORONELISMO NA BAHIA - III

Pouco antes de iniciar o movimento reacionário, Horácio assina um telegrama redigido por Manoel Alcântara de Carvalho, e envia ao velho Conselheiro da República. Os termos mostram o entusiasmo febril que os dominava:

"No momento em que o povo sertanejo marcha para a capital, obedecendo às determinações impostas pelo sentido de sua liberdade, nós vos saudamos, excelentíssimo senhor, porque sois a Fé que nos leva à salvação, e Deus é nosso Guia".

Das ribeiras do São Francisco, passando pelo Raso da Catarina, até chegar ao Vale do Jiquiriçá, outros três mil sertanejos são arregimentados por diversos coronéis, também convencidos a participar da revolta. A um sinal do: idealizadores do movimento na Capital, inicia-se a Reação Sertaneja!

Pelo sofrimento a que o descaso público os condenou por séculos, pela' incursões punitivas enviadas pelos governadores ao longo dos anos, aquele: cinco mil homens em marcha, são agora, um caudal de mágoas que desce serras, serpenteia veredas, sulca a terra ressequida do semiárido e despenca em redemoinho sobre povoações, fazendas e cidades que estão sob o domínio de políticos governistas.

Neste turbilhão de violência, a classe dominante é quem menos sofre, pois debanda rumo à capital ou retira-se para áreas não conflagradas, deixando o combate nas mãos de pistoleiros contratados, peões e fiéis jagunços. A força policial do Estado, composta de apenas dois mil homens, aquartela-se em Salvador onde presumidamente dar-se-á o embate final. Na zona de conflito a luta é ironicamente fratricida; jagunço contra jagunço, povo contra povo. O resultado é trágico: cadáveres insepultos nas caatingas e tabuleiros; saques nas casas comerciais; famílias desagregadas; tristeza e dor.

Horácio após conquistar os mais importantes municípios da Chapada Diamantina, já se encontra às margens do rio Paraguaçu, não muito distante da capital, pronto para o ataque a Salvador, quando o estratagema oposicionista atinge parcialmente o objetivo.

Rui Barbosa
De fato, o presidente da República intervém no Estado da Bahia, porém deixa claro no seu decreto que o ato visa "O restabelecimento da ordem e da tranquilidade públicas", mantendo deste modo, o poder em mãos do grupo governista.

É uma acachapante derrota política para Rui Barbosa, já que reivindicava uma intervenção Federal objetivando a "Manutenção da forma republicana", dado o regime anárquico instaurado na Bahia. Postulação sarcástica, analisando-se que procede de um dos incitadores daquela sangrenta conturbação social. Pouco mais de duas décadas separam estes acontecimentos de um outro, quando, também, sob alegação de salvar a República de supostos subversores, milhares de soldados do Exército atacaram um pequeno arraial, trucidando todos os seus habitantes: Canudos. Um latente mausoléu à intolerância, assentado sobre ossos do fanatismo.

General Alberto Cardoso
Aguiar
 Nomeado interventor Federal, o general Alberto Cardoso de Aguiar, tem sob seu comando dez mil homens enviados pelo Ministro da Guerra para atuarem no restabelecimento da ordem constitucional em território baiano. Porém, ainda lhe estão bem vivas as lembranças da insensatez de 1897, em Canudos, além do que, os jagunços de hoje estão bem armados, disseminados por toda a Bahia e lutam em seu habitat, o que levaria o exército a combater células guerrilheiras. O bom senso predomina e o interventor opta por medidas conciliatórias, chamando os chefes sertanejos para a mesa de negociação. Os coronéis estabelecem, contudo, condições constrangedoras ao Governo Federal para assinar o armistício, que são aceitas e na prática, loteia a Bahia em feudos tribais.

Nenhum acordo se iguala, porém, ao "Convénio de Lençóis", assinado por Horácio de Mattos e os representantes do general Cardoso de Aguiar. Este pacto de paz soa mais como uma capitulação da União, tais as exigências impostas pelo caudilho das Lavras Diamantinas. Entre as cláusulas, algumas são tremendamente abusivas, tais como: pena de desterro para o Coronel Manoel Fabrício de Oliveira[1], 
Cel. Manoel Fabrício
de Oliveira
inimigo pessoal do clã Mattos; que é expulso pelos representantes do governo, para o município de Itaberaba; "reserva" de uma cadeira de Senador estadual e outra de Deputado, a serem ocupadas por pessoas indicadas pelo grupo horacista. Há ali ainda, espaço para outra vindita pessoal: o município de Barra do Mendes, terreiro da família do falecido Militão Coelho, é suprimido, voltando à condição de distrito de Brotas de Macaúbas. Finalmente é concedido a Horácio o comando absoluto de doze municípios da Chapada Diamantina.

A contrapartida resume-se apenas no apoio político do coronel ao governador eleito J.J. Seabra, o que de fato ocorre, para desgosto dos seus antigos correligionários, entre eles, Rui Barbosa que publicamente não se dá por vencido, e em manifesto à Nação, afirma que os governos Federal e Estadual foram os grandes derrotados ante as humilhantes imposições estabelecidas pelos chefes insurretos. 

J.J. Seabra
 Depois desta aventura temerária, Horácio passa a ser tratado pela imprensa e classe política baiana com distinção, e pelo povo, como uma celebridade. Quando vai a Salvador, os jornais o procuram para conceder entrevistas, e se está conversando com amigos em uma confeitaria próximo ao Largo da Piedade, populares se enfileiram à porta, curiosos por conhecê-lo. Numa destas visitas à capital, o coronel é apresentado a um homem de fala mansa, baixa estatura e educação primorosa; é o professor Bernardino José de Souza, grande Secretário do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. A empatia é imediata e mútua; está nascendo uma amizade que será interrompida tragicamente.

Apesar de não possuir familiaridade com o universo cultural, Horácio se comove com a obstinação do mestre em concluir a sede própria do Instituto Geográfico e Histórico; e resolve ajudá-lo na realização do sonho que acalenta há anos, cujas obras avançam lentamente no imenso terreno que dá acesso para as avenidas Joana Angélica e Sete de Setembro, vizinho ao Senado Estadual. Incentivado pelo caudilho, Bernardino viaja com a família, levando no bolso do colete cartas de recomendação aos chefes políticos das comunidades sertanejas. Em cada paragem, o professor e familiares fazem apresentações musicais e levam polpudas contribuições financeiras doadas por amigos e correligionários do prestigioso coronel da Chapada.

Ao final da improvisada turnê artística, foram arrecadados mais de vinte contos de réis, uma fortuna para a época, contribuindo substancialmente para a conclusão da magnífica obra, finalmente inaugurada em 02 de julho de 1923.

Sete anos se passaram até que, em 1930 eclode um golpe militar de caráter tenentista, mas tendo como líder aparente o civil Getúlio Dornelles Vargas. Horácio de Mattos, mais uma vez manipulado pela classe política dominante, inicia uma reação armada aos revolucionários, mas desta vez é dominado pelas forças vitoriosas antes mesmo de disparar um único tiro. Apesar de colaborar para o desarmamento de sua gente, conforme solicitação telegráfica e ameaça subliminar do coronel Juraci Magalhães, comandante das Forças


Juracy Magalhães
 Revolucionárias do Norte; ao final da campanha desarmamentista, para surpresa geral, Horácio é levado preso para Salvador pelo prepotente e belicoso tenente revolucionário, Hamilton Pompa que comandava o oitavo pelotão em Lençóis, onde residia ao caudilho.

Quis o destino, todavia, que à frente da Secretaria de Justiça do Estado, estivesse o professor Bernardino José de Souza, recentemente nomeado pelos comandantes da revolução. A prisão do amigo, sem culpa formalizada em inquérito, angustia Bernardino, principalmente porque naquele momento de exceção constitucional, muito pouco poderia ser feito. Mas mesmo correndo riscos, faz cautelosas ingerências junto ao Tribunal Revolucionário, ao passo em que parcela considerável da sociedade baiana também se mobiliza pública e judicialmente, para promover a libertação de Horácio. Entre seus defensores está o arcebispo Primaz do Brasil, o presidente da Associação Comercial, magistrados, desembargadores e jornalistas. Finalmente, um pedido de habeas-corpus impetrado pelo proprietário do jornal "O Imparcial", é acatado pelo interventor, sutilmente influenciado por Bernardino de Souza.

Poucas horas se passam da soltura de Horácio, e já chegava a informação aos ouvidos do vaidoso tenente Hamilton Pompa, que bebia cerveja em um bar, na rua D'Ajuda, ao lado de outros oficiais do exército. Ele que ultimamente vivia a jactar-se pela prisão do mais temido chefe sertanejo, considera-se desmoralizado. Lançando imprecações contra o secretário de Justiça, a quem acusa de ter facilitado a libertação, saca uma pistola que conduz à cintura, faz alguns disparos para o alto no interior do bar, efetua a recarga e decide que matará Bernardino. Descontrolado, sai à rua, seguido por amigos que tentam contê-lo sem sucesso, até que ao subir os primeiros degraus do Palácio da Aclamação, empunhando a arma, é fulminado por um tiro de fuzil disparado pelo guarda palaciano.

A morte de Hamilton Pompa convulsiona o meio militar e seu sepultamento no dia seguinte, acontece entre exaltados pronunciamentos de civis simpáticos ao novo regime, e oficiais revolucionários. É o momento psicológico propício e a oportunidade circunstancial, para execução de um crime há muito planejado: a vítima está à solta e desprotegida.

Na noite do dia 15 de maio de 1931, vinte e quatro horas após o enterro do tenente, Horácio de Mattos estando em liberdade condicional, mas sem permissão para deixar Salvador, passa pelo Largo do Acioli, com destino à residência de uma cunhada que se encontra em dificuldades financeiras; leva no bolso dois mil réis para socorrê-la. Detêm-se por alguns instantes para conversar com um conhecido, quando é furtivamente atacado por um Guarda Civil, que o atinge com três tiros à queima-roupa. Há poucos metros dali, Horacina, aos sete anos, toma sorvete com amiguinhas, ouve os disparos e grita intuitivamente:

- Mataram papai!

O crime, urdido em gabinetes, consentido em quartéis, praticado em praça pública, nunca teve a autoria intelectual revelada. O autor material e réu-confesso, o Guarda Civil Vicente Dias dos Santos, que recebeu uma arma e 500 mil réis para a prática do assassinato, foi preso em flagrante julgado e, curiosamente, inocentado. Algum tempo depois foi encontrar morto em um casebre na ladeira do Céu, no bairro do Rio Vermelho.

Bernardino José de Souza, acreditando que seu empenho para libertar amigo Horácio de Mattos, involuntariamente facilitou a ação dos algoze fica profundamente amargurado. Passados alguns dias, renuncia ao cargo c Secretário de Justiça e retorna para seu querido Instituto Geográfico Histórico da Bahia.

Inegável que o coronelismo, fenômeno da vida política brasileira, com origem no período Imperial, graças a uma impressionante capacidade metamórfica, ainda pode ser observado claramente neste alvorecer do século XXI. Mudou-se a forma, os métodos; permanece, contudo, a essência daqui que o mandonismo possui de mais perverso: o escambo envolvendo privilégios e subserviência.

Francisco Otávio L. Ferreira Secretário Adjunto do IFiGFS Estudante do Curso de Jornalismo (UNEF)

Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana - Revista: Ano 1 Nº 1 2004



[1] Nota do Blog - Manuel Fabrício nasceu em Campestre - hoje pertencente a Seabra - filho Fabrício José de Oliveira e Ana Nervilha de Oliveira (D. Biosa). Casou com Dursolina Honória em 1882, com quem teve vários filhos.

Politicamente aliou-se a José Joaquim Seabra o PRD em Campestre até 1920 e chefiava um grande bando de jagunços (cerca de 200 homens), com os quais sustentava as disputas com os membros da família Matos e outros tantos adversários.

Em Campestre sustentou a defesa de suas posições em quatro ataques armados - sendo finalmente derrotado por exigência de Horácio de Matos, quando do Convênio de Lençóis, em 1920 que, numa das suas cláusulas, era exigida sua retirada da cidade que, então, deixou de existir, passando a distrito de Seabra.

Em compensação, exerceu funções estaduais em diversas localidades, morrendo no mesmo ano que a esposa, morando no povoado de Itaíba, em Itaberaba. (Wikipédia).

 


















 



segunda-feira, 19 de outubro de 2020

0 CORONELISMO NA BAHIA - III


HORÁCIO QUEIROZ DE MATTOS

O lendário Horácio Queiroz de Mattos, poderoso coronel baiano, intuía a importância deste legado. Nascido na fazenda Capim Duro, nas serranias da Chapada Diamantina, onde desde os primeiros anos aprendeu a labutar nos garimpos, não possuía instrução formal, mas era dono de uma capacidade ímpar para entender seu tempo, gente, preceitos e tradições. E deu mostras dessa clarividência, em junho de 1919, quando tomou duas decisões segundo o severo código de justiça e honra herdado dos antepassados.

Após cercar com seus jagunços e combater cruentamente por cinco meses, a povoação de Barra do Mendes, condenando os sitiados a sobreviver alimentando-se de animais de estimação, ratos e utensílios de couro como malas, selas e sapatos; Horácio recebeu na trincheira cavada em torno do lugarejo, a visita de uma delegação enviada pelo Coronel Militão Coelho, chefe da comuna e visceral inimigo da família Mattos, há décadas. Empunhando bandeira branca, os cavaleiros propunham uma rendição honrosa, já que não possuíam mais meios para combater o grupo de Horácio. Os sitiantes que também estavam bastante desgastados com aquela guerra sangrenta que já havia deixado mais de 400 mortos, entre os combatentes, aceitaram a rendição nos termos oferecidos.

Ficou acordado que no dia seguinte, 08 de junho, pacificamente, sem molestar os habitantes, Horácio de Mattos entraria na localidade, quando então o chefe dos vencidos deporia as armas e abdicaria do poder sobre Barra do Mendes. Porém, na noite do mesmo dia, o velho coronel Militão, contrariando uma antiga e universal tradição guerreira, ao invés de permanecer ao lado da sua grei, resolve fugir, levando consigo seu filho de 27 anos, e alguns jagunços de confiança; deixando para trás outros filhos, a esposa Maria da Glória, e o restante da parentela.

Na manhã seguinte, ao chegar triunfalmente na vila, montado em um belo cavalo baio, à frente de seus jagunços, Horácio ficou decepcionado ao ser recebido por Joaquim Sodré, o mesmo indivíduo que no dia anterior, havia chefiado a comitiva de capitulação. Subdelegado, e cunhado de Militão Coelho, foi visivelmente constrangido, que Joaquim Sodré reportou a abjurante e pouco digna atitude do velho coronel.

Após ter tomado posse da vila, e proibido qualquer represália contra os familiares do inimigo, como pretendiam alguns dos seus homens, Horácio de Mattos ordenou uma ferrenha caçada aos fujões.

Surpreendidos alguns dias depois, escondidos nas matas que circundavam a serra da Catuaba, não muito distante de Barra do Mendes, os fugitivos entraram em ligeiro combate com os perseguidores, e mais uma vez Militão Coelho deserta, deixando no campo da luta, Nestor Coelho, o filho que o acompanhara na escapada noturna. Capturado, o rapaz é conduzido à presença de Horácio, que numa decisão magnânima, já que tinha perdido dois irmãos, mortos em combate contra Militão, ordena que o prisioneiro seja libertado e encarrega-se pessoalmente, de entregá-lo ileso à mãe, D. Maria da Glória.

Este gesto de benevolência e também de astúcia política, rendeu ao chefe jagunço a simpatia da comunidade, sendo inclusive convidado para almoço de júbilo na casa de Joaquim Sodré, tio do recém liberto Nestor Coelho.

Estava Horácio ainda à mesa de refeição, quando um cavaleiro refreia a montaria na porta da casa, e muito sobressaltado, vem lhe dar conta de um grave incidente envolvendo jagunços das duas facções que estiveram em luta por meses. Conforme relatou, após o combate da serra da Catuaba, um dos sequazes de Militão, de nome José Auto, que conseguiu fugir durante o entrevero, voltou para sua moradia em uma distante povoação onde se homiziou. Informado do fato, Chico Moreira, jagunço de Horácio, partiu no encalço de José Auto; porém, chegando no endereço indicado, encontrou a esposa deste, sozinha e em avançado estado de gravidez. Inconformado com a viagem debalde, Chico Moreira iniciou uma sessão de tortura física e psicológica para que ela indicasse o paradeiro do marido. Após horas neste suplício, sem obter resultados, num ato de extrema perversidade, punhal à mão, ele decide que irá abrir a barriga da pobre infeliz como vingança. Neste momento, José Auto que estava escondido nas proximidades da casa, não mais resistindo às súplicas de sua esposa, por misericórdia, reúne a pouca coragem que possui e do terreiro da casa, atira no malvado jagunço, que, ferido, corre para a povoação de Barro Alto distante três léguas de Barra do Mendes. De lá, sem mais poder prosseguir, Chico envia por aquele portador, recado a Horácio de Mattos pedindo remédios para curar o ferimento.

O ainda jovem chefe sertanejo ouve a narrativa e percebe que as circunstâncias o estão levando a tomar difícil decisão. Apesar de reconhecer os serviços prestados por Chico Moreira durante os vários meses que estivera em peleja contra Militão, também sabe que o respeito à família, principalmente do inimigo inerme, é, sobretudo, um dever do combatente que luta com honra; regra inquebrantável transmitida por gerações da tribo dos Mattos.

Horácio, morigeradamente, despacha de volta o emissário dizendo-lhe que tomará as providências cabíveis. Em seguida, sinaliza para que se aproxime seu jagunço de maior confiança, de quem quase nunca se aparta, e diante dos anfitriões e demais comensais que, em silenciosa expectativa, aguardavam sua decisão, determina:

- Vá urgentemente providenciar o remédio do Chico Moreira.

O cabra apenas balança a cabeça afirmativamente e sai. Minutos depois retorna e pergunta hesitante: - Coroné, eu levo o remédio que o homem carece, ou o que ele merece?...

- E tu por um acaso, é dono de butica?

O jagunço retira-se sem mais perguntas e o almoço continua animadamente.

No dia seguinte, Chico Moreira é executado com dois tiros. Justiça feita conforme "merecimentos" da tradição jagunça.

Por outro lado, o coronel Militão Coelho, também demonstrou, de forma peculiar, que o desrespeito a princípios atávicos, não poderia ocorrer impunemente; sendo ele mesmo, réu, juiz e executor de sua sentença.

Após uma tentativa inócua de retomar, pela força das armas, a vila de Barra do Mendes, Militão refugia-se no município de Pilão Arcado, na casa do coronel Franklin Lins de Albuquerque, amigo e correligionário político. Sabendo-se estigmatizado pelo comportamento pusilânime ante seu maior inimigo, Horácio de Mattos, cai em profunda depressão. Finalmente enclausura-se num quarto, em absoluto silêncio, e num processo de autodestruição recusa água, alimentos, fuma incessantemente, até que morre por adinamia. Uma forma obstinada e cruel de suicídio, como a mostrar para sua gente, quanto prezava a dignidade perdida seis meses antes, naquela canhestra fuga de Barra do Mendes.

Seus restos mortais repousam atualmente sob as águas barrentas do rio São Francisco, no cemitério da antiga cidade de Pilão Arcado, inundada pelo lago de Sobradinho em 1977.

Horácio de Queiroz Mattos, naquele tempo, já avultava como o mais respeitado e temido coronel que a Velha República baiana conheceria. Seu nome passa a ser notícia nos jornais de Salvador; aqui como um líder regional, ali como um chefe de temíveis bandoleiros dos sertões. Pontos de vida díspares explicáveis pelo sectarismo dos jornais baianos, atendendo sempre a interesses momentâneos dos grupos oligárquicos a que pertenciam seus proprietários.

É nesta conjuntura que as eleições para o executivo baiano acontecem e sai vitoriosa a chapa governista encabeçada por José Joaquim Seabra, derrotando a chapa oposicionista representada por Paulo Martins Fontes, juiz Federal, apadrinhado por Rui Barbosa, o Águia de Haia. Eleição esta, como todas antes e muitas depois, feita a bico-de-pena, não refletindo necessariamente a vontade popular, haja vista que a posse do governador depende da Assembleia Legislativa, quase sempre controlada pelo partido dominante e pronta a proceder à verificação de poderes, proclamando eleito o candidato governista.

Exaltado como paladino da justiça, e defensor intransigente das instituições democráticas, Rui Barbosa, alegando falta de lisura nas eleições, não admite a derrota de seu candidato, e, junto com correligionários, busca uma forma de reverter o quadro eleitoral, lançando mão, entretanto, de expediente contrário as suas famosas pregações cívicas. O plano é convulsionar o Estado da Bahia de modo que deixe como única alternativa ao presidente Epitácio Pessoa, decretar uma intervenção federal, onde em última instância, resultará na anulação das eleições baianas. Mas o ardil só é exequível com a mobilização de homens, em armas, e para isso precisam do apoio dos belicosos coronéis interioranos. Alguém lembra então, o nome daquele jovem caudilho da Chapada Diamantina, famoso pela coragem, e imensamente prestigiado no seio da população sertaneja.

Aprovada a sugestão, os integrantes do partido oposicionista entre eles Ernesto Simões Filho, Luiz Viana, Otávio Mangabeira, Pedro Lago, João Mangabeira e outros baianos ilustres enviam através do amigo comum, Manoel Alcântara de Carvalho, carta a Horácio, convidando-o, em nome de Rui Barbosa, para uma suposta cruzada redentora dos sertões. Oferecem- lhe ainda ajuda financeira, armas e apoio nas imprensas baiana e carioca para liderar um levante armado que partindo do interior, chegue à Capital, deponha o atual governador Antônio Muniz, e impeça a posse do recém eleito, J.J. Seabra. Rui e os demais sabem que esta é uma façanha sangrenta e de resultado quimérico; mas de fato lhes interessam mesmo é alarmar o centro do poder no Rio de Janeiro, provocando a desejada intervenção.

Horácio, assim como uma parcela expressiva de outros chefes sertanejos, encontra-se profundamente revoltado com os desmandos do atual governante baiano; não é difícil, portanto, para os conspiradores, convencê-lo a capitanear o movimento armado, e o nome do ilustre Conselheiro da República entre os mentores do movimento é fator determinante para que aceite o convite.

Já naquele tempo, apontados nos discursos acadêmicos como uma mácula social; responsabilizados pelas mais brilhantes mentes da embrionária república brasileira, por cercear o desenvolvimento nas regiões agrárias, os coronéis, subitamente, passam a ser aclamados defensores das classes oprimidas, redentores do sertão. Esta transmutação engendrada por Rui e seus prosélitos, se evidencia nas apoteóticas matérias de jornais oposicionistas, em inflamados comícios relâmpagos improvisados nas ruas de Salvador, e até mesmo em pronunciamentos no Congresso Nacional.

Neste xadrez político-eleitoreiro, os líderes tribais são meros peões, e o sangue que borbotará nos carreiros, caatingas, vilas e lares do sertão baiano irá figurar na história como resultado de conflito entre jagunços sanguinários, eis a sordidez da política partidária amesquinhando homens; apequenando almas.

É, pois, entusiasmado com a possibilidade de estar ombreado com o notável Rui Barbosa, num levante popular, que Horácio de Mattos reúne sua tropa descalça. Aproximadamente dois mil homens, dorsos acobreados pele causticante sol diamantino, pés abrutalhados pelo cascalho cortante dos garimpos, mãos calejadas pelo cabo da foice ou bordas de bateia, músculos enrijecidos pela labuta diária nas grunas escarpadas, são alçados em questão de dias, à condição de guerreiros; irmanados e dispostos a seguir àquele que consideram um igual, nascido no mesmo berço humilde. Este é o perfil do Exército caboclo de Horácio de Mattos, o Coronel-Jagunço.

Ver também:

O CORONELISMO NA BAHIA I

O CORONELISMO NA BAHIA II


Horácio Queiroz de Mattos. Capitulo continuação final

Francisco Otávio L. Ferreira Secretário Adjunto do IFiGFS Estudante do Curso de Jornalismo (UNEF)

Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana - Revista: Ano 1 Nº 1 2004

 

terça-feira, 6 de outubro de 2020

0 CORONELISMO NA BAHIA - II

JOÃO MENDES DA COSTA


 Outro coronel que não costumava utilizar capangas armados para sua segurança pessoal ou ataque a terceiros, foi João Mendes da Costa. Este feirense, não só conquistou um lugar no coração de seus conterrâneos, mas também a gratidão de milhares de anónimos retirantes que por Feira de Santana tiveram a ventura de passar em 1932, quando uma terrível secas assolou o nordeste brasileiro.

Cumprindo o seu segundo ano de mandato como prefeito, João Mendes da Costa muito pouco pode realizar no setor de construções públicas, pois toda a verba disponível nos cofres da municipalidade foi utilizada no socorro da legião de migrantes, que famintos, à porta da prefeitura chegavam, e nunca partiam sem que em seus embornais levassem algum alimento para uma penosa jornada com destino e futuro incertos.

Contudo, apesar da propaiada generosidade, tinha o coronel João Mendes uma peculiaridade em seu temperamento, bem característico do mandonismo: não tolerava ser desobedecido ou contrariado. E foi justamente após o seu mandato na prefeitura, que João Mendes teve a oportunidade de deixar claro que uma decisão sua era inquestionável.

A chuva redentora, que caiu no verão de 1933, revigorou o ânimo da gente sertaneja, enverdeceu campos e pastagens, fez transbordar leitos de riachos, encheu tanques, cacimbas e resgatou o verde de volta à pálida paisagem das caatingas. Entretanto, estas enchentes abruptas em uma terra ressequida, e o calor sufocante trazido pelas trovoadas de verão, favoreceram a proliferação de mosquitos e consequentemente, ocorreu uma grave epidemia de malária na região interiorana da Bahia.

O Governo Estadual, ante mais este flagelo, enviou para os municípios onde a febre palustre incidia mais gravemente, grupos de combate ao inseto transmissor da doença. Estes funcionários públicos faziam inspeções em residências, prédios públicos e instalações rurais, em busca de depósitos de água estagnada; ecossistema propício à multiplicação de pernilongos, vulgarmente chamados de muriçocas. A única forma conhecida à época, de assepsia do local infestado, consistia em pingar gotas de petróleo 'in natura', no depósito aquífero. A medida eliminava de forma eficiente as larvas, mas provocava o inconveniente de tornar a água imprópria para consumo, além de quase sempre, inutilizar o recipiente, que ficava impregnado com o desagradável cheiro do mineral.

Vindos da capital, os - "guardas da peste", - alcunha com a qual a população denominava estes agentes sanitários, chegaram na estação ferroviária de Feira de Santana, vestindo vistosas fardas de cor caqui, causando admiração aos populares que assistiram ao desembarque do pomposo grupo. Conforme orientação das autoridades estaduais, o grupo inicialmente dirigiu- se ao casarão onde residia o coronel João Mendes da Costa, que os aguardava.

Acreditava-se que a aquiescência do coronel para que inspecionassem sua casa, funcionaria como uma espécie de salvo-conduto, abrindo as portas das moradias dos demais feirenses, que como qualquer sertanejo via de regra, eram avessos à gente fardada.

Liderados por um superior hierárquico cujo nome perdeu-se na memória popular, esta grande comitiva chegou no velho casarão localizado na rua D'Aurora, que por sua vez situava-se nas proximidades de uma aguada pública conhecida como "tanque da nação". No local a população mais carente se abastecia de água para consumo doméstico numa fonte jorrante, e vaqueiros conduziam boiadas para beber em cochos construídos com esta finalidade. Área, à vista disso, muito susceptível de infestação pelo vetor da malária.

O coronel, homem de pouca instrução, mas traquejado pela vida pública, os recebeu hospitaleiramente, e ao lado do empertigado chefe da diligência, acompanhou sem obstaculizar, o trabalho dos agentes que foram vistoriando as áreas externa e interna da casa, aplicando gotas de petróleo onde se houve necessário.

Tudo transcorre conforme a expectativa geral, até ser localizado num dos quartos da casa, um grande vaso de barro, cheio d'água; e larvas de mosquitos são detectadas no seu interior. Questionado porque aquela ânfora encontra-se em local úmido, escuro e afastado da cozinha, o coronel esclarece que é um utensílio centenário herdado de seus antepassados, portanto uma relíquia familiar conservada com muito carinho há várias gerações. O chefe dos mata-mosquitos, cioso do seu dever, sem demonstrar simpatia ou benevolência, declara que é necessário desinfetar o recipiente. O coronel tenta contemporizar dizendo-lhe não precisar chegar a tal ponto, pois mesmo sabendo que vazio, o pote poderá perder a impermeabilidade, se compromete em derramar a água nele contida, enquanto a epidemia não estiver debelada.

Para demonstrar que detém a autoridade, o emproado inspetor se mostra irredutível, e determina ao agente que prossiga com a desinfecção. Obediente, o "guarda da peste", enfia a mão em um embornal que traz a tiracolo e retira um pequeno tubo contendo petróleo. Neste instante, já com o rosto ruborizado, alterando o tom de voz, João Mendes adverte:

- Não seja besta, guarde este vidro...

À medida que o diálogo se torna mais áspero, parentes do patriarca e os demais agentes sanitários, acorrem ao cubículo aonde se estabelecera um patético campo de batalha.

Aquele já não é mais um mero vasilhame de barro; é agora, um troféu e ser conquistado. É o confronto da nova ordem, instalada após a revolução de 1930, contra a oligarquia patriarcal, ícone da Velha República. Ao vencedor singular butim: um pote.

Observado por aquela inesperada e silenciosa plateia, e vendo a indecisão de seu comandado no cumprimento da ordem, o inspetor, numa exibição exacerbada de arbítrio, toma a ofensiva:

- Os tempos mudaram! Coronel de patente comprada não manda mais na Bahia! Só recebo ordens do Governo Estadual, ouviu?

E, aliando ação às palavras, inopinadamente arrebata das mãos do subalterno o frasco de petróleo, tomando para si a heroica missão poluidora, em nome da revolução vitoriosa. Só não contava com o contra-ataque do inimigo, que dando dois passos para trás, abre o paletó, saca um revólver e sentencia, em nome do coronelismo resistente:

- Pois então, moleque, despeje! Despeje se você for homem!

É um pandemónio! Uns correm para a rua, outros em direção aos fundos do casarão, enquanto o velho patriarca gira sobre os calcanhares, arma em, punho, procurando em vão, um alvo mais estático. Em segundos, a quieta e descalçada rua da Aurora, é tomada por "guardas da peste" que em debandada fogem rumo à estação ferroviária, fazendo poeira se alevantar no velho caminho das boiadas. O único que não está entre os fugitivos é o pedante inspetor. Não por ser o mais corajoso entre todos, antes talvez, o menos aventurado.

Na correria que se seguiu, o chefe dos mata-mosquitos partiu em direção ao quintal, e tomado pelo pânico, não teve forças para saltar o cercado de varas que circundava o casarão. Assim, como única alternativa, buscou abrigo no oitão da casa, onde ofegante e trémulo, braços abertos, calcanhares unidos e costas colada à parede, tentou ficar o menos visível que aquele arremedo de camuflagem lhe permitia. Já começava a sentir-se ancho naquela posição tragicômica, quando um estalido metálico o faz olhar em direção oposta. Distante apenas alguns passos, o coronel João Mendes da Costa, que se aproximara sorrateiramente vindo pela porta da cozinha, arma engatilhada, e apontada para o infeliz, diz sarcasticamente:

- Despregue de minha parede que eu não gasto bala em lagartixa...

Salvo pela interferência de familiares do coronel, e após acordar do súbito desmaio causado pelo pavor, foi o inspetor levado à estação ferroviária ainda em estado de choque. Retornando à Capital, fez um grande estardalhaço junto às autoridades, que em vista dos acontecimentos, enviou a Feira de Santana uma comissão pacificadora composta de ilustres baianos, da qual fazia parte um dos filhos de João Mendes; jovem advogado, bem relacionado pelo epíteto de "Suíça Sertaneja"; graças à postura de imparcialidade que manteve durante Sentado em uma cadeira ao lado do vaso, de onde teimosamente nos últimos dias relutava em se afastar, arma à cintura, o velho ouviu atentamente o arrazoamento da comitiva. Alegando a completa desmoralização do programa de combate à malária, depois da humilhante expulsão sofrida em Feira de Santana, os visitantes sugeriam que para satisfazer o Governo e a opinião pública, sem, contudo, perder a respeitabilidade, poderia o coronel, frente a umas poucas testemunhas, colocar com as próprias mãos, algumas gotas de petróleo no interior da bilha. Estaria assim cumprida a missão dos agentes sanitários, e o incidente seria dado por encerrado.

Após ouvir calmamente a proposta pacificadora, João Mendes levantou-se e, enquanto palmeava carinhosamente o antigo utensílio foi taxativo:

- Não, senhores, a mão de ninguém, muito menos a minha, vai estragar este pote. Está com minha família há muito tempo... Matou a sede de meu avô, a de meu pai, e na minha infância era dele que eu bebia quando retornava das passarinhadas nas redondezas dos três riachos. O tal do inspetor disse que não sou mais autoridade, e tem razão, meu tempo já passou: mas digam lá aos donos do poder, que nesta casa, a última palavra ainda é minha; e aqui ninguém mexe, custe o que custar!

A comitiva voltou à capital, os mata-mosquitos voltaram à Feira de Santana sob o comando de outro inspetor, o saneamento prosseguiu, mas ninguém ousou voltar ao velho casarão.

Contam os mais velhos que, após muitos anos do falecimento de João Mendes, o pote da discórdia permanecia no mesmo quartinho, como um monumento caboclo em honra aos coronéis de outrora.

As atitudes idiossincráticas destes régulos de aldeia, a princípio podem parecer recrimináveis em sua inteireza; mas a partir de uma análise mais abrangente, levando em consideração o meio sócio-geográfico, que lhes serviu de berço, sem perder de vista ainda, a temporalidade dos fatos, é possível concluir que a linha divisória entre o certo e errado, admissível ou reprovável, perde nitidez à medida que recuamos no tempo.

Nos idos de 1830, para Militão Plácido Antunes, deixar de lavar com sangue a honra maculada, era danar-se perante a sociedade; um opróbrio a ser carregado até o fim da vida; uma tácita abdicação do poder, pois não mais teria o respeito de sua grei.

Também estaria sujeito a severas críticas o coronel João Mendes da Costa, caso voltasse atrás e permitisse que aquele velho pote fosse danificado; melhor seria enfrentar o Estado, à mão armada, que se submeter ao escárnio da provinciana comunidade feirense de 1933.

Não se objetiva aqui, absolver alguns coronéis de eventuais atrocidades antanho.

Entre as qualificações apreciáveis em um chefe sertanejo, estava justamente a firmeza de caráter, a capacidade de reação imediata à afronta sofrida, e uma valentia desmesurada. Reputação que os tornavam respeitados entre os seus pares, temidos por inimigos e admirados pelo vulgo.

Um Coronel, não podia ser transigente com as regras consuetudinárias que a sociedade o nomeava guardião, e ao mesmo tempo lhe impunha, sob pena de não ter legitimada por seus conterrâneos, a patente granjeada por compra ou através de benesses políticas.

Horácio Queiroz de Mattos. Capitulo III

Francisco Otávio L. Ferreira Secretário Adjunto do IFiGFS Estudante do Curso de Jornalismo (UNEF)

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

0 CORONELISMO NA BAHIA - I

 É comum o uso da expressão "coronelismo", com acentuado cunho pejorativo, quase sempre com o intuito de ressaltar os aspectos negativos, da ação e influência, de indivíduos ou grupos dominantes. O vocábulo nos convida a recuar no tempo, até uma sociedade desamparada, onde a lei do mais forte era a única conhecida.

Impossível não associar o coronel da Guarda Nacional à imagem de um tirano bronco, parabellum à cintura, botas de cano longo, esporas de prata, rebenque à mão, olhar raivoso, sempre disposto a martirizar o humilde campónio pelo mais fútil dos motivos. Assim o encontramos descrito na tradição oral e em inúmeras literaturas, é assim, pois, que o inconsciente coletivo costuma caracterizá-lo. Não sem motivos. Abuso de poder, ambição desmedida e impunidade, são relatadas como prática ordinária entre os coronéis; quase todos donos de muitas terras, gado e gente.

Alguns destes homens ficaram conhecidos pela extrema crueldade com que tratavam desafetos, subalternos ou até mesmo, familiares que ousassem contrariá-los. Mas foram exceções. Em sua maioria absoluta, estes chefes interioranos, possuindo ou não a patente de coronel da Guarda Nacional, como tal eram tratados, graças ao respeito e liderança angariados no âmbito de suas comunidades. Liderança esta, assentada basicamente na prática do assistencialismo.

Diante da ausência de serviços públicos, na maioria dos municípios brasileiros, e em virtude da baixa qualidade de vida de seus habitantes, bastava que alguém tivesse alguns hectares de terra cultivada, acesso a três refeições diárias, um mínimo de conforto domiciliar, algum gado bovino e rudimentos de educação, para que fosse considerado afortunado, e de forma natural, galgado à condição de chefe da comuna. Era, portanto, para aquele considerado o mais venturoso dos munícipes, que recorria o miserável sertanejo ignorado pelo poder público.

O coronel substituía, de forma precária, e, muitas vezes, compulsória, importantes instituições sociais. De vezo, desempenhava a função da autoridade policial omissa, do juiz distante ou ausente, e do inexistente banqueiro; não necessariamente, nesta ordem.

Inegável que havia uma troca desigual, pois ao tempo que recebia parcos favores, o campesino emprestava prestígio político ao coronel através do conhecido "voto de cabresto", contribuindo assim, para maior ascensão social e política do suposto benfeitor, ao passo que ele quase nunca saía da situação de miserabilidade que nasceu, continuando na base desta rudimentar pirâmide social.

Com referência aos coronéis do sertão baiano, objeto deste ensaio, cumpre-nos resaltar que raros foram o que exerceram o poder pela força das armas frente à parcela mais humilde e desprotegida da sociedade. Mas quando assim agiram, foi de forma tão avassaladora, que ainda hoje essas façanhas, quando narradas nos terreiros das roças e fazendas, em volta das fogueiras, nas noites sertanejas prenhes de lendas e assombrações, provocam arrepios e insónia aos ouvintes.

Um nome sempre lembrado é o de Militão Plácido de França Antunes, poderoso e truculento coronel do vale do São Francisco, que já em idade avançada, arrebatou para si, a bela Sancha, jovem esposa de seu vaqueiro, elegendo-a senhora da Fazenda Caroá, reduto inexpugnável dos França Antunes.

O acaso, porém, conspirou para que Sancha fosse tomada de amores por Pedro Costa, humilde professor, contratado por Militão para ensinar as primeiras letras à sua linda e inculta concubina. Os rumores deste tórrido e perigoso romance, não tardaram a chegar aos ouvidos do coronel.

Interrogada, a infiel Sancha defendeu-se alegando ser vítima de assédio, não denunciando as investidas do educador para evitar uma tragédia. Arrebatado pelo ciúme, mas inteiramente subjugado pela amante a quem devotava cega paixão, Militão permitiu-se acreditar nesta versão.

Assim, satisfeitas as razões do coração, restavam as exigências do ego; então o ódio do velho tirano voltou-se para Pedro Costa, que avisado à socapa pela amante, saiu em fuga desesperada pelas ribeiras do rio São Francisco e matas adjacentes. Caninamente perseguido pela jagunçada de Militão, foi afinal capturado e conduzido à vila de Xique-Xique, distante muitas léguas da Fazenda Caroá.

Em julgamento presidido por um juiz tão aterrorizado quanto o réu, e um Conselho de Sentença composto por amigos e familiares de Militão, foi o professor condenado, insensatamente, à pena de morte pelo crime de sedução.

Relata-nos Wilson Lins, em seu excelente livro "O Médio São Francisco", que no dia determinado para a execução da sentença, foram transportadas em canoas para a pequena ilha do Miradouro, em frente à vila, várias pipas de vinho, fogos de artifício e comida em abundância. Ali, na presença de convidados pertencentes à aristocracia ribeirinha, foi realizado um banquete, onde além de vitelos assados, carneiros cozidos e bebida à vontade, foi oferecido aos convivas, o horrendo espetáculo do esquartejamento de Pedro Costa.

Durante dias, por ordem do déspota do Caroá, ficaram expostos aos olhos assombrados dos habitantes de Xique-Xique, as vísceras, os membros mutilados e a cabeça empalada daquela pobre vítima do poder absolutista.

Nesta galeria de coronéis truculentos, um outro nome que sobressai pé o de Aureliano Gondim, poderoso chefe político, proprietário de muitas terras e garimpos na Chapada Diamantina. Aurélio da Passagem como era mais conhecido, exercia o mandonismo, segundo relatos de contemporâneos, com crueldade peculiar, pois costumava temperar os castigos impostos a desafetos, com pitadas do mais autêntico humor-negro.

Conta-se que num dia de feira-livre, no povoado de Igatu, domínio e domicílio daquele coronel, um jovem garimpeiro, recém-chegado, emitiu um assobio malicioso ante a passagem de uma bela e desconhecida cabocla. Era filha do temível Aurélio.

Denunciado por bajuladores, o trémulo rapaz foi conduzido por cabras armados à presença do coronel, o diálogo ocorrido é uma peça de surrealismo:

- Intonce é você o moleque que assubiou pra minha filha?

-       Deus me livre sêo coroné! Essa atrapaiação todinha é porque eu sou muito alegre! Vivo assubiano o tempo todo. Lá nos garimpos o povo inté me chama de Passarim!... Nem vi que a filha de vosmicê tava de passage na minha frente...

Depois de um silêncio interminável onde parecendo absorto, Aurélio cofiava a longa barba, e o aflito garimpeiro antevia sua terrível punição, o veredicto foi anunciado com voz pausada e aparente simpatia.

- Já que o moço é quase um musico, então tá perdoado. Um artista merece nosso respeito!

Ante os olhares espantados da sua cabroeira, levantou-se, atravessou a sala, pegou o chapéu no cabide, e ao chegar à porta, conclui:

- Mas também não vamos perdera oportunidade de cunhecêa sua arte... Ele vai ficar aí, assubiando procês, que eu vou inté a fazenda vê os pastos e volto. Se parar de assubiar um minuto que seje... Cortem o beiço dele.

Dizem, que ao retornar já quase à noite, riu incontrolavelmente ao encontrar o infeliz rapaz, com o lábio inchado, cercado por homens ferozes, assoviando uma alegre melodia enquanto lágrimas lhe desciam pela face.

Em outra ocasião, Aurélio da Passagem, estando em viagem de inspeção a suas minas de diamantes, surpreendeu um dos transportadores de cascalho deitado em uma esteira, à sombra de uma árvore, enquanto outros trabalhavam. Indagando ao capataz do garimpo o motivo daquela suposta indolência, foi informado que o sujeito havia alegado forte dor estomacal após o almoço.

Os relatos oriundos da tradição oral divergem sobre o que motivou o procedimento despropositado que se seguiu; uns dizem que o coronel viu aquilo como um precedente perigoso, um mau exemplo a ser repetido por diversos garimpeiros a seu serviço; outros afirmam que ele apenas encontrou um pretexto para dar vazão ao sadismo que o dominava.

O fato, é que, imediatamente, apeou do cavalo e ordenou a um de seus capangas que fosse até uma das choupanas que serviam de rancharia para os garimpeiros, e lhe trouxessem óleo de mamona; produto bastante usado naquela época como combustível para candeeiros, mas eventualmente, também empregado como beberagem para animais de grande porte, dado seu forte poder purgativo. Em seguida, mandou trazerem à sua presença, o garimpeiro achacado e obrigou-o, sob a mira de uma pistola, a beber o conteúdo da candeia. Não satisfeito, concluiu sua diatribe com uma determinação perversa a seus jagunços.

- Levem este cabra preguiçoso pra bem longe daqui. E prestenção: se ele 'despachar' em meus garimpos, acabem com a vida dele!

Sentado à sombra de uma gameleira, enquanto fumava um forte charuto, o coronel observou seus capangas escoltarem o infeliz cascalheira para fora de seus domínios. Ao regressar horas depois, a jagunçada relatou ao histriónico chefe, que depois de algum tempo de caminhada, o garimpeiro começou a ficar agitado e a todo instante perguntava:

- Aqui já pode?

- Não!

Após penosa légua,  já não suportando as dores lacerantes no ventre, volta a inquirir:

- E agora posso fazer as "necessidades"?

- Aqui inda é o chão do coroné, continue andando.

À meia voz, o pobre miserável constata desalentado:

- Vige! O home é dono do mundo... Benza Deus!

Até que em um certo momento, num gesto de extremo desespero, arremete em tresloucada corrida mata à dentro, para contentamento da cabroeira que jocosamente efetua disparos para o alto. O garimpeiro escapou, levando consigo além da preciosa vida, calças e dignidade inteiramente borradas.

Como contraponto a estes régulos de aldeia, muitos outros coronéis foram imensamente estimados por sua gente. Dentre eles, não podemos esquecer de Francisco Dias Coelho, que durante anos comandou a vida política do município de Morro do Chapéu, sem nunca ter possuído uma arma ou jagunços a seu serviço. Diplomata por excelência, nos anos vinte, período particularmente convulsionado do sertão baiano, cenário de sangrentas lutas entre clãs da Chapada Diamantina; Dias Coelho tornou sua cidade conhecida todo o conflito. Era para Morro do Chapéu que parcela considerável da população residente nas zonas onde ocorriam enfrentamentos, e combatentes feridos ou derrotados, demandavam em busca de abrigo. Naquele território neutro, sabiam estar a salvo; um oásis de civilidade meio ao deserto da intolerância.

João Mendes da Costa. Capitulo seguinte

Francisco Otávio L. Ferreira Secretário Adjunto do IFiGFS Estudante do Curso de Jornalismo (UNEF)

Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana - Revista: Ano 1 Nº 1 2004

Filme do Santanopolis dos anos 60